Kanal com K, Terra com T

Mauro Lando - 29/09/21




Em seu magistral “Kanal” de 1957, o grande Andrej Wajda (que depois viria a se consagrar com o multi-premiado “Cinzas e Diamantes”) faz uma representação simbólica do inferno na Terra, ambientada nos últimos dias do levante de Varsóvia em 1944. O tenente Zadra comanda uma companhia de 43 homens em uma batalha desesperada entre as ruínas de Varsóvia. Enfrentando a ofensiva alemã e isolado de seus camaradas, Zadra recebe ordens de retirar sua companhia pelo sistema de esgotos ('kanal').Ele e seus homens relutam em fazê-lo, pois isso indicaria que perderam a batalha, mas decidem obedecer às ordens.


Na primeira cena do filme vemos sua companhia de 43 resistentes empunhando armas, descendo pelas ruinas de Varsóvia. O narrador diz seus nomes e suas patentes militares, e depois avisa:

“Olhem bem para eles. Estas são suas ultimas horas de vida”.


Ao longo da desesperada tentativa desses soldados de escaparem do cerco pelos esgotos, os vemos sendo capturados ou mortos um a um pelos nazistas. Nas cenas finais do filme, Zadra finalmente consegue sair por uma boca de esgoto em uma seção desabitada de Varsóvia, em ruínas e fumegante, fora do cerco, seguido por Bola, seu segundo em comando. Eles conseguiram. Volta-se então para trás e pergunta a Bola onde está sua companhia- “Minha companhia, minha companhia!”. Bola responde que os demais ficaram para trás há muito tempo, e mentira para seu comandante para poderem escapar.


Zadra exausto, tira sua pistola, mata Bola e na última cena do filme, murmurando “minha companhia” retorna para dentro do esgoto numa tentativa – que ele bem sabia ter zero chance de suceder - de encontrar o que restara de sua companhia e trazê-los para a liberdade.


Tenho pensado nesse personagem do “Kanal”, filme que vi aos 18 anos, ao refletir sobre a atitude dos poucos e verdadeiros cientistas quanto às campanhas de amenizar o aquecimento global, de lutar por limitar o aumento da temperatura da Terra a apenas 1,5 graus, o que é perfeitamente impossível, sequer 2 graus até 2030. Eles/elas sabem perfeitamente que o aquecimento global é irreversível, mesmo que a humanidade mudasse de repente sua matriz de consumo, e são conscientes de que essa mudança é impossível. Todo mundo é contra o aquecimento global, mas ninguém abre mão de andar de carro, (quanto maior e mais caro, mais rico sou) ir de avião nas férias (quanto mais longe, mais ostento) e comer carne bovina (quem não come carne é pobre).


Zadra sabia que seu retorno aos esgotos era inútil, seus comandados estavam mortos ou capturados. Mas foi seu senso de dignidade humana, mais mesmo do que seu dever de oficial de um exército derrotado, que o levou àquela volta ao inferno, uma das cenas mais pungentes do cinema da 2ª Guerra mundial.


Penso nos cientistas que aceitam jogar essa pantomima em congressos, onde mostram projeções estatísticas de hipóteses imaginárias, de salvar a Terra – com T. Os “what if”: “e se” conseguirem a fusão fria, fonte inesgotável de energia com zero emissões, miragem num deserto que bem sabem ser ilusória.


Eles/elas bem sabem, como Zadra, que a batalha está perdida. Mas seu senso de dignidade lhes proíbe de dizer aos políticos: “O processo é irreversível, entendam, parem pelo menos de fingir para seus eleitores que o carro elétrico, o navio a vela, a geração fotovoltaica, a tímida geladeira vegana no supermercado vai fazer alguma diferença, são gotas d’água num oceano.”


Eles voltam aos congressos, publicam seus papers em nome do quê? Por um lado, de seus empregos. Cientistas vivem de verbas de governos, e políticos não gostam de más notícias. Mas também, creio eu, por seu senso de dignidade humana. Como diz o personagem na cena final dos “Rinocerontes” de Ionesco,

“Sou o último homem, e vou resistir até o fim.”

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