O pequeno ditador

Roberto Seabra


Não votei nele, mesmo assim ele foi eleito. Pelo discurso, pobre em substantivos e rico em adjetivações e lugares comuns, imaginei que ele era um blefe. Prometeu tirar o nosso prédio do abismo em que o metera o síndico anterior, um velhote de maus bofes e com cara de conde drácula.


Depois soube que os dois eram amigos e até viajaram juntos, mas no dia da escolha do novo síndico do prédio os moradores pareciam querer alguém de pulso firme, ainda que nos últimos vinte anos morando ali aquele candidato só tenha arranjado confusões com os vizinhos.


A outra candidata era uma professora de matemática, educada e de fala suave, além de possuir ótimos antecedentes como tesoureira do condomínio em administrações passadas. Mas na véspera o concorrente espalhou uma fofoca pelo prédio, dizendo que a mulher era uma depravada, que vivia levando “homens estranhos” para o seu apê. Eu conhecia ela razoavelmente bem e sabia que era apenas fofoca, se bem que isso, caso fosse verdade, em nada desabonasse sua competência para administrar o condomínio.


Mas não deu tempo de desmentir a mentira e o homem foi eleito, com apoio de ampla maioria dos moradores. Me senti mal com a escolha dos meus vizinhos, mas decidi que iria viver a minha vida e deixar que o tempo mostrasse a verdade.



O problema é que o novo síndico começou a tomar decisões que afetaram diretamente o nosso dia a dia. Primeiro mandou cortar várias árvores que, segundo ele, atrapalhavam a segurança do prédio. Depois contratou um segurança armado para o condomínio, sob o argumento de que bandidos estariam rondando as nossas residências durante a madrugada.


Em seguida, proibiu que jovens casais namorassem no pilotis do prédio ou nos jardins da cercania. Dizia que aquilo era uma “imoralidade contra a família brasileira!”.


O pior ainda viria, quando a água do prédio apareceu com uma coloração diferente e as pessoas começaram a adoecer. O cínico que virou síndico dizia que aquilo era apenas uma dorzinha de barriga e que os moradores estavam com muito mimimi. Mesmo depois que alguns condôminos mais velhos morreram, por conta dessa água apodrecida, o síndico e seus apoiadores continuaram dizendo que não tinham nada a ver com aquilo e começaram a culpar a professora de matemática, por ela haver denunciado o caso durante um programa de TV da cidade.


Os moradores mais sensatos começaram a consumir apenas água mineral e em razão disso viraram motivo de chacota por parte dos outros vizinhos.


Depois se soube que o síndico havia deixado de pagar a conta de água do prédio e estava levando para as caixas d’água do nosso bloco um líquido salobro de um poço clandestino, furado na calada da noite nas vizinhanças. Era na verdade um produto contaminado pelas oficinas que cercavam a quadra, mas que saía de graça e permitia que ele desviasse o dinheiro do condomínio reservado para a água.


Com o tempo, o síndico virou um pequeno ditador, que manipulava a vida de todos os moradores do bloco. Me lembrei do grande ditador de Chaplin, que brincava com o globo terrestre, enquanto o nosso fazia do prédio um brinquedo de criança, onde ele montava e derrubava a seu bel prazer.


Certa madrugada, enquanto o prédio adormecia, ouviu-se um estampido, seguido de um grito causado por alguma dor lancinante. Muitos desceram para o térreo, alguns de pijama, assustados com o barulho. O que viram foi uma tragédia. A professora de matemática estava estirada no estacionamento do prédio, inerte, e um filete de sangue escorria ao lado do seu corpo. Próximo a ela, o segurança armado do prédio, que disse ter confundido a mulher com um assaltante de carros. “Também, isso é hora de mulher ficar na rua!?”, gritou o síndico do prédio.


Depois de alguns protestos que foram abafados pelos altos gritos dos seguidores do síndico, os moradores assustados se recolheram aos seus apartamentos, tristes e exaustos e sem saber mais o que fazer. Enquanto o furgão do Samu recolhia o cadáver da pobre professora, vi o cínico do meu prédio sair abraçado com o segurança, os dois rindo e sem se preocuparem com o que os outros pensassem deles, pois nada mais fazia sentido naquele lugar.


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