Veneno antidemocracia

O século XXI não começou bem, depois melhorou e voltou a piorar. E lá se vai mais um ano do terceiro milênio em que a fome, o desemprego, as guerras, as migrações forçadas e o extermínio ambiental caminham juntos. Pensando bem, as grandes desgraças humanas fazem parte de um mal maior: a desigualdade social. O economista francês Thomas Piketty, autor do já famoso “O capital no século XXI”, é um dos organizadores da pesquisa “Desigualdade Mundial 2018”. Segundo ele, em entrevista dada ao jornal El País, quase 30% da renda do Brasil está nas mãos de apenas 1% dos habitantes. É a maior concentração do tipo no mundo. A região em que os mais ricos detêm menor fatia da riqueza é a Europa. “O contin

Um conto (triste) de Natal

A escola deve ser, sempre, o lugar da diversidade. Imagine uma criança ou adolescente ser educado em um ambiente sem conflitos de ideias e diferentes visões de mundo? Crescerá um adulto frágil, intolerante e com pouca imaginação. A democracia pede cidadãos treinados na arte da diferença. Homens e mulheres que possam, no futuro, debater, discutir e convergir para consensos, sem os quais a vida em sociedade torna-se impossível. Mas neste Natal uma escola em Brasília decidiu banir um livro da sua bibliografia só porque a obra, escrita há quase trinta anos e adotada por inúmeras escolas públicas e privadas em todo o país, tem na capa o nome de um escritor que é também político. Bastou que um gru

O troco

A faixa de pano estendida na frente do mercado chamou a sua atenção: “Chuchu a um centavo o quilo. Só hoje!”. Não gostava nem desgostava de chuchu, igual a todo o mundo. Mas a um centavo... Olhou para a moeda cor de cobre que estava há semanas na carteira, sem qualquer utilidade, e não teve dúvidas: entrou na fila, encheu um saco plástico com três chuchus e preparou-se para pagar. − Senhor, é só isso? Perguntou a moça do caixa. − Sim. − Bom, 700 gramas de chuchu é só um centavo. − Um centavo não é o preço do quilo, minha filha? − É, respondeu encabulada a moça. − Então quero meu troco, devolveu o homem, estendendo a mão espalmada com a moedinha. Uma senhora baixinha que aguardava na fila che

Cidadela dos ratos

Não se sabe até hoje quem começou. De uma hora para outra, os meninos tomaram uma decisão: era preciso acabar com a praga de ratos que infestava a quadra. Havia ratos de todos os tamanhos e em todos os lugares, entocados em bueiros, debaixo da terra, nas lixeiras, nos matagais que bordejavam os prédios de apartamento. Eram tantos ratos, que as pessoas começaram a se acostumar com eles. Lembro-me que certa noite havia um grupo de amigos conversando embaixo do prédio, quando uma ratazana gigante passou, despreocupada, como se tivesse fazendo seu passeio noturno. Um deles foi buscar um pedaço de pau para matá-la, e quando voltou viu que ao invés de uma havia três. Saíram dali de fininho, antes

A cidade e as serras

Dia desses, depois ficar quase uma hora preso em um engarrafamento nas ruas de Brasília, lembrei-me de um dos melhores livros que li nos últimos tempos: A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Este último romance do grande escritor português, publicado em 1901, portanto um ano após sua morte, é talvez seu livro mais atual. 117 anos depois de lançado, A cidade e as serras levanta questões que estão na ordem do dia de todos nós. O livro conta a história de Jacinto, um rico herdeiro português que vive em Paris, então "capital do mundo", cercado pelo que existe de melhor e mais moderno em termos de conforto e tecnologia. Um dia, cansado desse “luxo modernista” e em resposta a uma provocação de

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