A cidade e as serras

Dia desses, depois ficar quase uma hora preso em um engarrafamento nas ruas de Brasília, lembrei-me de um dos melhores livros que li nos últimos tempos: A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Este último romance do grande escritor português, publicado em 1901, portanto um ano após sua morte, é talvez seu livro mais atual.

117 anos depois de lançado, A cidade e as serras levanta questões que estão na ordem do dia de todos nós. O livro conta a história de Jacinto, um rico herdeiro português que vive em Paris, então "capital do mundo", cercado pelo que existe de melhor e mais moderno em termos de conforto e tecnologia.

Um dia, cansado desse “luxo modernista” e em resposta a uma provocação de seu amigo Zé Fernandes, que ao contrário de Jacinto amava suas origens rurais, o personagem resolve retornar às serras de seu país de origem para encontrar o que havia perdido na grande metrópole: a natureza, a simplicidade e a felicidade.

Mas longe de ser um romance maniqueísta, que faz a crítica fácil aos avanços da modernidade, o livro de Eça nos faz pensar no uso (ou mau uso) que fazemos da tecnologia. A crítica Maria Tereza Faria, que assina o prefácio da edição de bolso da L&PM, afirma que o livro de Eça de Queiroz nos faz refletir sobre aspectos fundamentais de nossa sociedade atual.

Para Eça, escreve Maria Tereza, "não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de utilizar os avanços por ela proporcionados de forma humanitária, de forma que o homem e a natureza sejam o valor maior - postura do indivíduo verdadeiramente moderno, civilizado, em dia com o seu tempo".

Ao ver milhares de automóveis se locomovendo a passo de lesma, levando 60 minutos para percorrer uma distância que poderiam cumprir em 15 minutos, eu me pergunto: para que mesmo criamos tudo isso? Quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ser algo em si, tão ou mais importante que o próprio ser humano, é porque chegou a hora de nos retirarmos para as serras, nem que seja uma retirada puramente retórica.

Ao deixar Paris e voltar à sua terra natal, o vilarejo de Tormes, Jacinto antecipa um dilema que nos persegue quando caminhamos para a terceira década do século vinte: de que valem tantas facilidades e novidades tecnológicas, se no final elas não conseguem proporcionar melhor qualidade de vida? Passar de duas a três horas por dia dentro de um carro ou de um ônibus não é um preço muito alto que se paga para ter acesso ao conforto proporcionado pela cidade grande?

E o que dizer da violência urbana, da poluição e do barulho cada vez maiores, que fazem da vida em uma grande cidade um tormento sem fim? Claro, existem as compensações, que não são poucas. Mas a questão que o livro coloca é: se fizemos tanto para melhorar nossas vidas, porque continuamos sofrendo?

Brasília é um bom exemplo de cidade moderna, projetada quando o automóvel já era o principal meio de transporte do mundo, e mesmo assim foi surpreendida com a explosão no número de veículos. Por que isso aconteceu? Existem várias respostas, entre as quais a má qualidade do nosso transporte público, o que faz com que o principal sonho de consumo de todo brasiliense seja ter o próprio carro.

Outra resposta tem a ver com aquilo que Eça de Queiroz antecipou em seu romance. Ao invés de usarmos a tecnologia para facilitar a nossa vida, transformamos o objeto tecnológico em algo superior ao próprio ‘ser’ humano. Cultuamos a tecnologia, não pelo uso que se faz dela no dia a dia, mas pelo que ela representa para o homem moderno, como símbolo de status e ascensão social.

Ficar nas serras de Portugal ou voltar à cidade de Paris? Esta é uma decisão que, ao final da história, Jacinto terá que tomar. Deixo aqui o final em aberto, para que a leitora possa ela mesma conhecer e apreciar a escolha do personagem de Eça de Queiroz.

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