De Croix du Bac a Vila Formosa

Mauro Lando - 27/06/21



O ano era 1971 ou 72. Naquele tempo, o jeito mais barato de ir de Paris a Londres, excetuando a carona, era um ônibus que saía da Gare du Nord, rolava umas 4 horas e meia até Oostende, e lá se pegava o Hovercraft para Folkestone; de lá mais 3 horas de bus até a Victoria Coach Station. No trecho Paris – Oostende ele fazia uma parada num pequeno bar em frente a um enorme cemitério militar da 1ª Guerra, se não me engano Croix du Bac. Todos descíamos e ficávamos olhando aquelas fileiras intermináveis de pedras tumulares, onde mal se notava, escavadas em baixo relevo, o nome, patente abreviada, data de nascimento e de morte do infeliz, todas iguaizinhas, se estendendo quase até perder de vista.


Me aproximei de dois sujeitos aparentemente hindus ou paquistaneses, e resolvi puxar conversa:


“Vejam, é assim que as grandes potências ocidentais acertam suas contas...”


Eram militantes do que se chamava na época movimento separatista do Paquistão Oriental, que viria a se chamar Bangladesh depois de mais um inútil massacre de centenas de milhares de pessoas absolutamente inocentes cujo único crime era serem de etnia hindu e não paquistanesa. Estavam na Europa em missão de publicidade pela causa do seu povo, provavelmente levantar fundos entre a comunidade bangladeshi na Inglaterra, e a maior prova de o quanto precisavam de grana era o meio de transporte que haviam escolhido para ir a Londres, o mais barato, ao lado de hippies, jovens estudantes e outros mochileiros, como este escriba.


Aquela cena me vem à mente agora. Aqueles milhares de túmulos, hoje, correspondem a um dia de enterros no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. O que deve ter sido uma batalha sangrenta de vários dias, para nós, hoje é um dia de rotina na pandemia.


Mas há mais um ponto em comum entre a 1ª Guerra e esta pandemia: as condições que ocorreram em Manaus, de pessoas precisando de oxigênio esperando na fila que alguém morresse na UTI para ganhar seu leito e com ele o oxigênio e a vida, ocorriam também nos hospitais de campanha nas batalhas de Ypres, Sedan e talvez outro tanto do lado inimigo.


Nunca foi tão amargo lembrarmo-nos do velho ditado “a história se repete” – mas desta vez não como farsa, é como tragédia mesmo.




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