Cidadela dos ratos

Não se sabe até hoje quem começou. De uma hora para outra, os meninos tomaram uma decisão: era preciso acabar com a praga de ratos que infestava a quadra. Havia ratos de todos os tamanhos e em todos os lugares, entocados em bueiros, debaixo da terra, nas lixeiras, nos matagais que bordejavam os prédios de apartamento. Eram tantos ratos, que as pessoas começaram a se acostumar com eles.

Lembro-me que certa noite havia um grupo de amigos conversando embaixo do prédio, quando uma ratazana gigante passou, despreocupada, como se tivesse fazendo seu passeio noturno. Um deles foi buscar um pedaço de pau para matá-la, e quando voltou viu que ao invés de uma havia três. Saíram dali de fininho, antes que chagassem mais.

Até que um dia a guerra foi declarada. Valia de tudo: estilingue, espingarda de chumbo, cabo de vassoura, anzol. Sim, pois uma das técnicas de extermínio consistia em pescar as ratazanas da janela dos blocos, com uma isca de pão ou queijo.

Para desentocar os roedores, eram usadas tochas feitas com papel de jornal. Do lado de fora, os caçadores aguardavam as ratazanas, que saíam tontas por causa da fumaça. E só se ouviam os guinchados dos bichos e os gritos dos moleques: “já matei oito!”; “ah, é pouco, já peguei uns quinze”. Virou uma competição de quem matava mais, tudo com o consentimento dos adultos, que não aguentavam mais esperar uma providência das autoridades sanitárias.

Estávamos nos anos 70, em plena ditadura militar. Naquele tempo, não havia legislativo local que pudéssemos pressionar, e muito menos administrador regional. O governador do Distrito Federal era uma figura que transitava apenas na Esplanada dos Ministérios e nos quartéis, e um ilustre desconhecido para as pessoas comuns.

Em razão da censura, a imprensa podia pouco, mas foi com ela que contamos no dia seguinte. Um repórter de um jornal da cidade, que morava na quadra e viu com os próprios olhos a campanha de extermínio, apareceu no dia seguinte, logo cedo, acompanhado do fotógrafo.

Para causar maior impressão, juntamos todos os ratos mortos em uma grande montanha macabra, para depois atear fogo. E como o cheiro estivesse insuportável, colocamos camisas embebidas em álcool para tapar os rostos. Na foto que saiu no dia seguinte na capa do jornal, parecíamos uma gang de mascarados, armados com pedaços de pau, ao lado do nosso troféu.

A imagem causou repercussão e, semanas depois, iniciaram a desratização da quadra. Vitória dos moleques que enfrentaram os ratos e o descaso dos governantes para com a vida dos moradores da cidade.

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