Um tal de outrossim

Marcelo Torres - 19/10/21




De certas palavras, assim como de certas pessoas, não esqueço de como e quando as conheci, às vezes lembro como fui a elas apresentado e até mesmo o dia e o mês e o ano — como aquele 5 de julho de 1982, data em que a seleção brasileira de futebol foi eliminada pela italiana na Copa da Espanha, o exato dia no qual fui apresentado a uma palavra.

Foi no Junco, mais precisamente na casa de Neném Vieira, que ficava num ponto mais alto e o sinal de tevê tinha menos chuvisco. Era uma casa grande, no dia recebeu uns cinquenta e tantos brasileiros, todos patriotas — menos Bastião, é claro, que colocara 3 a 2 pra Itália e acabou ganhando sozinho o bolão da partida, uma boa bolada.

Já se vê, então, que “o culpado” pela nossa derrota não foi o goleiro Waldir Peres nem o volante Cerezo, que falharam em gols do adversário. O “culpado” não estava na televisão, não estava lá na Espanha, mas ali mesmo, no meio de nós — era Bastião, que logo-logo foi expulso da casa. — COMUNISTA! — bradavam os mais velhos, que logo foram seguidos em coro por nós outros, os meninos. — COMUNISTA! COMUNISTA!

O menino já conhecia duas dezenas de nomes — feios, cabeludos, pornográficos até —, mas comunista mesmo era novidade para ele, que se virou para um dos homens e perguntou que diabo significava aquela palavrona. E o homem, com um cigarro preso entre os lábios, falou com toda segurança do mundo: “Comunista é a caba fora-da-lei, um anticristo, um antipatriota, um caba capaz de comer criancinha assada no espeto”.

Dias antes, o menino fora apresentado à concupiscência — não necessariamente ao pecado (que já conhecia), mas à palavra. Foi numa missa, ele sentado na fileira da frente, ao lado do pai e da mãe, quando o padre falou pausada e silabicamente uma palavrona que ele, o menino, até então nunca tinha ouvido falar:

— Con-cu-pis-cên-cia dos olhos… Con-cu-pis-cên-cia da carne.

E o menino desatou a rir. Por causa do jeito, do trejeito do vigário na pronúncia das sílabas. E como a risada não cessava, a mãe mandou que ele saísse da igreja e voltasse para casa, onde, mais tarde, tomaria uma bela duma surra do pai.

Essas memórias me ocorrem após ler uma crônica antiga de Ivan Lessa, sob título Palavras que já eram. No texto, ele fala de verbos, advérbios, adjetivos e substantivos que caíram em desuso — e elabora a própria lista de palavras que levaria ao paredão, por considerá-las já obsoletas.

Na lista de Lessa não aparecem comunista nem concupiscência, mas lá estão palavras como turba, supimpa, galocha, lambisgoia, borboleta e… outrossim. Sobre essa última, não lembro de tê-la ouvido alguma vez na vida, talvez por ser uma palavra mais de uso na linguagem formal — certamente cheguei a ela pelos livros.

Entre uma e outra leitura, o outrossim ganhou status de palavra bonita, forte, sonora, eloquente. Ela que, na gramática, tem classe de advérbio, sendo sinônimo de termos e expressões como: igualmente, bem assim, dessa forma, também, do mesmo modo, do mesmo jeito — em resumo, significa outro sim.

E foi assim que, não raras vezes, nas redações escolares, comecei a tacar um outrossim aqui, um outrossim ali, só pra dar um tchan, aquela floreada no texto (um maneirismo, na verdade) e a tática, pelo visto, acabava funcionando, porque as notas não eram lá das piores. E no trabalho, então — no Banco do Brasil —, era batata o outrossim nos relatórios.

Pulo no tempo e corto agora ao site Domínio Público, onde puxo Dom Casmurro, dou um control+F, insiro a palavra e localizo Bentinho dizendo: “Outrossim, ria largo, se era preciso”. Passo então para as Memórias Póstumas de Brás Cubas, e lá está o defunto narrador dizendo: “dispenso-me outrossim de descrever…”.

Nessa rápida pesquisa, ainda localizo o advérbio no finalzinho de Memorial de Aires — “outrossim, inteirar-me dos seus planos” — e em Esaú e Jacó — “outrossim, meditava na ausência de vocação diplomática”. Vê-se assim que até Machado de Assis, nosso maior escritor, era chegado a um outrossim.

Em Evangelho segundo Antônio, publicado no Portal da Crônica Brasileira, o cronista Antônio Maria fala que sempre teve “imenso desejo de escrever outrossim”. Em outro texto, contudo, citado por Luis Fernando Verissimo, Maria afirma: “Sempre que alguém usa outrossim, a frase é decorada”.

Para Verissimo, são poucas as pessoas que sabem como e onde empregar corretamente o outrossim. “Nas poucas vezes em que usei, foi com uma certa trepidação, como quem invade a propriedade de alguém sem saber se vai ser corrido pelos cachorros, no caso os guardiões do vernáculo”.

Numa de suas crônicas, Verissimo cria a conversa de duas pessoas sobre as palavras que seriam típicas de um dia de domingo:

— Eu só uso outrossim domingo.

— Parece palavra de segunda-feira.

— Não. Palavra de segunda-feira é óbice.

Ônus.

Resquício.

Resquício é de domingo.

— Não, é de segunda, no máximo terça.

— Mas outrossim, francamente.

— Qual é o problema?

— Retire o outrossim.

— Não retiro. Não é qualquer um que usa outrossim. Tem que saber a hora certa. Além do dia.

Sim, o outrossim é tudo isso aí, mas um dia acabei desistindo dele — e foi após ler uma historieta de Graciliano Ramos. O autor de Vidas Secas trabalhava como revisor de textos e acreditava que a palavra, qualquer palavra, “não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer”.

Pois bem: um dia chegou a ele uma matéria na qual o repórter, para embelezar o texto, colocou lá o glorioso advérbio. Pra quê! O Velho Graça levantou-se da cadeira, papel em punho e bradou com todo seu bom humor:

OUTROSSIM É A PUTA QUE PARIU!

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