Cinzas da democracia


Pacotão na contramão. Foto de Marcello Casal Jr./Agência Brasília

Foi no Carnaval de 1978, há 42 anos, que surgiu em Brasília o Pacotão. Antes dele, não havia Carnaval de rua na Capital da República. Um ano antes, carnavalescos do Recife, cansados do predomínio dos bailes nos clubes sociais, criaram o Galo da Madrugada, para reviver "os antigos carnavais de rua". No Rio de Janeiro, a retomada dos blocos de rua ocorreu nos anos 1980. Nos anos 60 e 70 o Carnaval carioca praticamente se resumia a escolas de samba (devidamente monitoradas pela censura) e bailes de gala. Os blocos estavam à míngua.

Existe, portanto, uma relação direta entre redemocratização e Carnaval de rua. Só não vê quem não quer. Governos autocráticos não aceitam multidões reunidas, principalmente se no meio de tais reuniões o riso e o humor correrem frouxos. É muito perigoso.

A violência das polícias militares no Carnaval 2020 é um sintoma. Não foram casos isolados. O bloco da segurança pública nunca esteve tão unido como agora, para reprimir foliões e deixar no ar aquela sensação de que "é melhor ficar em casa". Ontem, durante o desfile do Pacotão, em Brasília, havia um pelotão que causava medo. Bastaria uma faísca para que o bloco fosse dispersado em poucos minutos, na base do cassetete e do spray de pimenta, que hoje substitui o lança-perfume. Felizmente os foliões se comportaram bem, quase de forma bovina.

A repressão ao Carnaval não virá de uma vez, não se enganem. Mas ela vem crescendo a cada ano e, se não houver uma resposta da sociedade civil organizada, não demorará muito para que os bailes fechados nos clubes sociais voltem a ser mais "populares" do que os blocos de rua. Quem viveu a adolescência em Brasília, em plena ditadura militar, deve se lembrar que o sonho da garotada era conseguir uma carteirinha emprestada para pular em um clube. O carnaval era para poucos e poucas.

Foi a volta da democracia que tornou a rua um espaço novamente democrático. Mesmo quem não gosta de carnaval deveria celebrar o direito de quem gosta de brincar. Em um país com a nossa história - de longos períodos autoritários e poucos intervalos democráticos - o carnaval de rua é uma garantia de liberdade e de cidadania.

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