Tabacaria virtual
- Manoel Roberto Seabra Pereira

- há 3 dias
- 3 min de leitura
Beto Seabra - 11/01/2026

Você estava pensando em retomar a leitura daquele livro, mas aí o Zap tinha 125 mensagens, foi só dar uma olhada e... esqueceu do livro. Caiu na bobeira de abrir o Face, mas tinha tantas postagens novas, e algumas até legais, que desistiu de fazer aquela caminhada planejada. O amigo que quase nunca manda nada enviou um link pelo Insta, você entrou lá e, quando viu, ficou mais de uma hora no scrolling, e aquele filme ficou para depois.
Sei que é difícil lembrar como era a vida antes das redes sociais, mas uma coisa é certa: ela era mais sua. Você tinha mais poder de decisão sobre o que iria fazer ou deixar de fazer, sobre o que iria ler ou ver, ou deixar de ler ou ver. Em menos de uma década, nossas vidas – corpos e mentes – foram colonizadas por infinitas decisões que estão além da nossa vontade.
Você não acordou hoje pensando em ler uma reportagem sobre o dia mais quente do século na terra do Papai Noel, mas aí um amigo postou no grupo, você achou o título interessante e, como diriam os franceses, voilà!: você foi fisgado.
Pode parecer lenga-lenga, afinal, eu não sou obrigado a frequentar as redes sociais e, se entrei nelas, é porque de alguma forma me beneficio dessa espécie de tabacaria virtual, repleta de produtos viciantes. É verdade. Mas a questão aqui é outra.
As tecnologias de informação e comunicação que surgiram antes das redes sociais traziam benefícios e também promoviam estragos. Basta pensar no telefone celular. Não o smartphone, mas o velho e bom celular usado apenas para falar e ouvir. Lembro que anos antes de eu ter o meu primeiro aparelho móvel, ali pelo início dos anos 1990, vi um celular que ficava acoplado em um carro oficial do órgão público no qual eu trabalhava. E lembro que o servidor que o utilizava, do alto escalão, vaticinou: “Essa porcaria vai acabar com a nossa privacidade”.
Ele lamentava que a secretária do governante ao qual ele era subordinado o encontrava onde estivesse, graças ao celular do carro, o que não acontecia antes. Mas, de certa forma, você ainda tinha o mínimo de poder de decisão sobre a sua vida. E, vamos combinar, o celular é hoje uma ferramenta indispensável. Claro que é possível viver sem ele, mas com ele tudo fica mais fácil.
Agora, cá entre nós, quais benefícios mesmo as redes sociais trouxeram para a sua vida? Digo benefícios mesmo, não vale dizer que elas “aproximam as pessoas” ou algo do tipo. Toda tecnologia nos traz alguma facilidade para o dia a dia. O sistema de correios permitiu que o ser humano se correspondesse com pessoas localizadas em outras cidades ou países, o telefone inaugurou o diálogo a distância, o rádio trouxe para dentro da sua casa o noticiário e o universo musical, a fotografia e o cinema criaram duas novas formas de arte, etc.
Mas ainda tento entender que benefícios as redes sociais trazem. Claro que elas são uma mão na roda (que expressão antiga, meu Deus!) quando você quer divulgar o seu produto ou espalhar aos quatro ventos (outra expressão fora de moda) o quanto a sua vida é bacana e como você tem ideias legais. Mas isso nos torna melhores ou a nossa vida mais confortável?
Vejam que não sou contra as tecnologias. Para mim, a internet é a maior invenção humana desde a imprensa. A web democratizou a informação e incluiu milhões de autores e autoras no mundo antes restrito da comunicação de massa. Mas também é verdade que, com a popularização das redes sociais, ali por volta de 2010, cresceu o fenômeno das fake news e a desinformação passou a ser a regra.
Às vezes acho que as redes sociais são como o refrigerante ou o cigarro. Não trazem nada de bom para o nosso corpo ou a nossa mente, mas a gente gosta delas. E viciam também, tal como o açúcar e a nicotina. Ou seja: vieram para ficar.




























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