Noite dos (des) mascarados


A música é de 1966, gravada quando o autor tinha apenas 22 anos. Ainda assim é de um lirismo maduro e profundo. Segundo recorda Wagner Homem no livro “Chico Buarque: histórias de canções”, Noite dos Mascarados foi composta às pressas, para substituir Tamandaré, censurada por citar de forma irônica o patrono da Marinha Brasileira.

Na letra, Chico brincava com o fato de a nota de 1 cruzeiro, que não valia quase nada naquele ano, trazer a figura do imponente almirante Joaquim Marques Lisboa. A música fora feita para o show “Meu refrão”.

Impressiona hoje a qualidade de Noite dos Mascarados, mesmo composta a toque de caixa, e ainda mais a atualidade de Tamandaré, que faz uma crítica ácida aos militares de plantão:

“Pois é, Tamandaré

A maré não tá boa

Vai virar a canoa

E este mar não dá pé,

Tamandaré

Meu marquês de papel

Cadê teu troféu?

Cadê teu valor?

Meu caro almirante

O tempo inconstante roubou”

Mas o tema aqui são as máscaras, não as carnavalescas, imortalizadas na música de Chico Buarque nos versos a seguir:

“Quem é você?

Adivinhe, se gosta de mim

Hoje os dois mascarados

Procuram os seus namorados

Perguntando assim:

Quem é você...”

Falo de máscaras menos líricas, ainda assim muito importantes, pois são aquelas que protegem e salvam vidas. Ao contrário das máscaras de carnaval, as que usamos hoje em dia não escondem, mas revelam:

“Quem é você, que anda sem máscara? Não gosta de mim, nem de você? Diga logo que eu quero saber...”

Me perdoem a prosódia ruim, mas o cancioneiro popular foi feito, também, para fazer a crítica social. Afinal, quem são esses desmascarados que andam pelas ruas? Os mascarados eu sei quem são: pessoas que se preocupam com a própria saúde e a dos outros. Mas e os sem máscaras?

Podem aparentar boa saúde e ainda assim carregarem consigo o novo coronavírus. E se, em seus passeios, um desses desmascarados encontrar alguém do grupo de risco? Ainda que não se preocupem com a saúde alheia, existe também uma lei obrigando o uso de máscaras, por acaso sabem disso?

“Quem é você? Diga logo que eu quero saber o seu jogo”, diz o poeta popular. E eu repiso aqui, pedindo licença ao Chico Buarque:

Quem é você, desmascarado? Eu NÃO quero morrer no seu bloco. Eu NÃO quero me arder no seu fogo. Volte já para casa e ponha uma máscara nessa sua cara de pau, se quiser pular o próximo carnaval.

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