Rosas para Glasgow

Mauro Lando - 02/08/21


Em 1973 foi lançada na França uma série de três documentários sobre sua história recente, “Français si vous saviez”: Franceses, se vocês soubessem - por Andre Harris e Alain de Sedouy. No primeiro episódio, que trata da derrota frente os alemães na guerra relâmpago de 1940, os autores entrevistaram pessoas chave do governo francês da época. Um deles foi Pierre Mendès France, jovem politico brilhante que havia sido membro do efêmero gabinete de Leon Blum na chamada Frente Popular.


Na preparação para a guerra que sabiam que viria, o alto comando militar francês tinha posto todas as suas fichas na “Linha Maginot”, uma linha supostamente inexpugnável de fortificações que se estendia da fronteira com a Suíça, nos Alpes, até a fronteira com Luxemburgo. Mendès France conta que na época, 1939, as senhoras da sociedade francesa se preocuparam com a solidão dos soldados presos naquelas casamatas de concreto, sem nada que distraísse seu campo visual. Então organizaram coletas de dinheiro para que se plantassem rosas ao longo da Linha – assim, a visão das rosas alegraria os soldados enquanto esperavam pelo ataque dos “boches”. ( O qual ataque nunca ocorreu, os alemães acharam mais fácil dar a volta pelo norte pela floresta das Ardennes).


Esse episódio me vem à mente quando leio sobre os esforços cosméticos que indústrias e governos alardeiam para mostrar que agem na diminuição das emissões de gases de efeito estufa, para fazerem papel bonito na grande Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas programada para novembro deste ano em Glasgow, na Escócia.


Cada um quer mostrar para a professora que é bom aluno: tal motor de avião vai usar pás na pré-compressão e economizar 20% de combustível. Tal companhia vai reciclar os restos de usinagem e evitar a emissão de x toneladas de CO2 por ano. Algumas ideias são realmente revolucionárias, como o gerador eólico sem pás, que funciona pela vibração ou outro ainda mais recente, gigantesco, em que as pás são fixas e vibram, criando um fluxo de elétrons. Até aí muito bem. Mas isso tudo são migalhas, são rosas na linha Maginot. Alguém vai impedir a população do planeta de continuar crescendo? Onde vão morar os 1 bilhão de novos habitantes da Terra esperados para as próximas décadas? Em casas, apartamentos, como todo mundo, não é? Os quais precisam de... cimento. Vejam no gráfico abaixo: a fabricação de concreto, apenas essa indústria é responsável por 8% das emissões.



E as emissões de motores? A indústria automobilística na Europa se comprometeu a parar de fabricar motores a combustão até... 2035. Daqui a 24 anos. É o prazo que precisam “para se adaptar”. Traduzido: não se dispõem a abrir mão de um centavo de seus lucros em troca de acelerar essa conversão ao elétrico, precisam primeiro amortizar tudo o que investiram nos motores térmicos. Agora precisamos saber se daqui a 24 anos ainda vai haver gente para comprá-los e o que fazer com os carros, térmicos ou elétricos. E as emissões de aviões? Será que os americanos vão parar de voar para o aniversário da vovó do outro lado do país, ou os europeus vão abrir mão das viagens de férias às ilhas do Pacífico, 9 horas de voo, pra conferir que o azul do mar é aquele mesmo, não foi truque do folheto de publicidade?


E para alimentar mais um bilhão? Desflorestar mais Amazônia para plantar soja para dar de comer para as vacas porque nosso padrão de consumo exige comer carne vermelha todo dia? Ou vamos acreditar nesse raio de veganos neo-hippies que dizem que os gases das vacas, ricos em metano, contribuem mais para o efeito estufa do que países inteiros?


Imposto do carbono? Nem falar, “é ruim para a economia”. Já há algo semelhante, o comércio de emissões: um país pobre vende para um país rico seus “direitos de emissão”. Assim, monetizado, tudo se entende, e todo mundo está feliz: o país pobre ganha dinheiro e o país rico emite CO2.


Quanto ao planeta... este não pode dar um pio em Glasgow, mas ele sabe falar na sua linguagem - e está berrando para que ouçamos: inundações cada vez maiores, secas cada vez mais longas, incêndios florestais cada vez mais devastadores.


A verdade é que nossa civilização evoluiu, desde a invenção da máquina a vapor, há mais de 200 anos, sobre o princípio da queima de combustíveis fósseis - somos “junkies” viciados em petróleo e carvão. A pergunta é: até conseguirmos eliminar essa dependência, ainda vai haver mundo?

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