Uma energia indomável
Jornalista, engenheiro elétrico e mestre em comunicação, Dioclécio Luz conta em livro a derrota humana na tentativa de controlar a energia nuclear

Brasília, 14/09/2026. Da Redação
Uma pesquisa que durou quase 10 anos virou livro. No dia 25 de setembro Dioclécio Luz lança, em Brasília, sua mais nova obra: “O Flagelo Atômico: Como a ciência atômica virou arma, lucro e pesadelo global”. O evento ocorre no Sebinho, 406 Norte, a partir das 17 horas.
Para a redação do livro, foram entrevistadas 16 pessoas, pesquisados 96 livros e revistas, consultados 25 documentos diversos (relatórios de CPI, auditorias), 39 filmes de ficção e documentários foram vistos. A obra trata da energia atômica e a tentativa humana de convertê-la em energia elétrica ou numa bomba. O autor conclui que a tentativa fracassou, essa energia é indomável, o que se fez não deu certo, comeu muito dinheiro, alimentou a corrupção, matou muita gente. Tudo isso são histórias que acontecem no Brasil e no mundo. “Eu não sou um historiador, mas um contador de histórias, no caso, todas reais”, diz o autor.
A primeira delas começa nos idos de 1933 quando cientistas alemães descobrem a reação em cadeia, isto é, a possibilidade de gerar muita, muita energia, a partir do átomo. Na prática era a possibilidade de ter um gerador de energia nuclear ou uma bomba. Em 1939, os Estados Unidos entram na Segunda Guerra Mundial e logo tentam fazer a maior arma de destruição em massa que o mundo já tinha visto, a bomba atômica. Ela fica pronta em 1945, mas a Alemanha nazista tinha sido derrotada pelos soviéticos. Decidem lançá-la sobre o Japão, que estava derrotado e negociava sua rendição. Os Estados Unidos jogam não uma, mas duas bombas, matam 300 mil pessoas para mostrar ao mundo quem mandava. “Terrorismo, claro”, denuncia Luz. Era a largada para uma corrida pela bomba que chega ao Brasil.
Na ditadura, iniciada em 1964, os militares sonham com ela. Fazem parceria com os alemães para fazer usinas, porque usinas geram combustível para a bomba. Imaginaram que os parceiros do golpe, os Estados Unidos, lhe passariam a tecnologia. O que não ocorreu: venderam uma usina da marca Westhinghouse, apelidada de vagalume, à época, porque um dia acendia, no outro apagava. Depois descobriram que a tecnologia veio numa caixa fechada. Não foi uma compra inteligente, mas fez as empreiteiras engordarem seus caixas. Era a primeira usina do complexo de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
Os militares não desistem. Desenvolvem um projeto secreto. Negociam com a Alemanha um programa para construir dezenas de usinas. Tudo a um custo exorbitante. O programa não dá certo. A segunda usina é construída, a valores são estratosféricos. Quando acaba a ditadura também acaba a farra dos militares. Uma terceira usina, Angra III, começa a ser construída e para. Há meio século está em construção. “É o melhor negócio do mundo para as empreiteiras: uma obra que não acaba nunca”, avalia o autor.
O Tribunal de Contas da União (TCU) se manifestou: sairia mais barato usar energia solar ou eólica do que atômica. Era o primeiro programa nuclear – secreto! - que afundava.
Veio o segundo, também secreto. Na Marinha, é desenvolvido um programa para dominar o ciclo completo da energia nuclear e construir um submarino movido a energia nuclear. “Quanto custou? Ninguém sabe dizer. Não é coincidência, há cerca de 50 anos - meio século! - a Marinha constrói esse submarino nuclear”, questiona Dioclécio.
Nem todas as histórias são contadas até o fim. Informações foram negadas pelo governo. “As autoridades do setor, principalmente os militares, desprezam a sociedade, mentem sobre os dados, omitem, enrolam. A Lei de Acesso à Informação não funciona para as Forças Armadas”, diz o autor.
Por exemplo, foi aberto um buraco para testes da bomba atômica brasileira na Serra do Cachimbo, no Pará, confirmado por dois presidentes da República, um ministro, dezenas de jornalistas, fotografias, e os militares negam ter existido isso. Outro exemplo: “Certa vez indaguei sobre os valores gastos na construção da usina de Angra I, veio um valor, um ano depois fiz a mesma pergunta, e o valor era outro completamente diferente! Está tudo no livro”, diz o autor.
Também está no livro os perigos de uma usina nuclear e o que acontece quando ocorre um acidente. “Em primeiro lugar, as autoridades dizem que está tudo sob controle, mentira; depois dizem que já sabem o que vão fazer, mentira”, denuncia o autor. A obra conta também a história do acidente com o Césio 137, ocorrido em Goiânia, em 1987, com detalhes que pouca gente ficou sabendo. “Não foi acidente. As autoridades envolvidas sabiam que aquilo era uma bomba de Césio e o que ela era capaz de provocar, mesmo assim, foi largada num prédio sem portas nem janelas”, esclarece Dioclécio Luz.
Dioclécio se diz rigoroso com o trabalho de pesquisa. “Toda fonte tem origem definida, não existem fontes anônimas no que faço”. As referências estão todas no livro. “Não é um livro de ficção, aconteceu de verdade, acontece ainda hoje”.
O autor adotou uma linguagem que é acessível a leigos e especialistas. Engenheiro eletricista de formação (UFPE), jornalista de profissão e mestre em comunicação pela UnB, Dioclécio é autor de várias obras, sobre os mais diversos temas, como meio ambiente, contos e crônicas, radiojornalismo, comunicação. Como jornalista, tem textos publicados nos mais diversos veículos.
Por mais de 30 anos atuou com radiojornalismo em Brasília (manteve programa de música e informação na Rádio Cultura FM). Ele é o autor do livro, “A escola do medo: vigilância repressão e humilhação nas escolas militarizadas”.
Serviço:
Lançamento do livro "O Flagelo Atômico: Como a ciência atômica virou arma,
lucro e pesadelo global", de Dioclécio Luz.
Local: Livraria e Café Sebinho (406 Norte), em Brasília
Dia e hora: 25 de setembro (sexta-feira) a partir das 17 horas

























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