Vozes do passado


Quando a minha cidade tinha menos ruídos urbanos e mais barulhos naturais – do vento, das folhas e das crianças – a voz humana era um componente importante da paisagem sonora.

O mesmo acontece quando se caminha por uma estrada no meio do nada, e o vozerio das conversas nos chegam com tanta intensidade que as palavras persistem na memória por muito tempo.

Foto do Blog do Chiquinho Dornas.

Minha quadra, a SQN 312, onde passei a maior parte da minha vida, tem guardada até hoje algumas dessas vozes. Seu Jari, nosso vizinho de corredor. Carioca, negro e conversador. Sempre que me via tinha uma frase pronta, arrastando todos os esses.

Junto com seu Zé Gomes, paraibano; seu Jéter, outro carioca; e seu Sinval, cearense; formavam os parceiros do jogo de baralho do meu pai, este mineiro. E como conversavam! Eu menino ouvia a tudo com curiosidade, enquanto era alimentado pelo café com bolo da dona Shirley, esposa do Jari.

Dona Dalila, hoje ainda firme, preenchia com seu sotaque gaúcho a poeira vermelha de Brasília. Em contraponto, Dona Iaiá, paraibana, falava cantando seu dialeto sertanejo. Havia ainda Dona Zilda, doce mineira do Triângulo. Vendo um dia as três conversando com a minha mãe, nascida no Recife, mas adaptada ao Planalto Central, não pude deixar de ouvir ali um coral de quatro vozes femininas.

Mas as vozes que mais me impressionavam eram as que vinham da rua. Uma vez por mês passava o garrafeiro, comprando vasilhames empoeirados. “Garrafeiroooo”, gritava ele, encompridando a última sílaba. E as crianças, sempre terríveis, emendavam: “trabalha, mas não ganha dinheirooo”. É que o homem, ao invés de vender, comprava (garrafas), e na cabeça das crianças aquilo era uma maluquice.

Nunca me esqueço do dia em que juntei dezenas, ou foram centenas?, de garrafas velhas, colhidas na vizinhança, pois o que se pagava era muito pouco e as pessoas tinham preguiça de descer com aquele peso e voltar com alguns centavos no bolso. Meu empreendedorismo rendeu uma nota de cinco cruzeiros – uma verdadeira fortuna para uma criança daquela época.

Devo estas recordações ao poeta e compositor Newton Lima, conterrâneo da Super Quadra Norte 312. Em seu livro de poesia Terceira Visão ele nos lembra de uma personagem da nossa quadra. Era uma mulher pobre, que vivia de “garimpar porcarias” no chão. Quando ela passava, a garotada gritava: Banana D’água! Banana D’água! Era a senha para ela largar tudo e correr atrás dos pequenos. Eu não gritava por pena, ou medo, mas os gritos dos moleques ecoam até hoje dentro de mim.

Em outro poema, Newton nos fala do amolador de facas, que passava sempre um pouco antes da hora do almoço, tocando seu apito sertanejo. E como uma lembrança puxa a outra, Chico, seu irmão, nos lembra de um caboclo, um índio muito sério, que passava vendendo calçados. “Sandalheirooo”, gritava ele. Com este, ninguém ousava mexer.

Que fim levaram todas aquelas vozes?

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