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Copo Giori

  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Beto Seabra - 23/06/2026

Ilustração de Cacá Soares




O ato de lavar louças precisa ser estudado pela ciência. Por mais que a tecnologia tenha ajudado nas últimas décadas, com máquinas e utensílios que tornam a tarefa menos árdua, esse ainda é um dos trabalhos domésticos mais comuns e democráticos, pois qualquer um da casa, ou mesmo uma visita, pode ajudar a manter a pia da cozinha limpa de pratos, copos, talheres e panelas.


E mesmo a presença de uma máquina de lavar louças, que só existe para uma minoria de famílias brasileiras, exige o trabalho mínimo de tirar o excesso dos pratos, colocar na máquina e depois retirar ao final da lavagem para guardar. Então algum trabalho restará existindo.


Mas o que me encanta é saber que o ato em si de lavar a louça pode funcionar como uma terapia, desde que seja espontâneo. Talvez pelo fato dele ser realizado na cozinha, onde está a alma da casa, isso o torne menos pesado e tenha algum encanto.


Uma das lembranças que tenho das grandes festas que aconteciam na casa do meu avô paterno em Manhumirim, em Minas Gerais, era justamente na cozinha e na hora de lavar a louça. Não havia máquina, claro, e a quantidade de coisas para lavar era imensa após qualquer refeição, pois às festas na casa do meu avô nunca iam menos de cem pessoas, entre parentes, amigos e vizinhos.


Para garantir a limpeza do que saía da pia e tornar o ambiente mais descontraído, meu tio João Pereira Filho, o Janjola, inventou a tese do Copo Giori. Era o seguinte. Giori era um amigo da família que morava em Belo Horizonte e sempre que ia a Brasília ficava lá em casa, pois também era amigo do meu pai, Manoel Esperidião Pereira, o Cri, irmão do Janjola.


Não me lembro de ver o Giori nas festas em Manhumirim, mas seu nome estava sempre sendo lembrado. É que meu tio repetia o seguinte mantra, quando pegava no escorredor de pratos um copo qualquer e este estava visivelmente bem lavado: esse é um Copo Giori!


É que o Giori era muito asseado. Homem sempre impecavelmente vestido desde a hora em que se levantava. Impossível encontrar qualquer sujeirinha ou nódoa na roupa do Giori. E estava sempre de barba feita e os poucos cabelos bem penteados.


Não sei se o Giori lavava os próprios copos que usava, mas, certamente se lavasse, os tais copos ficariam um primor de limpeza. Deve ter sido a partir daí que o meu tio se saiu com essa do Copo Giori. Era uma forma de chamar a atenção de todos para a importância de manter a louça e a cozinha limpas em uma festa com tanta gente, e, ao mesmo tempo, fazer isso sem magoar as pessoas que cuidavam da limpeza.


Se por acaso escapasse um copo não muito limpo da pia, lá ia ele, o tio Janjola, lavar mais uma vez o copo para deixá-lo à moda Giori. E mostrava isso como um troféu, mas de forma tão delicada, que nem as pessoas que haviam ficado responsáveis pela louça da vez se sentiam envergonhadas.


O Copo Giori era uma espécie de objetivo final ao qual todos nós deveríamos alcançar. Na cozinha ou na vida.

 
 
 

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