Primos
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Beto Seabra - 09/05/26
A literatura nunca foi generosa com os “primos”. Talvez só os “irmãos” tenham sido mais espezinhados nos livros, incluindo a Bíblia, do que os filhos dos nossos tios. A lembrança óbvia é O Primo Basílio, do Eça de Queiroz, um romance terrível sobre traição e mau-caratismo.
Mas eu sempre dei sorte com meus primos. E olha que tenho muitos e muitas, dos dois lados familiares. Por meu pai ser o caçula de uma família de onze irmãos, quase toda a ‘primaiada’ dos Pereiras é mais velha do que eu. Pelo lado materno, os Seabras, é o contrário. Minha mãe é a filha mais velha de dez irmãos e, na condição de primeiro filho e primeiro neto, ganhei de presente uma renca de primos e primas, e algumas delas me chamam de tio até hoje, pela diferença de idades.
Eu sempre achei que os primos fossem eternos. Ou que pelo menos eu iria até o fim ao lado deles. Cresci rodeado de parentes, onde os primos eram a maioria, e em determinado momento precisei aceitar a perda de parentes mais velhos: meus avós, tios e tias, e meu saudoso pai. Mas os primos eu sempre os imaginei imunes ao tempo.
Pois nas últimas semanas perdi dois primos muito queridos, ambos mais velhos do que eu. Meu xará Roberto, filho do meu tio Adão, e o Gilberto, o Giba, filho do meu tio Joaquim, o Quinquita. E como os dois eram vizinhos e muito amigos, as perdas de Roberto e Giba doeram ainda mais entre os familiares. De repente abriu-se um vazio enorme na família Pereira.
A hora da perda é também o momento de lembrar. Sem as recordações, a vida da gente vira um presente contínuo e sem graça. Então é preciso lembrar sempre. Contar e ouvir histórias, ou estórias. Se forem um pouco mentirosas e bem engraçadas, melhor ainda.
A recordação mais antiga que tenho do Roberto, que faleceu aos 71 anos, em abril deste ano, foi nas férias que fui passar na fazenda do pai dele, em Durandé, Minas Gerais. Dez anos mais velho do que eu, ele era pra mim um verdadeiro herói, pois estava sempre montado em um cavalo, com botas de couro e chapéu, correndo para lá e para cá e resolvendo problemas. Eu era uma criança e ele pouco mais do que um adolescente.
Até que no final das férias o Roberto pediu autorização ao meu pai para me levar em uma pequena comitiva até a cidade de Durandé, que naquele tempo era apenas um vilarejo. Eram pouco mais de 5 quilômetros, mas aquela distância em cima de um cavalo, para uma criança que nunca tinha cavalgado, era muita coisa.
Fomos eu, ele, o irmão dele, Rogério, um pouco mais velho do que eu, e mais uns companheiros que trabalhavam na fazenda. Também devia estar na comitiva o Roque, irmão caçula dos dois e que regulava com a minha idade, e que nos deixou muito cedo em razão de um afogamento. A morte do Roque foi a primeira grande perda familiar que sofri. Me senti traído pelo destino e passei dias pensando nele e na injustiça que era perder um primo tão jovem e tão amigo meu. Roque sempre foi, desde pequeno, um gentleman, coisa rara numa comunidade da roça, mais afeita a homens brutos. Mas preciso voltar à história da cavalgada.
O caminho entre a fazenda do meu tio Adão e Durandé era de barro puro e me lembro de que a viagem demorou bastante. Cheguei eufórico à fazenda, mas no dia seguinte mal conseguia andar. Dez quilômetros para um cavaleiro virgem era muita coisa. Roberto ria do meu sofrimento e sempre que eu ia passar férias na fazenda do meu tio Adão ele me chamava para andar a cavalo. "Tem que criar calo!", dizia ele dando uma gargalhada.

O Giba era quase um irmão para o Roberto e o Rogério. Eu adorava rever aqueles primos mais velhos a cada viagem, que fumavam sem parar e gostavam muito de uma cervejinha gelada e uma cachacinha de entrada. Com eles aprendi apenas a beber, pois nunca gostei de cigarro.
Giba era um humorista nato. Desde o bom dia, até o boa noite e o durma com Deus, ele fazia piadas. E tinha uma voz de barítono cantor de ópera que ele sabia usar para fazer os familiares rirem das coisas mais bobas, mas que contadas por ele eram engraçadíssimas. Como era bom ser acordado com uma gravação do Giba contando uma anedota ou se lamentando de alguma pequena desgraça que ele havia presenciado, mas sempre contada com humor.
Todos da imensa família Pereira e seus agregados devem ter algum áudio do Giba guardado em seu celular. É impossível ouvir a voz dele agora, passados poucos dias da sua morte, sem deixar que se misturem o riso e a dor. Roberto e Giba não são eternos, infelizmente, mas as histórias deixadas por eles, sim.

























Que lindo, Beto!
Realmente nossa infância em Minas foram as melhores, e com esses primos então….
Saudades sempre 😭
Encheu meus olhos d’água, pai ❤️❤️