Sobre a crônica*
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O exercício diário da escrita com algum sabor literário encontrado no meio da rua
Beto Seabra - 12/08/26
Escrever todos os dias, faça chuva ou faça sol. Pode ser logo pela manhã, em seguida ao café. Ou depois do almoço, após um cochilo. Ou ainda de noite, quando a casa estiver mais silenciosa. O importante é sentar e começar.
Leio muito mais do que escrevo. Literatura e textos jornalísticos. É que além de leitor compulsivo, sou editor de uma agência de notícias. Edito uma média de 5 matérias e ou reportagens por dia. Sobre todos os tipos de assunto. De reforma tributária à criminalização da misoginia. É uma escola, mas cansa.
Eu gostaria mesmo era de poder ler só literatura. E escrever quando tivesse relaxado. Mas escrevo sempre com prazos apertados. Será que eu conseguiria escrever sem prazos?
Os dois romances que escrevi foram em momentos especiais. O primeiro, eu estava em um setor bem tranquilo do meu serviço e nas horas vagas que eu tinha rascunhava um capítulo, que seria amadurecido nos finais de semana. Foi assim durante um ano, até eu voltar para as hard news e o livro ficar pronto. Pelo menos a primeira versão. Depois foram mais dois anos cortando e revisando até nascer o Silêncio na cidade.
E o segundo, Lembranças de um tempo sem memória, eu escrevi durante a pandemia, quando sobravam tempo e ansiedade, e a escrita me ajudou a lidar com a solidão e o medo. Talvez por isso ele seja um romance carregado de histórias, sem muita preocupação com a forma. Foi um desabafo mesmo. E foi também uma maneira de me manter em forma, escrevendo todos os dias.
Já escrevi dois romances, mas não me considero um romancista. Sou um jornalista que nas horas vagas faz literatura.
De uns anos para cá, adotei a crônica como minha praia literária. Gênero que transita entre o jornalismo e a literatura, me permite treinar a escrita (treino escrita há 50 anos!) e falar sobre temas que me são caros. Posso escrever sobre a intenção do governo local de acabar com o Eixão do Lazer ou sobre uma frase ouvida na rua. O cronista é o ser mais livre do mundo. É o cão vira-latas da literatura.
Mas isso tem um preço. Voltar da crônica para o romance vai exigir de mim um esforço gigantesco. E eu não sei se quero.
As crônicas, por ocuparem um espaço pequeno (não podem ser muito maiores do que 40 ou 50 linhas), exigem da gente um poder de concisão que aprendemos no jornalismo. Me dê uma ideia e 40 linhas e eu escrevo uma crônica. Sobre qualquer assunto. Já escrevi crônicas sobre Dostoiévski e as bets, sobre o café do cerrado, sobre uma frase ouvida durante uma caminhada na rua ou sobre uma lembrança de adolescência, quando uma banda de música me acordou tocando A Banda, do Chico Buarque.

Mas as melhoras crônicas, às vezes, surgem quando não temos ideia do que escrever. Recebo uma mensagem da editora do jornal pedindo uma crônica para aquele mesmo dia. Negocio com ela para entregar no dia seguinte, e aí tenho que correr para escrever algo que seja publicável.
Um dia, sem assunto, comecei a escrever sobre uma situação que já aconteceu com todos nós: perder uma caneta dentro de casa e nunca mais encontrá-la. Imaginei então um mundo das canetas perdidas, para onde elas iriam na companhia de lápis e borrachas, insatisfeitos com o pouco valor que os humanos davam a eles, especialmente agora, em que computadores e celulares estão tomando o lugar daqueles simpáticos objetos que nos serviram por décadas. Dessa situação nasceu uma crônica sobre a Inteligência Artificial.
Soube que uma escola de Brasília usou o texto em sala de aula para discutir com os estudantes o tema.
A crônica tem essa vantagem. Pega os assuntos no calor do momento e propõe uma saída literária para a questão. Sem essa de muitos números ou argumentos. A crônica é uma conversa mansa, um bate-papo sentado no meio fio, ou a literatura ao rés do chão, como gostava de dizer o crítico Antônio Cândido.
Certa vez eu era um garoto de 13 anos e meu pai era dono do bar do Clube da Imprensa. Eu nem sonhava em ser jornalista ainda. Um dia chegou um senhor de óculos escuros e chapéu, acompanhado de músicos e repórteres da cidade, para um bate-papo. Era o grande Cartola! Meu pai me pediu que o servisse e, em razão desse dia em que fui garçom do Cartola, mais de quarenta anos depois aquele momento virou uma crônica. É assim que as coisas funcionam. Vamos guardando memórias, histórias recebidas, frases ouvidas, situações vistas, livros devorados, e misturamos tudo isso e colocamos no papel.
A crônica é aquele mexido que a gente improvisa no jantar com o que sobrou do almoço.
Mas a crônica não pode se confundir com o jornalismo, e muito menos com a retórica do editorialista ou do articulista. Pois o cronista não anuncia nada, nem denuncia, no máximo ele cochicha no ouvido do leitor ou da leitora, alguma coisa que pode ser até importante, mas sobre a qual não precisamos fazer alarde.
A verdade é que não existe uma receita para escrever crônicas. Ruy Castro, grande cronista, disse certa vez que o cronista, se quiser escrever algo que preste, precisa levantar-se da cadeira e ir pra rua. Caminhar, ouvir as pessoas, conversar, trocar ideias, flanar, como diria João do Rio, outro grande cronista.
Ao contrário de outros gêneros literários que exigem concentração, afastamento e longo tempo de maturação, a crônica precisa do contato diário com a vida, pois ela é Cronos, aquele deus que devorava seus filhos, mas também é Mercúrio, o que leva e trás as novidades entre os mundos dos deuses e dos humanos.
Em um planeta assolado pela quantidade quase infinita de informações e imagens, a crônica pode ser um respiro, uma pausa, um descanso para os olhos e a cabeça. Dias atrás uma amiga me disse que leu uma crônica minha enquanto tomava o café da manhã. Aquilo me deixou numa felicidade tremenda, pois crônica e café da manhã combinam muito bem. Crônica tem cheiro de dia nascendo. De pão de queijo saindo do forno.
Leio pelo menos uma crônica por dia. Nos jornais, que leio sempre, em coletâneas em livros, ou nos sites e blogs. E recomendo o Portal da Crônica Brasileira, que traz textos de escritores e escritoras consagrados quem foram grandes cronistas. No dia em que eu não consigo ler uma crônica, é como se eu não tivesse tomado o meu café da manhã. Fica faltando alguma coisa para enfrentar a batalha do dia.
Quando eu era professor de jornalismo, gostava de uma disciplina chamada Oficina de Texto. E um dos exercícios que eu aplicava sempre aos alunos era colocá-los para ler jornais e pedir que escolhessem uma reportagem ou uma simples matéria jornalística de que tivessem gostado. Em seguida, pedia que cada um deles lesse com atenção novamente o texto do jornal e, em seguida, tentassem transformar aquela matéria informativa e, portanto, um texto não literário, em um texto literário.
Era impressionante o que surgia daquela experiência.
Fabular é uma necessidade humana, e pedir a um jovem que conte uma história a partir de uma reles notícia de jornal pode ser uma porta aberta para a criatividade e, quem sabe, para o nascimento de um futuro escritor.
Então a crônica pode estar numa conversa da esquina, numa notícia de jornal, numa recordação guardada na memória ou em uma cena urbana aparentemente banal que só o olhar do cronista consegue distinguir.
Uma das melhores crônicas que eu já li nasceu da falta de assunto enquanto o cronista passeava pelo centro da cidade e viu uma borboleta amarela atravessando a avenida. Centenas de pessoas devem ter presenciado aquela cena, mas só a sensibilidade do escritor andarilho viu naquilo um tema para crônica. E que crônica! A Borboleta Amarela, de Rubem Braga, é perfeita por ser simples. É grande por ser banal. É genial por ser despretensiosa. Vejamos esse pequeno trecho:
(...) Na Rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse; ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento? Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. Nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa ideia. Quando eu o mandar fazer os jardins do meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare… Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta. (...) (Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas).
Então vejam que o cronista conseguiu ver o lirismo onde outros viam apenas uma borboleta perdida no centro de uma grande cidade. O homem atarefado ou a mulher preocupada com seu horário mal notaram naquele serzinho frágil e amarelo voando entre automóveis e passantes. Mas Rubem Braga viu naquela cena não apenas um tema para sua crônica. Viu também o absurdo da vida moderna que não nos permite parar a correria para enxergar algo que para ele é um pequeno milagre: uma borboleta amarela passeando pelo centro cinzento de uma grande cidade.
Nessas horas, a crônica atinge o ápice da literatura e mostra que não é o gênero, ou mesmo a profundidade narrativa, apenas, que definem a grandeza de uma obra literária. Um texto escrito para “tapar” uma coluna de um jornal na primavera de1952 pode ser lido hoje, 74 anos depois, como uma das melhores coisas escritas em língua portuguesa. Isso na minha humilde opinião, claro.

É que também a crônica, mesmo escrita a cinquenta ou cem anos atrás, pode continuar dialogando com os leitores de hoje. E isso não acontece apenas pela poesia de que o texto possa estar impregnado, como em A Borboleta Amarela. Ao trazer para a literatura temas do nosso dia a dia, e por dialogar com o leitor como se estivesse batendo um papo com ele na mesa do bar, a boa crônica tem essa capacidade de penetrar na alma das pessoas, enquanto o restante do noticiário escorre para a vala comum das nossas memórias. E não poderia ser diferente, pois senão os leitores de notícias enlouqueceriam.
É verdade que temos crônicas mais profundas, como aquelas escritas pela Clarice Lispector. Também jornalista, Clarice publicou mais de trezentas crônicas só no Jornal do Brasil. No começo, ela se dizia incompetente para a função, pois não saberia escrever crônicas. Pois o que ela fez durante sete anos em que escreveu no JB foi produzir uma teoria da crônica. É verdade que algumas crônicas foram, na verdade, contos, pois nela os gêneros sempre foram imprecisos. Mas vejamos um trecho de uma crônica lispectoriana, que, mesmo sendo diferente, não deixa de ser crônica:
Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica. E, além de ser neófita no assunto, também o sou em matéria de escrever para ganhar dinheiro. Já trabalhei na imprensa como profissional, sem assinar. Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma. É verdade. Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito. Embora uma amiga médica tenha discordado: argumentou que na sua profissão dá sua alma toda, e no entanto cobra dinheiro porque também precisa viver. Vendo, pois, para vocês com o maior prazer uma certa parte de minha alma – a parte de conversa de sábado. (Amor imorredouro, crônica publicada no Jornal do Brasil em 9 de setembro de 1967, contida na coletânea Clarice na cabeceira, da editora Rocco).
Com esse trecho de uma crônica da Clarice Lispector encerro este depoimento, ou seria uma grande crônica espichada? Deixo para quem leu, a resposta.
*Texto escrito originalmente para uma oficina de imersão em literatura do Instituto Casa de Autores (ICA), do Distrito Federal, ocorrido em 08/08/26.

























Meu caro Beto, permita lhe dizer que vc é muito bom nisso de escrever para os que acordam cedo, achando que o dia só começa se tiver onde meter o pão com manteiga numa boa crônica. O ato pode gerar algum distúrbio, senão no leitor, no arranjo de verbos e advérbios que constituem a obra do autor.
Tudo isso é para lhe dizer que talento para o caso - gerar crônicas - vc tem de fartura. O mundo festeja seu saber.