Romance explica o Brasil que massacra índios e destrói florestas


Em 1970 um terremoto ocorrido na Cordilheira dos Andes fez desmoronar o pico nevado do monte Huascarán, soterrando a pequena cidade peruana de Yungay, localizada na região de Ancash. Quase todos os seus 20 mil habitantes morreram imediatamente. Salvaram-se apenas os que estavam em algum lugar elevado, nos arredores da comunidade.

Mais de quarenta anos depois, outra tragédia, produzida pelo engenho humano, fez desaparecer toda uma região às margens do rio Xingu, no Pará, durante as obras de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Tragédia ambiental, social e cultural sem mortos imediatos, mas ainda assim capaz de impactar a vida de milhares de pessoas, entre indígenas, ribeirinhos e moradores da cidade de Altamira.

A tragédia natural provocada pelo terremoto no Peru e a tragédia ambiental ocorrida em razão da grande obra de Belo Monte no Brasil são os dois “acontecimentos-lugares” que marcam a personagem Alelí, do romance Maria Altamira (Editora Instante, 2020), novo livro da escritora e tradutora Maria José Silveira.

No romance, Alelí é a tragédia encarnada. Ao perder toda a família no terremoto de 1970, incluindo a pequena filha de 3 anos, decide vagar pela América do Sul sem rumo. O périplo dura dez anos, até que Alelí tenta reconstruir sua vida ao lado do índio Manuel Juruna, em uma aldeia às margens do Xingu, com quem teve a filha Maria Altamira, personagem-símbolo do livro.

Novas tragédias, no entanto, continuam a perseguir Alelí, que decide retomar suas andanças sem destino, acompanhada apenas por seu inseparável charango, instrumento de cordas feito com a carapaça de um tatu.

Maria Altamira é um livro que “nos envolve e, de algum modo, nos responsabiliza”, como lembra a professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, na apresentação do romance.

Envolve pela trama e as personagens fortes e apaixonantes (ou repugnantes). E responsabiliza, na medida em que o livro de Maria José, ao narrar as histórias de Alelí e da filha Maria Altamira, constrói um painel pungente da grande tragédia que é a América do Sul, com seus povos originários massacrados e a violência moderna das grandes cidades e dos rincões abandonados no interior do Brasil.

E mesmo com uma carga real tão pesada e se propondo a debater assuntos atuais e prementes (violência sexual, machismo, massacre dos povos indígenas, devastação das florestas etc.) o livro de Maria José consegue a façanha de criar uma narrativa que permite ao leitor, ao final, descobrir que fez uma “viagem feliz”, como escreve na apresentação o peruano Rodrigo Montoya, da Universidad Mayor de San Marcos, de Lima.

Tal felicidade, apesar de tantos pesares na trágica história de Alelí, acredito eu, advém da empatia que criamos com os personagens, em especial Maria Altamira. E é por intermédio da empatia pelas duas mulheres que chegamos ao coração do livro: a Floresta Amazônica, a personagem-lugar da história.

Como escreveu a agente literária Luciana Villas-Boas sobre o livro Maria Altamira: “Amazônia é o grande assunto brasileiro no cenário internacional, e o romance de Maria José revela e explica, expõe e sensibiliza sobre a questão ambiental e indígena como nenhum outro livro”.

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