Chico do Brasil*

Roberto Seabra - 19/06/21



* Texto de 19/06/14, republicado nesta data, em homenagem aos 77 anos de Chico Buarque




Francisco Buarque de Hollanda nasceu há 70 anos (1944), em um Brasil que vivia os estertores da ditadura de Getúlio Vargas, mas que ao mesmo tempo aparecia para o mundo como a terra do samba e do carnaval. Filho do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Hollanda, Chico Buarque, como é conhecido, produziu uma obra artística impressionante.


Sua primeira música de sucesso, A Banda, de 1966, nasceu um clássico. Passados quase 50 anos da sua estréia como compositor, Chico continua compondo e lançando discos. Seu último LP, Chico, de 2011, é um primor de letras irretocáveis e melodias complexas. Como se não bastasse, é escritor premiado e traduzido em dezenas de idiomas. Fez musicais, escreveu peças de teatro, novelas, poemas e livros infantis, todos premiados. Musicou filmes. Seu último livro, Leite Derramado, recebeu o prêmio Portugal Telecom, um dos mais conceituados da língua portuguesa.


Difícil dizer do que gosto mais no Chico. Li todos os seus livros e ouvi todos os seus discos. Cresci ouvindo suas músicas, dentro e fora de casa. Usei trechos de suas letras para conquistar garotas e cativar amigos. Cansei de usar suas frases e versos na sala de aula e nas matérias que escrevi ao longo da vida. Ensinei, sem esforço nenhum, meus três filhos a amarem sua obra. O que escrever sobre Chico Buarque então?

Acho que falta dizer o seguinte: falar do Chico é falar também do Brasil. Temos uma cultura peculiar, complexa, é verdade, mas peculiar. No Brasil, a cultura letrada sempre esteve atrelada a outras formas culturais. Gregório de Matos tornou-se popular porque seus poemas eram recitados de cor, pois poucos sabiam ler na Bahia de 1600. Machado de Assis tornou-se conhecido ao escrever folhetins em jornais baratos. Villa Lobos passou a ser popular quando compôs choros e modinhas, mesmo depois de haver produzido extensa obra musical. Nelson Rodrigues, que hoje todos admiram, sobrevivia graças às crônicas picantes que escrevia com pseudônimo feminino na imprensa diária.


Em um país de pouca tradição erudita, o popular é que ditou a moda cultural. E a música popular brasileira, desde Sinhô, Pixinguinha e Noel Rosa, até Chico, Caetano e Gilberto Gil, passando por Cartola, Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi, sempre trilhou o caminho da arte para o povo. Nosso mais refinado compositor do século XX, Antonio Carlos Jobim, um dos inventores da Bossa Nova, foi um exemplo de músico de formação clássica que se aproximou do popular por atração natural. O mesmo aconteceu com o poeta Vinicius de Morais.

Nossos maiores poetas do século XX, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, flertaram com a cultura das ruas, seja nos poemas ou cedendo letras para músicas populares. Mesmo João Cabral de Melo Neto, nosso poeta mais cerebral, foi parceiro de Chico Buarque em musical sobre seu poema Morte e Vida Severina.


Isso explica, em parte, a importância da Música Popular Brasileira (MPB) para a cultura do país. E quando falamos em MPB é impossível não situar a obra de Chico como uma espécie de “autor clássico”. Ou seja, a importância de Chico para a cultura nacional é tão grande quanto à de Guimarães Rosa para a Literatura, ou Cândido Portinari, para a pintura. Torçam os narizes, críticos ferozes! Como assim? Chico é apenas compositor popular, de uma arte menor, não se compara aos grandes!


Mas o que faz uma obra artística ser grande não é tanto seu valor artístico intrínseco, mas a forma como esse valor é apropriado pelo povo e pela cultura de um país. E agora José? Ora direis ouvir estrelas! Ceci e Peri, tal qual Romeu e Julieta. Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá! Vou-me embora pra Passárgada, lá sou amigo do rei! Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Tá lá o corpo estendido no chão. Drummond, Bilac, José de Alencar, Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Chico Buarque e Aldir Blanc. Todos na boca do povo, em maior ou menor grau.


Chico Buarque e outras dezenas de grandes músicos e letristas brasileiros formam uma espécie de Literatura Musical Brasileira (LMB), que transcende a moda. O que se produziu nos últimos 100, 120 anos em matéria de música no país, poderia, por suas letras e melodias, ser classificado como movimento artístico complexo e multidimensional. Talvez nenhum outro país tenha produzido em tão pouco tempo tantos compositores populares (em quantidade e qualidade) como o Brasil.


Ao ser um destes compositores da LMB, e ser também autor literário consagrado de vários romances, Chico Buarque parece construir a ponte entre dois mundos, que na verdade formam um só. Um mundo chamado Brasil.



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