Literatura em tempos sombrios*

No dia 11 de setembro de 1973 o mundo foi surpreendido pelo bombardeio ao Palácio La Moneda, onde o presidente Salvador Allende, eleito democraticamente três anos antes, morreu ao resistir ao golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet.

Na mesma data, em Brasília, um fato menos notório assustava a população da capital. Uma menina de 7 anos, chamada Ana Lídia Braga, foi sequestrada, estuprada e morta, supostamente por jovens de classe média, filhos de membros do primeiro escalão do governo militar. As investigações sobre o crime foram interditadas, a imprensa censurada e proibida de continuar noticiando o caso.

Mais de 45 anos depois do golpe chileno e do crime sem castigo contra Ana Lídia, e três décadas após a promulgação de uma nova Constituição, vivemos uma situação tão sombria quanto aquela de 1973 aqui no Brasil. Hoje, homens e mulheres que ousam enfrentar o poder são torturados e mortos. Não mais, e diretamente, pelo poder do Estado, mas sim pelo poder paralelo dos senhores rurais e das milícias urbanas.

No campo ou na cidade, estamos cercados. Ameaçam, sequestram, torturam e matam lideranças populares, indígenas e quilombolas. Jovens negros são assassinados aos montes, todos os dias, num processo de limpeza étnica que avança com o aval da lei. Mulheres são violentadas e mortas com a conivência das forças policiais e do Poder Judiciário, que prefere punir os crimes contra o patrimônio e endossar uma guerra às drogas que já se mostrou inútil, além de letal para pobres e pretos.

A utopia da redemocratização, construída lentamente e interrompida em 2016, deu lugar à distopia de um Estado controlado por uma milícia digital. Infiltrada em todos os lugares, essa milícia repercute qualquer bobagem que seja antipovo e antiarte.

Como escrever poemas, contos, novelas e romances em tempos tão sombrios?

Quando lancei o livro Silêncio na cidade, em 2017, uma mulher das redes sociais, que eu não conhecia e continuo sem conhecer (seria ela um robô?), escreveu no Facebook que o livro era uma mentira deslavada, pois os militares não haviam matado Ana Lídia. Me chamou de comunista, claro, e notou que até a cor da capa do livro (vermelha) era um indício do que ela dizia. Outros a acompanharam nos comentários toscos e grosseiros.

Nenhum daqueles “ativistas digitais” se fez a pergunta: afinal, quem matou Ana Lídia? Não fizeram a pergunta porque não queriam uma resposta. Bastava tripudiar sobre o livro e o autor, afastando qualquer debate sério sobre o assunto. Então estamos assim. Vivemos uma situação onde uma diatribe vale mais do que um argumento. Onde uma difamação recebe mais destaque, e likes, do que uma retratação.

Ao abdicarmos (enquanto Nação) de passar a limpo os acontecimentos da guerra suja que a ditadura desencadeou contra toda uma geração de homens e mulheres que entregaram suas vidas e sua liberdade para tentar livrar o Brasil da opressão, permitimos que os seguidores daqueles opressores de ontem chegassem ao poder hoje. E o pior é saber que esse poder foi alcançado com o apoio da “imprensa livre”, mais empresa do que imprensa.

Em nome da sagrada liberdade da imprensa para falar mal de um partido e um governo, arquitetaram, em conluio com setores do Judiciário e do Ministério Público, um projeto de tomada do poder. Projeto que, ao que parece, não acabou bem. Não acredito que a nossa elite, por mais tacanha que seja, esteja satisfeita com o Brasil de agora. Erraram feio, e não apenas não admitem que erraram, mas também insistem em buscar uma saída honrosa para o caos que criaram.

Mas o que a Literatura tem a ver com tudo isso? Tem tudo a ver.

Em meio ao caos político, e comunicativo, é preciso, mais do que nunca, inundar os espaços reais e digitais com muita arte. Nossas crianças e jovens têm esse direito: o de ter acesso a poemas, contos, crônicas, romances, músicas, filmes, fotografias, montagens de teatro e dança, pinturas e esculturas. Mais do que nunca, é preciso dar vazão à criatividade e à imaginação.

Ver filmes do Kleber Mendonça Filho e da Petra Costa. Ler os poemas da Conceição Evaristo e do Pedro Tierra. Ou os romances da Maria Valéria Rezende, do Julián Fuks, do Milton Hatoum e da Rosângela Vieira Rocha. Ouvir as músicas do Criollo e do Chico Buarque. Ver o teatro de José Celso Martinez e visitar todos os museus e galerias de arte que pudermos visitar.

Acredito que a arte, e a literatura em particular, pode ser engajada sem perder a ternura e a qualidade. Victor Hugo e Emile Zola denunciaram a miséria em grandes romances. Pablo Neruda escreveu alguns dos mais belos poemas da língua espanhola sem abrir mão do seu compromisso político. Ana Maria Gonçalves juntou história e literatura para escrever uma bela saga brasileira, Um defeito de cor, que considero a melhor denúncia sobre a violência da escravidão no Brasil.

Acredito também que a Literatura tem hoje melhores ferramentas para enfrentar o obscurantismo e a opressão. Em um mundo povoado pela mesmice que transforma tudo em consumo, até o ato amoroso, só a arte, por sua dimensão anti-utilitarista, poderá desacelerar essa máquina de fazer dinheiro e destruir vidas.

Vamos ocupar todos os espaços que pudermos ocupar. Reais, digitais e imaginários.

O perigo de nos deixarmos embrutecer é real. É preciso resistir e criar.

*Texto apresentado na palestra “Literatura e Ditadura”, durante o Seminário “Literatura em tempos sombrios”, promovido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, em junho de 2019.

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