Brasília e a Bossa Nova*
- Manoel Roberto Seabra Pereira

- 27 de out.
- 3 min de leitura
Beto Seabra - 27/10/25

Brasília e a Bossa Nova nasceram juntas, naquele ano mágico de 1956. Enquanto JK assinava o decreto que criava a Novacap – a empresa que seria responsável pelas obras na nova capital – Tom Jobim e Vinicius de Moraes compunham Chega de Saudade, gravada dois anos depois pela divina Elizeth Cardoso e em seguida por João Gilberto, com sua voz e batida do violão inconfundíveis. Parece até que foi coisa combinada, mas não foi. É que o Brasil vivia mesmo um momento especial.
Passaram-se alguns anos e aqueles dois criadores, não falo de Lúcio e Oscar, os geniais arquitetos da nova capital, mas de Tom e Vinicius, pousaram por aqui e aqui compuseram outra joia da música mundial: Água de Beber.
“Eu nunca fiz coisa tão certa/ Entrei pra escola do perdão/ A minha casa vive aberta/ Abri todas as portas do coração”.
Mas cá estamos em 2025, quase 70 anos depois, e mesmo assim ainda maravilhados, ou assombrados, com tudo o que aconteceu no Brasil nessas décadas.
Vejam este Palácio do Congresso Nacional, onde passamos boa parte de nossas vidas. Frequento o espaço faz quase quarenta anos, primeiro como repórter de veículos externos, e há 27 anos como servidor público da Câmara, onde trabalho como jornalista da Casa. E sabem que até hoje me impressiono com isso aqui?
Não só pela arquitetura do lugar, que é maravilhosa, mas pela riqueza de pessoas que transitam por aqui, para trabalhar, pedir, protestar, reclamar ou simplesmente passear. Duvido que exista outro parlamento no mundo como esse.
Mas vem cá, não diziam que Brasília teria sido construída aqui no Planalto Central para ficar distante do povo? O que deu errado? Ou melhor, por que deu certo? Gente, quer lugar mais povo que Brasília? Aqui tem baiano, mineiro, gaúcho, carioca, paulista, pernambucano, amazonense, paraibano, goiano, capixaba etc. etc. Sem contar os estrangeiros, que não são poucos. Quer lugar mais povo-ado, que esse aqui?
Dias atrás a Câmara recebeu muitas crianças para festejarem sua semana. Filhos e filhas de servidores, estudantes de escolas públicas, pequenos visitantes. Em cada olhar de cada criança eu vi um pouco do Brasil. E juntando tudo foi muito Brasil que eu vi. Já imaginaram encher isso aqui de crianças, todos os dias e o ano inteiro? Transformar o Congresso Nacional numa grande escola? Darcy Ribeiro iria gostar da ideia. Aulas diárias de cidadania. Mas elas, as crianças, é que nos ensinariam, tenho certeza.

Voltemos ao ano de 1956. A partir do ano seguinte levas de candangos começaram a se dirigir para o Planalto Central. Todos queriam participar da construção de Brasília. Trabalho, dinheiro e, o mais importante, sonhos. Tanto que muitos ficaram por aqui mesmo depois que o trabalho acabou.
Meu pai chegou aqui no começo. Minha mãe logo depois. E aqui se conheceram. Ele, mineiro, morava no Rio. Ela, pernambucana, vivia em Recife. Duas lindas capitais, não é? E o que vieram fazer aqui nesse fim de mundo? Sonhar. E continuamos sonhando até hoje, por aqueles que vieram no começo, no meio e no final. Os candangos de ontem e os concurseiros de hoje.
Mas vejam que este texto se alonga demais, pois eu queria apenas falar da construção de Brasília e da Bossa Nova. E aí vieram outras histórias, pessoais e coletivas.
Então vou encerrar com uma frase da Clarice Lispector, que viu Brasília com olhos de espanto:
“Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez”.
*Texto lido na Biblioteca da Câmara dos Deputados, nesta data, durante sarau para homenagear o Dia do Servidor Público.




























Texto maravilhoso filho! Lembranças marcantes … eternas! Parabéns Beto! ♥️
Maravilha! E estamos aqui até hoje!