Segredos de alcova do marechal que proclamou a República

Em debate virtual realizado esta semana, o comandante do Exército, general Pujol, defendeu que a política fique fora dos quarteis, numa clara resposta à provocação de Bolsonaro contra o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden.


O que o general não disse, mas a história conta, é que os militares brasileiros há mais de um século se metem na política, quase sempre de forma desastrosa ou, quando têm sucesso, em prejuízo da democracia. Talvez a única presença militar na política que tenha feito avançar a roda da história foi a Revolução de 1930, ou Tenentista, que tinha entre os líderes vários militares de baixa patente.


A primeira e principal vez que os militares deixaram os quarteis para mudar o governo constituído foi em 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca liderou o movimento que pôs fim ao regime monárquico, comandado por D. Pedro II, e proclamou a República. O golpe de 15 de Novembro, como chamam alguns historiadores, mudou o Brasil (não necessariamente para melhor) e moldou a nossa política no século XX.


Mas quem foi esse marechal que se dizia amigo do imperador D. Pedro II e que deixou o leito, pois estava doente, para liderar o movimento que mudou a nossa forma de governo?


O escritor Aguinaldo Tadeu decidiu pesquisar a vida de Deodoro e escreveu um romance saboroso em que mistura fatos e ficção para contar uma verdade maior sobre o entrelaçamento entre vida privada e vida pública no Brasil, de uma forma que a História ou a Ciência Política não alcançam.


“A mulher que proclamou a República” (Editora Penalux), é narrado por um fictício secretário particular do marechal Deodoro, o servidor público Alcides, que conta os desabafos íntimos do então ex-presidente da República, que, doente, aguarda tristemente a morte chegar, após renunciar ao cargo em favor do seu vice, o também marechal Floriano Peixoto.


Ao narrar por meio de diálogos ficcionais os segredos de alcova do marechal que se tornou o primeiro presidente da República, Aguinaldo Tadeu nos mostra as entranhas do Brasil, ainda que de forma elegante e sem apelações.


Em entrevista a este jornalista, o escritor, que também tem formação em História, fala sobre o livro e comenta a crise política vivida pelo país, justamente quando os militares voltaram ao poder, desta vez pelo voto, mas não sem atritos e com sérios riscos à institucionalidade.

Leia a entrevista que fiz com com Aguinaldo Tadeu

P - Na dedicatória que escreveu para mim, você fala no seu livro como uma “versão” da História do Brasil. Até que ponto sua versão é baseada em fatos históricos ou, melhor perguntando, em que momento entrou na história o escritor Aguinaldo Tadeu?


R - Acima de tudo, o romance é uma ficção. Porém, eu me preocupei em fazer uma pesquisa histórica para que o embasamento histórico, o contexto, fosse o mais fiel possível ao período e aos personagens históricos citados na obra. Podemos dizer que o livro é uma mistura de ficção com realidade.


P- Mas o adversário de Deodoro da Fonseca é real, e de fato ele quase foi indicado para ser o chefe dos ministros de D. Pedro II. É isso?


R - Silveira Martins, político gaúcho, é sim um personagem real.


P - E a terceira personagem do triângulo amoroso, também?


R - Adelaide?


P – Sim.


R - Sim. A baronesa do Triunfo é um personagem real e o romance também. Porém, os detalhes do romance são da minha conta (risos).


P - Ainda assim, a história é muito interessante. De onde partiu essa ideia de escrever sobre Deodoro da Fonseca, o nosso primeiro presidente da República?


R - Na verdade, a chama que fez escrever foi ler em alguns livros, de maneira muito rápida, essa questão do romance com Adelaide, que poderia ter sido um dos motivos dele fazer o que fez. Ou seja, fez (a proclamação da República) por dor de cotovelo. Li isso em algum lugar e achei que dava caldo pra um romance.


P - Em determinados momentos você, ou o seu personagem, o Alcides, faz rasgados elogios à monarquia e tece muitas críticas ao sistema republicano. Desculpe se estou sendo impertinente, mas, você é monarquista?

R - Sim. Acredito que a monarquia é a melhor forma de governo por diversos motivos. Mesmo assim, a contextualização histórica foi feita baseada em pesquisa, nos livros que li e leio sobre o período.


P - D. Pedro II foi um grande monarca, e isso ajuda né? Ou um monarca republicano, como seu livro mostra...


R - Tentei não ser panfletário! Não sei se consegui (risos). Pra mim, dom Pedro II é o maior brasileiro de todos os tempos e quanto mais leio sobre ele, mais admirado fico.


P – O Alcides diz coisas que parecem endereçadas ao momento atual do Brasil. Me lembro de algumas coisas que servem à crise republicana atual. Isso foi proposital ou se construiu ao longo da história (do livro e a atual, do Brasil)?


R - Foi de propósito. Tentei falar do passado, sem esquecer as nossas mazelas atuais.


P - Você é escritor e tem formação em História. Até que ponto a Literatura pode tornar a nossa história mais atraente?


R - Eu gosto muito das duas: História e estórias! Então, acredito que essa mistura é sempre muito interessante, principalmente para aqueles que não têm o hábito da leitura. Então acho que essa combinação ajuda sim a criar leitores e também formar pessoas mais críticas.


P - Seu livro me lembrou também a literatura feita pelo José Almeida Júnior, que escreveu Última Hora e O homem que odiava Machado de Assis. Mas vejo no seu trabalho um dedo do historiador...


R - Agradeço a comparação. Os dois livros dele são ótimos!


P - Você tem algum método de trabalho? Ou seja, como faz para conciliar narrativa ficcional e histórica no mesmo trabalho? Existe um segredo?


R - É uma tentativa e erro. Eu gosto de História e leio sempre. Acho que isso ajuda. Todo escritor precisa ser, acima de tudo, um grande leitor. Acho que aprendemos muito lendo os bons romances dos outros autores.


P – Como você analisa a questão militar no Brasil? É um tema espinhoso, eu sei, mas seu livro me despertou algumas questões. Me parece que o golpe de 1889 foi, antes de tudo, uma quartelada para defender interesses dos próprios militares. Faço um paralelo atual. Afinal, o impeachment da Dilma, ou golpe, como muitos dizem, veio logo depois da Comissão da Verdade...


R - Os militares têm a sua função e importância, mas que não deve estar ligada com política. Toda vez que eles entram na política, a coisa complica pra todos nós. Sou acima de tudo um democrata, como era Dom Pedro II. Portanto, pra mim, não há saída fora da democracia.


P - Algum projeto no horizonte? Nossa história carece de mais romances...


R - Vários! (risos). Eu sou muito inquieto. Hoje, eu tenho pronto material pra livros de crônicas, contos, poesias e infantis. Mas fui mordido pela mosca do romance histórico e estou iniciando outro.



Livro: A mulher que proclamou a República – 2020

329 páginas

Editora Penalux

Onde encontrar: https://www.editorapenalux.com.br/loja/a-mulher-que-proclamou-a-republica

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