Revisitando Darcy Ribeiro


Se o antropólogo, escritor, educador e político Darcy Ribeiro vivo estivesse, do alto dos seus 97 anos, certamente ele seria um símbolo da oposição contra essa mistura de entreguismo ultraliberal com fascismo desorganizado que se tornou o governo Bolsonaro.

Todas as bandeiras que estão sendo rasgadas hoje tiveram em Darcy um militante ativo e brilhante.

O desmantelamento da universidade pública, o abandono do sistema de proteção aos índios, a liquidação do patrimônio público, a tentativa de criminalizar o trabalho das professoras e professores (ele odiava quando alguém usava o masculino para se referir ao coletivo do magistério) em sala de aula, o desprezo pela cultura e a arte, etc. Tudo aquilo que ele defendeu em seus 74 anos bem vividos está sendo agora desmontado, ainda que o que temos a perder não seja exatamente o que sonhamos para o Brasil.

Darcy Ribeiro costumava dizer que havia perdido todas as suas batalhas, mas que não gostaria de estar do lado de quem as venceu. E de todas as batalhas que lutou (e venceu algumas, diga-se), talvez a mais longa e frutífera tenha sido aquela por uma educação pública e de qualidade.

É, portanto, bastante oportuno o lançamento do livro “Darcy Ribeiro: Educação como prioridade” (Editora Global), organizado pela professora Lúcia Velloso Maurício. A obra é uma coletânea de artigos e discursos do criador da Universidade de Brasília (UnB). E é sobre a UnB um dos melhores momentos do livro.

Darcy Ribeiro narra que no dia da renúncia de Jânio Quadros ele correu para a Câmara dos Deputados para garantir que se votasse o projeto de criação da Universidade de Brasília, que estava na pauta do Plenário. Ninguém sabia o que aconteceria com a Presidência da República nas semanas seguintes, e Darcy queria garantir que a proposta que ele ajudou a escrever ainda no governo JK fosse logo aprovada. E foi, mesmo com os ataques feitos pela UDN ao projeto.

Esse caso mostra quem foi Darcy Ribeiro. Homem de pensamento e também de ação. Capaz de escrever um grande romance como Maíra, mas também de bancar o assessor legislativo e conseguir a votação de um projeto que corria o risco de cair nas gavetas empoeiradas do Congresso Nacional.

Hoje, merecidamente, o campus da UnB chama-se Darcy Ribeiro. O livro mostra que Darcy precisou lutar até mesmo para que a UnB fosse construída em um lugar acessível à população, pois Israel Pinheiro, o homem forte de JK nas obras da nova capital, queria construir a Universidade longe do centro urbano, pois temia que os jovens estudantes representassem uma dor de cabeça constante para os donos do poder. Os anos seguintes mostraram que a história da UnB fez jus à preocupação de Pinheiro.

Os Brizolões

O livro mostra também a luta de Darcy Ribeiro para implantar os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), durante o governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Os Brizolões, como eram conhecidos, atendiam crianças e adolescentes em regime integral (das 8 da manhã às 5 da tarde), com aulas, recreação, esportes, refeições e banho. E, de noite, se abriam para jovens que buscavam alfabetização ou instrução. Além disso, cada CIEP deveria receber, na condição de alunos residentes, 12 meninos e 12 meninas escolhidos entre crianças de rua.

Conhecemos ainda, na obra organizada por Lúcia Velloso, as ideias usadas por Darcy Ribeiro para rebater a principal crítica que faziam aos CIEPs: a de que o projeto era muito caro. “Afirmam”, escreveu Darcy, que “estaríamos onerando o nosso povo ao edificar e pôr em funcionamento escolas do Primeiro Mundo. Idiotice. Não é assim. O Brasil tem muito mais riqueza, liberdade e modernidade do que tiveram as sociedades modernas, quando empreenderam a escolarização de toda a sua população infantil, integrando-a na civilização letrada”.

Para Darcy, dinheiro em educação nunca era gasto, mas sempre investimento. E até quando se gastava com o Carnaval do Rio, o dinheiro acabava ajudando a educação. O livro mostra como foi implantar o Sambódramo, a passarela do samba projetada por Oscar Niemeyer e que, durante a maior parte do ano, abrigava (ou ainda abriga?) 200 salas de aulas.

Autor da LDB

Ao ler “Educação como prioridade” conhecemos também a batalha de Darcy Ribeiro para aprovar, em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), contrariando inúmeros interesses privados e políticos. A história mostra que sua luta começou bem antes, nos anos 1950, quando atuou ao lado de Anísio Teixeira para aprovar a primeira LDB, em 1961, e o primeiro Plano Nacional de Educação, elaborado por Darcy quando era ministro da Educação de João Goulart.

Lúcia Velloso Maurício, ela própria uma seguidora do legado de Darcy Ribeiro, conseguiu reunir, em um só volume, o que o pensador produziu em mais quarenta anos sobre o tema da educação. O que parecia disperso, no livro organizado por ela aparece como um pensamento coeso e que segue uma grande linha de raciocínio, que poderia ser resumida em um parágrafo escrito por Darcy em 1995, e que, 24 anos depois, soa extremamente atual:

“Mas não se equivoque comigo. Nenhum escritor é inocente, eu também não...Confesso que quero mesmo é fazer sua cabeça. Os brasileiros vêm sendo tão massacrados pela indoutrinação direitista, difundida por toda a mídia, que já não há onde alguém possa informar-se realmente sobre como viemos a ser o que somos, sobre como se implantou a crise em que estamos afundados e sobre as alternativas políticas que se abrem para nós [...] Nada é mais necessário hoje que um novo discurso de esquerda”.

Professores, estudantes e defensores da escola pública, mais do que nunca, necessitam das ideias e das estratégias de Darcy Ribeiro para manter de pé o edifício do saber, duramente construído nas últimas décadas.

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