A felicidade da crônica diária
- Manoel Roberto Seabra Pereira

- 29 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Beto Seabra - 29/12/2025

Gosto muito de crônicas. Tanto que até me arrisco a escrever quando me pedem uma ou quando o tema parece irresistível. Invejo as Crônicas — com "C" maiúsculo mesmo — escritas por Rubem Braga, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros gigantes da nossa literatura. Entre os da nova geração, me mordo de inveja quando leio Martha Medeiros, Ruy Castro ou Antonio Prata.
Não é uma inveja ruim, do tipo que desejaria ver o invejado morto — ainda que os primeiros citados estejam, de fato, mortos, mas vivíssimos no panteão da literatura brasileira. É uma inveja boa, que faz a gente soltar um palavrão ao se deparar com um texto primorosamente escrito.
Vejam, portanto, que na verdade eu amo os cronistas brasileiros. Leio eles todos os dias, faça chuva ou faça sol. Quando fico algum dia sem ler crônicas, me sinto mal, como se faltasse algum mineral no meu organismo. A crônica é o equivalente espiritual do café; e se leio uma crônica enquanto tomo o café da manhã, tanto melhor.
Estou lendo um livro do Humberto Werneck chamado Viagem no país da Crônica. É uma reunião de textos que ele publicou no Portal da Crônica Brasileira. São comentários sobre o fazer cronístico escritos com tanta graça que também poderiam ser chamados de crônicas — ou metacrônicas.
Quando descobri esse portal, fiquei enlouquecido. Na primeira vez que entrei lá, li mais de 30 crônicas de uma só tacada. Saí tonto, como se tivesse tomado dez xícaras de café. Li várias de Antônio Maria, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Vinicius de Moraes (de quem eu havia esquecido a faceta de grande cronista), entre tantos outros.
Ao ler o livro do Werneck, descubro — ou relembro — que grandes romancistas do Brasil foram também imensos cronistas, a começar por Machado de Assis, talvez o nosso primeiro mestre do gênero no século XIX. E sigo lendo as crônicas de outros expoentes do passado: Graciliano Ramos, Lima Barreto e Rachel de Queiroz.
Depois de ler tanta gente boa, sabe o que descobri? Tudo bem, talvez eu não seja o primeiro a dizer isso, mas para mim foi algo completamente novo, então me sinto no direito de explanar a descoberta neste espaço: os nossos grandes escritores se aproximavam deliciosamente da vida mundana, no conteúdo e na forma, ao escreverem suas crônicas.
E não poderia ser diferente. Imagino o jornal diário cobrando uma crônica nova de Otto Lara Resende: “Seu Otto, a crônica está pronta?”, perguntava o subeditor da página de Opinião. “Calma, colega, estou quase concluindo. Só mais uns minutinhos...”, respondia o Otto.
Mesmo produzidas às pressas e “ao rés do chão”, como lembra Werneck, as centenas de textos do Portal da Crônica Brasileira são literatura de primeira. Isso apenas reforça uma característica tão nacional: a nossa imensa capacidade de improvisar sobre quase tudo. Duvido que outros países possuam tantos e tão bons cronistas como os que existiram, e ainda existem, no Brasil.
Quando mais um ano termina e o mundo vive momentos tão perigosos e bicudos, quem sabe a leitura diária de crônicas — as passadas e as dos nossos cronistas do presente — possa fazer o contraponto necessário ao emaranhado de más notícias que nos cercam. Que em 2026 possamos ler muitas crônicas. É o meu desejo sincero de um Feliz Ano Novo para todos.




























Me veio a lembrança de vc na casa do vovô Seabra, passando as tardes de domingo deitado na cama dele lendo. Disso eu tenho inveja, pois hoje teria esse hábito como vc.
Prometo que 2026 vou ler, e começar pelas crônicas 😉
Sou igualmente apaixonada por crônicas. Adoraria ter talento e disciplina para alguns rabiscos...
Beto Seabra, o melhor amigo da leveza. Com ela, suas crônicas desfilam na passarela do cotidiano, encantando e iluminando nossa existência. Abraços e felicidades, Marcos Fabrício.
Meu amigo Beto, o reinventor da crônica pelo AlfaBeto Seabra! Congratulações! Um novo ano realmente novo para você, Rosana, filhos e família!!!
Senhor Beto Seabra, pois o senhor também é um dos nossos grandes Cronistas. Parabéns!!!