Viagem com Verissimo

Marcelo Torres - 25/10/21



Foto: Editora Rocco



Então, primo, estava eu sentado, tranquilo, na quinta fileira, poltrona da janela. De repente, quando dou fé, é-vem vindo aquele vulto, aquela aparição, aquela capa em corpo de gente. Era uma figura fleumática, um senhor tímido, todo na beca, nos trinques. Vinha vestido com um belo blazer azul, porque, nas suas palavras, “de blazer azul e de longe, todos os homens são iguais e elegantes” — e deve ser verdade.

Ele mesmo, inclusive, já havia antecipado para a família o seu último pedido: no dia em que a indesejada senhora, enfim, vier lhe buscar, quer ele viajar vestido com a peça de roupa de sua predileção. Qual a razão? A razão, segundo ele, é muito simples: quando estiver na fila de triagem, vão vê-lo todo na estica, produzido na elegância, com o belo blazer azul, e assim vão mandá-lo para o céu — direto, sem demora, sem burocracia.

Quando João Guimarães Rosa foi levado pela indesejada das gentes, ou melhor, quando ficou encantado, o também mineiro Drummond homenageou o amigo com um poema cujos três últimos versos dizem assim:

Ficamos sem saber o que era João

e se João existiu

de se tocar.

Certo tempo depois, numa crônica, foi a vez de o próprio Verissimo parodiar Drummond: “Só acredito naquilo em que posso tocar”, dizia ele, para depois completar: “Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet”.

E eu, por toda a vida, até aquele instante, parodiava em pensamento o cronista e o poeta. Achava que ele, Verissimo, era uma ficção, ele não existia. Não existia, quero dizer, de se pegar na mão, de se olhar nos olhos, de se tocar — tal qual Drummond para Guimarães Rosa e Verissimo para Luiza Brunet.

Então, naquele momento, entre parênteses, eu falava para mim mesmo: é vero, é veríssimo, é ele, em situação de passageiro, como nós outros, os anônimos, os mortais.

Era ele, em carne e osso — aliás, ao contrário de Ariano Suassuna, que era mais osso que carne, Luis Fernando Verissimo era mais carne que osso. Um gaúcho sem chapéu, sem lenço no pescoço, sem bombacha, sem chimarrão e com aquele cocuruto careca, os óculos de sempre e agora com aquela peça obrigatória em tempos de pandemia e pandemônios — a máscara.

Era uma barbaridade, primo, a máscara do homem. Meu Deus, o que era aquilo? Ela começava no pescoço, cobria o pomo de Adão e só terminava pra lá do meio do nariz, quase já batendo nos cabelos dos olhos. Sabe o que parecia, primo? Achei parecida foi com aquelas caretas de couro que outrora eram colocadas em cara de boi brabo nos nossos grandes sertões.

Boi, boi, boi

Boi da cara preta

Pega esse menino

Que tem medo de careta.

Bem lembrado, primo, bem lembrado. Só que Verissimo, convenhamos, não é nenhum boi, claro. E também não é nenhum bicho brabo. Longe disso, é justo o contrário: um senhor de voz serena e gestos tranquilos, um tipo que, pelo visto, nunca seria capaz, por exemplo, de mostrar o dedão do meio aos arquirrivais gremistas; nem de dar a língua ou mesmo uma banana a um desafeto político.

Se bem que, em relação à banana — agora vou falar da fruta, não do gesto obsceno —, ele cultiva uma teoria um tanto exótica: “O mundo nunca mais foi o mesmo depois que o primeiro macaco descascou sua primeira banana”. Para o cronista, esse fato foi “o despertar da técnica”, e assim ele acabou chegando à conclusão de que “a descoberta da banana foi a primeira aventura intelectual do pré-homem”.

Qual a cor da careta? Da careta, não, da máscara. Bem, primo, a máscara que ele usava não tinha cor preta — era vermelhíssima. O que, convenhamos, vinha a ser um símbolo mais que óbvio, concorda? Até as margens plácidas do Guaíba sabem que Verissimo é vermelho. “Duplamente qualificado”? Ah, sim, é verdade: “Comuna de pai e mãe e colorado de dez encarnações” — é verdade, primo, boa sacada.

Bom, Verissimo veio vindo, todo tranquilo, todo sossegado, mas passou curiosamente incólume — ninguém abordou o grande cronista, ninguém o parou para tirar uma foto, que é o que nós anônimos mais fazemos com gente famosa que nem ele. Ninguém, primo, ninguém-ninguém-ninguém. Ah, sim, deve ter sido mesmo a máscara. Bem lembrado, primo, de um jeito e de outro a máscara acabou sendo uma proteção dupla para ele.

Bom, de todo modo, se ninguém o abordou para uma foto, nem mesmo para uma breve saudação, por outro lado também não houve nenhum tipo de hostilidade contra ele, ninguém o xingou, ninguém gritou “Vai pra Cuba”, como fizeram com Chico Buarque — e olha só a que ponto nós chegamos, primo: o simples fato de não ter havido hostilidade vira algo positivo, talvez até um avanço civilizatório.

O próprio Verissimo conta que um amigo dele tem um grande sonho na vida. “Não é um sonho de riqueza, consumo, conquista ou onipotência. É o de um dia estar caminhando pela rua do Ouvidor (pode ser qualquer outra rua, mas a do sonho dele é a do Ouvidor), ouvir alguém gritar, às suas costas, ‘Canalha!’ — e ele continuar caminhando, na certeza absoluta de que não é com ele”.

E o grande cronista veio andando, com toda sua serenidade. Chegou, disse “bom dia” e sentou bem na minha fileira, na cadeira da outra ponta. Sim, primo, ele disse “bom dia” para mim. Fiquei surpreso, até feliz, com a saudação. Depois, olhando Veríssimas, livro que reúne mais de mil frases dele, achei o seguinte trecho: “Existe uma falsa ideia, entre meus amigos, de que eu falo pouco. Isso se deve ao fato de que, entre eles, eu não tenho oportunidade de falar. Eu não sou quieto, sou é muito interrompido”.

Mas agora, primo, sozinho, ou pelo menos sem os amigos, ele falava sem ser interrompido. Dizia frases soltas, como “No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa”. Espirituosa, sem dúvida. “Dedico-me aos clássicos: Sófocles, Virgílio, Shakespeare e ao picolé de coco”. Depois parodiou o bardo inglês: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, significando nada e dirigida pelo Sylvester Stallone”. Aí, primo, o avião explodiu. Até dormindo, até sonhando, a gente morre de rir com o Verissimo.


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