Livro de Sinval Medina narra a fundação de Porto Alegre em ritmo de romance


Roberto Seabra - 06/09/2020

Ao lado de livros sobre a história brasileira escritos por jornalistas, na forma de biografias ou de grandes reportagens historiográficas, coexistem também os romances históricos, que misturam fatos e ficção para construírem tramas que fisgam os leitores e os transportam ao passado. São gêneros que cresceram no gosto popular e ajudam nosso pobre povo a conhecer minimamente a História do Brasil nesses 520 anos passados. Cito de cabeça três ótimos títulos fundados nesses modelos: 1808, do Laurentino Gomes e a trilogia Getúlio, de Lira Neto, ambos jornalistas; e Boca do Inferno, de Ana Miranda, que mistura invenção e pesquisa para contar a vida do poeta Gregório de Matos, na Salvador do século XVII.

O escritor e jornalista Sinval Medina acaba de lançar um livro que talvez possa ser enquadrado no gênero romance histórico, mas que ele prefere chamar de “trama fundacional”. Trata-se do impressionante O governador do fim do mundo: o Rio Grande de São Pedro nos tempos do Marquês de Pombal (Portal Edições, São Paulo, 2020). Em 438 páginas Sinval Medina mostra porque o termo ‘romance histórico’ é impreciso para qualificar sua literatura.

Medina, tal qual já havia feito em seu romance Tratado da altura das estrelas (EDIPUCRS, 1999), que narra o Brasil situado por volta de 1520 usando uma linguagem de época, recheada de palavras e expressões que hoje nos parecem estranhas, em O governador do fim do mundo o autor dá voz aos personagens do século XVIII, seja o militar português que implantou Porto Alegre como capital do Rio Grande; o seu auxiliar, brasileiro, mandado a Lisboa para cumprir tarefas quase sobre-humanas; ou a bela viúva que impõe-se no mundo masculino da época com determinação e inteligência.

E ao deixar os personagens falarem, ele cria várias narrativas que se entrelaçam para criar uma trama de vozes que levam o leitor ora para a Lisboa do Marques de Pombal, pós terremoto de 1755, ora para o Rio Grande da segunda metade do século XVIII, província marcada pelas disputas territoriais entre Portugal e Espanha. Mas por ser um romance, para além de uma reportagem histórica, o livro de Sinval Medina traz todas as peripécias e conflitos imagináveis em uma grande história de guerras, paixões e crises políticas.

Guerra Fantástica

Em seu livro podemos conhecer a história de um militar português – José Marcelino – enviado para o fim do mundo, o Rio Grande, para ser o comandante de armas da capitania. Em paralelo, o romance narra uma história de paixão e morte acontecida na região do Algarve, em Portugal, envolvendo dois capitães: o português Manuel Sepúlveda e o escocês John Mac Donald, formando o triângulo a esposa deste, a bela Deirdre Mac Donald. Como pano de fundo da história, acontece a Guerra Fantástica, ou do Mirandum, que durante sete anos opõe, de um lado, Espanha e França, e de outro, Portugal e Inglaterra. É durante esse conflito que também avançam as invasões do território brasileiro no Sul pelos hispânicos.

E se em Tratado da altura das estrelas ele narra o “mito fundante da brasilidade”, em seu novo romance Medina descreve outro mito fundacional, desta vez regional: o da cidade de Porto Alegre. De simples povoado, o lugar é elevado à condição de vila para em seguida assumir a posição de capital da província, por determinação de José Marcelino. Decisão que não seria fácil, por encontrar a oposição dos grandes estancieiros e comerciantes do Rio Grande.

Como em todo bom romance, tais narrativas seguirão caminhos diferentes mas desaguarão, ao final, no mesmo estuário, fazendo de O governador do fim do mundo uma bela trama histórica, daquelas que se lê com paixão e onde os personagens se agigantam e se igualam aos grandes acontecimentos históricos.

Serviço:

O governador do fim do mundo: o Rio Grande de São Pedro nos tempos do Marquês de Pombal, de Sinval Medina.

Disponível em Portal Edições, São Paulo, 2020.

438 páginas

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