Gladiador moderno
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Beto Seabra - 03/06/26
Pego o meu aparelho celular, que insistem em chamar de smartphone, pressiono o polegar para liberar o bloqueio e vou mudando as telas usando o indicador até encontrar o que quero.
O que eu quero é algo bem simples: ligar para a minha mulher. Pelo telefone mesmo e não por um aplicativo de mensagens, pois a internet onde estou está muito ruim.
Visualizo o ícone verde chamado “Telefone”, no meio do qual há um desenho em branco de um fone de um aparelho fixo, do tipo que não se vê mais, a não ser em algumas repartições públicas do interior ou em casas de antiguidades.

Pressiono o botão e aparece uma tela preta com um teclado para que eu posso ‘discar’ o número dela. Mas não sei mais de cor o número do telefone celular da minha mulher. Um dia eu já soube, mas ela decidiu mudar de operadora numa época em que não era possível manter o número antigo e de lá para cá esqueci o número novo. Novo há mais de vinte anos. Esqueci, ou nunca consegui lembrar, o dela e os de todos os filhos, parentes e amigos. O único celular que eu consegui decorar é o meu.
Mas sei de memória o número do telefone da casa da minha mãe, que se mudou e não tem mais aparelho fixo há tempos. Lembro também o da casa da minha sogra, que continua firme e forte no mesmo endereço e, pasmem, o telefone do meu antigo local de trabalho, de onde saí faz quase vinte anos. Esqueci todos os outros.
Preciso recorrer então ao ícone ‘contatos’ para encontrar o número do celular da minha mulher. Aparece uma tela informando que o meu aparelho possui 1.203 números de telefone. Fiquei espantado. Não conheço tanta gente assim. Quem será esse povo todo?
Por curiosidade – já esqueci o motivo pelo qual eu precisava falar urgentemente com a minha mulher – vou subindo a tela para ver os nomes daqueles mais de mil contatos, coisa que eu nunca havia feito antes, o que considero uma imperdoável falta de curiosidade para algo tão importante, pois aquela lista interminável é a versão moderna da minha antiga caderneta de telefones, que para um jornalista era uma das coisas mais preciosas, pois nela eu guardava os telefones de todas as minhas fontes, além de familiares, amigos, parentes e colegas de trabalho. Dificilmente haveria mais de mil nomes naquela saudosa caderneta.
Quem estaria entre aqueles 1.203 nomes escondidos no meu celular?
Na letra ‘A’ encontro alguns conhecidos, mas aparecem nomes que não sei de onde surgiram e locais para onde nunca liguei. Um mistério. A letra A parece interminável mas continuo subindo a tela com o uso do polegar até chegar na letra ‘B’.
O primeiro nome também é uma surpresa: Bar do Gato Preto. Onde fica esse bar? Já fui lá alguma vez? E mesmo que eu tenha ido uma única vez, por que o telefone dele está na minha agenda, como seu eu fosse um frequentador assíduo do lugar?
Por curiosidade ligo, para saber se o tal bar ainda existe, mas a ligação cai em uma farmácia, que deve ter herdado aquele número. A atendente não sabia de nenhum bar e desliga de forma abrupta. Será que o Gato Preto ainda sobrevive? Prometo checar mais tarde.
Continuo buscando os contatos. Vejo de relance, e com saudade, na letra ‘C’, o nome de um amigo que já se foi. Na letra ‘D’ descubro que existem seis ‘déboras’ nos meus contatos, todas pessoas adoráveis, uma das quais minha nora, mesmo que eu quase nunca ligue para elas pelo telefone celular. Mas é bom saber que elas estão ali, próximas, pelo menos na lista do celular, ainda que não se conheçam entre si.
Na letra ‘E’ há muitas emergências. Será que eu mesmo salvei esses números? Ou eles entraram sozinhos ali para o caso de eu precisar me salvar ou salvar alguém um dia? De qualquer forma, é bom saber que eles existem.
Vou para o final, usando o polegar para subir a tela rapidamente, e paro na letra R, a letra do nome da minha mulher. Depois, quando tiver mais tempo, prometi a mim mesmo voltar àquela caderneta eletrônica e olhar com calma todos os nomes que lá estão. Fazer uma espécie de inventário da minha vida pela relação de contatos que estão no meu aparelho celular.
E ao chegar ao ‘R’ tenho uma surpresa. Acima do nome da minha mulher, aparece o nome de uma grande amiga que não vejo há muitos anos. Continuamos em contato pelas redes sociais, mas faz pelo menos uns cinco anos que não escuto a voz dela. Penso em ligar, depois desisto. Provavelmente ela não irá atender. Em seguida enviará uma mensagem perguntando se eu liguei ou foi por engano. Eu responderei, envergonhado, que estava procurando o telefone da minha mulher e sem querer liguei para ela. A minha amiga vai entender, isso deve ter acontecido com ela inúmeras vezes, trocaremos amabilidades e desejos de felicidade pelo aplicativo de mensagens, e ficarei mais cinco anos sem ouvir a voz dela.
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Me lembrei para quê eu precisava ligar para a minha mulher. Era só pra saber se eu precisava passar na padaria e levar pão para casa. Ela estranhou, claro, eu nunca ligava pelo número do celular, expliquei que o problema era a internet, etc., e desligamos a chamada logo depois, sem eu entender direito se era pra levar ou não pão para casa.

























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