Tributo a Nelson Sargento

Roberto Seabra - 28/05/21



A Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, de 2017, teve um sabor especial para mim. Sempre tive interesse na mescla entre duas artes: a música e a literatura, por ver na canção brasileira, em especial, uma espécie de espaço poético popular, em um país onde a imprensa tardou a chegar e as pessoas, especialmente as mais pobres, tiveram pouco ou nenhum acesso aos livros.

E quando vi a possibilidade de ver um debate na Flip com a presença do sambista Nelson Sargento (1924/2021) e o jornalista e escritor Lira Neto – autor do livro Uma História do Samba: as origens, Companhia das Letras, 2017 – pensei: está aí a chance que eu queria para levar adiante o meu interesse.

E, de fato, não foi em vão. Mesmo aos 93 anos, recém completados em julho daquele ano, Nelson Sargento foi sempre lúcido, respondeu às perguntas do entrevistador, o jornalista André Barcinski, interagiu com o público e, no final, ainda cantou o samba Agoniza mas não morre, de sua autoria.

Quando eu soube na manhã de hoje (27/5) que Nelson Sargento havia morrido aos 96 anos de Covid-19, aquela mistura de entrevista, bate-papo e show musical voltou. E voltaram também outras músicas que ele compôs ou cantou, com sua voz inconfundível, como o Samba do Operário, uma parceria com Cartola e Alfredo Português.. Eis a letra, um espécie de libelo político, feito com arte e sensibilidade:

Se o operário soubesse

Reconhecer o valor que tem seu dia

Por certo que valeria

Duas vezes mais o seu salário

Mas como não quer reconhecer

É ele escravo sem ser

De qualquer usurário

Abafa-se a voz do oprimido

Com a dor e o gemido

Não se pode desabafar

Trabalho feito por minha mão

Só encontrei exploração

Mesmo tendo vivido quase um século, Nelson Sargento morreu jovem. Jovem nas ideias, na postura sempre interessada pelas novidades e no que acontece na política. Naquela presença na Flip, ele sorriu quando a plateia puxou um Fora, Temer! Tenho certeza de que, se puxarem um Fora, Bolsonaro!, durante a sua despedida logo mais, é capaz de ele sorrir de novo, esteja onde estiver. Salve o Samba, que agoniza mas não morre! Salve Nelson Sargento!


* Texto publicado originalmente no site do Jornal Brasil Popular, em 27 de maio de 2021.

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