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Quatro livros em busca de um lugar

  • há 12 horas
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 9 horas

Beto Seabra - 26/04/2026




Descobrir uma cidade a partir de quem escreve nela, às vezes sobre ela, pode ser uma aventura divertida e diferente. Nas últimas semanas foquei minhas leituras em autores de Brasília, não necessariamente nascidos aqui, mas também aqueles ou aquelas que vieram de fora e escolheram viver no Distrito Federal.


Separei para esta resenha, escrita na semana em que a capital completa 66 anos, quatro livros, onde o único critério adotado foi a falta de critério. Minto. Foram livros que chegaram até mim, indicados por outros leitores ou deixados sobre a minha mesa de trabalho por quem conhece a minha paixão pela literatura. O aleatório, acreditem, é capaz de criar critérios que a própria razão desconhece.


Um romance de geração


Começo pelo romance O grande amor de nossas vidas, do baiano Ivan Sergio Santos, radicado em Brasília. Mesmo sendo uma “edição do autor”, ou por isso mesmo, o livro tem acabamento de primeira, da capa ao miolo. Em 327 páginas Ivan Sergio conta a história de dois amigos que cresceram em Brasília durante a ditadura militar e eram apaixonados pela mesma mulher. O grande amor de nossas vidas foi premiado com a Bolsa de Criação Literária Funarte/Biblioteca Nacional.


O romance cobre quarenta anos de história – do início dos anos sessenta ao começo do século 21. Pedro, Raul e Ana Maria, que compõem o triângulo amoroso, são adolescentes, no início da narrativa; jovens, no desenvolvimento da história; e adultos, ao final, mas em todos os momentos marcados pela ditadura militar que durou 21 anos e alterou profundamente os sonhos de uma geração.


Ivan Sergio é hábil narrador e consegue contextualizar as histórias dos personagens com os acontecimentos ocorridos no Brasil naqueles quarenta anos que abrangem o fim do governo João Goulart, a ditadura empresarial-militar (1964-1985), a redemocratização e o início do governo Lula. É livro que se lê com prazer, apesar das passagens terríveis envolvendo torturas e traições, que tornam a aventura das personagens principais ainda mais dolorida.


Jornalista com vasta experiência, Ivan Sergio Santos também soube trazer para sua narrativa figuras da fauna política e da vida boêmia da cidade. Tais personagens trazem humor para o romance, mesmo quando protagonizam histórias pouco edificantes. Sem estar preocupado em entregar um livro politicamente correto, mas que em nenhum momento se perde no anedotário de uma geração, O grande amor de nossas vidas é um relato sincero, consistente e verossímil sobre uma cidade que, mal surgida dos canteiros de obras, teve que suportar o peso dos anos de chumbo.


O jornalista Carlos Henrique, que assina a orelha do livro, afirma que a obra de Ivan Sergio “é sim um romance de geração”. Para ele, “Pedro, Raul e Ana Maria somos nós, que nos amávamos tanto e tivemos a juventude sufocada por 20 anos sob o regime estúpido do medo”.



O massacre da GEB


Entre um romance e outro, sobre o qual falo já, recebi de uma amiga um livrinho (uma novela curta, de 70 páginas) intitulado Memórias da Capital Severina, assinado por Vladimir Petrov. Não adianta buscar o nome do autor nos catálogos literários. Petrov é pseudônimo de Pedro Augusto, um adolescente brasiliense de 16 anos que correu riscos ao decidir contar de forma ficcional o famigerado e trágico massacre dos candangos no Acampamento da Pacheco Fernandes, ocorrido durante a construção de Brasília.


 O livro tem o frescor da juventude de Pedro Augusto, ainda que trate de um tema tão pesado. A narrativa conta a história de Severino, que veio andando com a família do Nordeste para o Planalto Central em busca de um futuro melhor, mas que no caminho viu a tragédia e aqui encontrou violência e abandono.


O autor assume um lado da história: o de que o massacre que vitimou candangos durante uma refrega entre trabalhadores revoltados com a má qualidade da comida e soldados da GEB (Guarda Especial de Brasília, que precedeu a criação da Polícia Militar do DF) não seria um fato isolado naqueles primeiros anos da Nova Capital. Acidentes de trabalho acobertados, péssimas condições de moradia e um regime de vigilância perpétuo da polícia local – que antecipa o que viria poucos anos depois com a ditadura militar – descolorem o quadro idílico da construção da Capital da Esperança.



Um romance intrigante


O terceiro livro desta resenha é o romance Um corpo para Jaime, da escritora Luiza Fariello. Jornalista, professora e pesquisadora em Literatura Brasileira pela UnB, ela nasceu em São Paulo e se estabeleceu em Brasília há quinze anos.


Nessa narrativa intrigante de 166 páginas, Luiza Fariello trata de um tema que, pelo menos para mim, é inédito. Mariano, personagem principal, vive só com os gatos após a morte da mãe e decide criar um personagem virtual, ao qual dá o nome de Jaime. Homem perfeito (ainda que incorpóreo), Jaime encanta os amigos que conquista na internet e atrai uma mulher, Olga, que quer conhecê-lo pessoalmente.


Boa parte do livro é a peleja de Mariano para conseguir um corpo para Jaime. Entre o suspense e o romance policial, ou social, Luiza Fariello constrói uma história que nos leva a pensar sobre a solidão dos grandes centros urbanos, que não se resolve pelas redes sociais, talvez antes seja amplificada, e o grande abismo que existe em Brasília entre os estratos mais altos da sociedade e os trabalhadores batalhadores como Mariano.    


Mesmo tendo estudado em uma escola particular de classe média, onde sua mãe trabalhava e ele era bolsista, Mariano não consegue nunca entrar naquele mundo dos residentes no Plano Piloto. Moradores do Entorno do Distrito Federal, eles passam os dias úteis em uma quitinete alugada na Asa Sul para facilitar o deslocamento diário. Mas mesmo este artifício não impediu que ele continuasse sendo tratado pelos colegas do colégio como sendo alguém “de fora” do Quadradinho.


Contista com livros finalistas em dois prêmios literários importantes (Oceanos e Candango), Um corpo para Jaime é o primeiro romance de Luiza Fariello. A capacidade dela de misturar, como explicou o escritor Luiz Ruffato, “romance social, romance policial, romance de suspense e com toques de humor negro”, e ainda criar “um personagem complexo e cativante como Mariano”, mostram que a escritora possui o domínio completo sobre a arte de contar uma boa história e com extrema capacidade de criar “mundos novos” em uma literatura hoje saturada de narrativas que enfocam lugares – e personagens – comuns.



Uma narrativa sobre a crise da meia-idade

 

Deixei para o final da resenha um livro que me trouxe muito prazer em ler. Refiro-me ao romance Só vale a pena se houver encanto, do poeta, cronista e contista André Giusti. Nesse romance de estreia, ele conta a história de um homem de meia-idade, jornalista igual a ele, que vive em crise após o fim do casamento e a incapacidade de se manter no emprego.


Apaixonado por carros e música, André Giusti leva esses dois universos para a história de Alessandro Romani, que além de jornalista é escritor. Os passeios de Romani em seu carro antigo conversível, ouvindo músicas de rock ou blues, fazem o contraponto ao inferno das redações de emissoras de rádio e televisão por onde ele passa ao longo de duas décadas de história, ou estórias.


Casamento desfeito, romances fracassados e amigos mortos pontuam a tragicomédia da vida de Romani, o que fazem do livro de André Giusti diversão garantida, mas ainda assim com alta dose de inventividade literária.


Ao recuperar o bom uso dos diálogos, que andam um tanto sumidos na nossa literatura pátria, e rechear a vida de um homem comum com fatos históricos – “grande parte do romance traz as mazelas da política brasileira, entre elas o golpe contra a presidenta Dilma”, lembra a escritora Stella Maris Rezende, que assina a orelha do livro – o escritor consegue entreter e fazer literatura de qualidade, algo que anda em falta por aqui.  


Como define na quarta capa do livro o escritor Sérgio Tavares, “transitando pela fronteira imprecisa da ficção e da autoficção, André Giusti relata, neste monumental romance, a crise do gatão de meia-idade”. Em crise, sim, mas sempre com muito humor.


De volta aos 66


Ao chegar aos 66 anos, Brasília mostra uma literatura que se identifica com a natureza híbrida do lugar. Uma cidade, ou unidade da federação – quando falamos em DF e seu Entorno – que é sede dos três poderes, mas é também berço de milhões de brasilienses, candangos e forasteiros das cinco regiões do Brasil que adotaram a capital federal e fizeram dela um cadinho rico de vivências e construíram um espaço geográfico multicultural e desigual.  Que a arte feita por aqui não nos deixe esquecer quem somos.           

      

Onde encontrar os livros citados acima:


- O grande amor de nossas vidas, de Ivan Sergio Santos. Edição do autor (Brasília, 2025). Contatos:  isergiosantos@gmail.com.br - Facebook/ivan sergio santos


- Memórias da Capital Severina, de Vladimir Petrov (Pedro Augusto Oliveira Falcão). Edição do autor, Brasília, 2026. Contatos: vladimirpetrov@gmail.com – Instagram: vladimirpetrovescritor


- Um corpo para Jaime, de Luiza Fariello. Editora Patuá, São Paulo, 2025. www.editorapatua.com.br


- Só vale a pena se houver encanto, de André Giusti, editora Caos & Letras, Nova Lima (MG), 2025. www.caoseletras.com 

 
 
 

1 comentário


Renata Maria Braga Santos
Renata Maria Braga Santos
há 10 horas

As ótimas resenhas do Beto Seabra estimulam a vontade de ler todos os 4 romances.

Destacam as caracteristicas centrais dos livros com rigor mas com afeto. As críticas dizem muito do resenhador que tem um olhar empático e generoso com as obras e autores. Parabéns, Beto.

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