Um conto (triste) de Natal

A escola deve ser, sempre, o lugar da diversidade. Imagine uma criança ou adolescente ser educado em um ambiente sem conflitos de ideias e diferentes visões de mundo? Crescerá um adulto frágil, intolerante e com pouca imaginação. A democracia pede cidadãos treinados na arte da diferença. Homens e mulheres que possam, no futuro, debater, discutir e convergir para consensos, sem os quais a vida em sociedade torna-se impossível.

Mas neste Natal uma escola em Brasília decidiu banir um livro da sua bibliografia só porque a obra, escrita há quase trinta anos e adotada por inúmeras escolas públicas e privadas em todo o país, tem na capa o nome de um escritor que é também político.

Bastou que um grupo de pais (ou seria melhor chamá-los de clientes?) procurasse a escola para reclamar que o livro adotado tem como autor o deputado federal Chico Alencar, do Psol do Rio de Janeiro, para que a escola Le Petit Galois retirasse a obra da lista de material escolar.

A ironia é que a decisão foi tomada na véspera da festa cristã e é esse o tema do livro “A Semente do Nicolau – um conto de Natal”. Na história, as crianças Lulu e Bié conhecem o velho Nicolau, que representa a figura tradicional do Papai Noel. Ele conta sua história e diz que o importante é preservar o real sentido cristão da festa natalina. Fala sobre a distribuição de presentes, o desequilíbrio entre o consumismo exagerado e as pessoas carentes. Esta é a sinopse do livro, que pode ser encontrado nas grandes redes de livrarias.

Pois parece que os pais da classe média brasiliense viram na história o velho - e já enterrado no resto do mundo - perigo comunista. Não devem ter lido o livro de Chico Alencar, ou se leram não entenderam a mensagem, o que é pior.

O livro do escritor e professor de História Chico Alencar já foi adaptado para peças teatrais e produções televisivas. E nunca se soube antes que leitores, telespectadores ou público de teatro tenha reclamado do conteúdo da obra.

Mas vivemos tempos estranhos. A Constituição proíbe que o Estado censure uma obra literária, mas um grupo de pais sem noção e que morre de medo de ter em casa filhos que pensem por si só, decide baixar a censura por conta própria.

Já imaginou se todos os livros escritos por escritores e escritoras que em algum momento da vida fizeram a opção política por alguma agremiação partidária fossem banidos das listas de leitura? Sairiam das bibliografias escolares e universitárias os livros de Jorge Amado, Gilberto Freyre, Fernando Henrique Cardoso, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Marilena Chauí, Paulo Freire, Raquel de Queiroz (que não teve cargo político mas nunca escondeu suas preferências políticas conservadoras), Ruy Barbosa, José de Alencar, José Américo de Almeida etc. A lista é imensa e não caberia neste espaço.

Proibir um livro por não gostar da preferência política do autor é a pior censura que pode haver. Se eu fosse seguir essa ideia não teria lido Borges, Vargas Llosa ou Nelson Rodrigues. Pobre de quem escolhe o livro pela capa e não pelo seu conteúdo.

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