O campo de futebol

Nada mudou tanto no futebol nos últimos anos quanto o campo, o local onde se realiza a peleja. Não falo das medidas ou altura das traves, que estas permanecem. Refiro-me ao todo. Quem frequentou, como eu, estádios nos anos 70 e 80, e hoje entra em uma dessas arenas grandiosas, sabe do que estou falando.

Antes o conforto era mínimo, pois o que importava era unicamente o futebol. A segurança também era mínima. Uma foto deliciosa que circula na internet mostra um jogo no Maracanã lotado, com algumas dezenas de torcedores fanáticos vendo o jogo de cima da marquise do estádio. Bons tempos! Diriam os saudosistas, quando tudo era menos. Menos caro e menos complicado, ainda que mais perigoso.

E os campinhos de antigamente, onde jogávamos nossas peladas? Esses sim mudaram muito. O critério para virar campo de futebol era ter algum trecho de grama. Na quadra onde cresci, a SQN 312, havia pelo menos uns cinco campinhos improvisados, nenhum deles padrão FIFA. Aquele onde eu mais jogava ficava entre os blocos J e K. Era na verdade uma ladeira muito íngreme, onde quem atuava na parte de cima levava ampla vantagem. Por isso havia sempre dois tempos, mesmo se tratando apenas de uma simples pelada, para que o outro time que jogou o primeiro tempo atacando ladeira acima pudesse atacar ladeira abaixo. Coisa de louco. E de menino.

Havia outro campo ao lado da Escola Classe. Certo dia passei por lá e achei impossível jogar bola naquela coisa. O lugar é muito apertado e cheio de imperfeições. Mas saibam que ali fizemos até jogo contra. E aqui cabe uma rápida explicação. Jogo contra é uma das instituições da pelada oficial. É quando dois times de blocos, quadras ou ruas diferentes se enfrentam. O confronto tem ares de final de Copa do Mundo. No meu tempo de menino, às vezes acontecia de haver uniforme, mesmo que improvisado, e torcedoras, em geral as irmãs e amigas dos jogadores.

Mas o campo principal era o que ficava na entrada da quadra, entre os blocos A e B. Era o nosso Mané Garrincha, o nosso Santiago Bernabéu. Ali sim havia campeonatos super disputados, com direito a taça e medalhas. O problema é que a prefeitura de Brasília insistia que o local deveria ser um bosque, e vivia plantando árvores naquele espaço. Mal a equipe do Departamento de Parques e Jardins (DPJ) ia embora, nós arrancávamos as mudas e recolocávamos nossas traves. Esses servidores do DPJ eram os temidos “graminhas”, que chegavam de surpresa para furar a bola e botar para correr aquela horda de criminosos ambientais.

No meio do campo (ou do jardim) do nosso principal estádio, tinha uma pedra, na verdade uma caixa de cimento de um bueiro. Pois o futebol rolava tranquilo mesmo assim, e não me lembro de nenhum menino ter tropeçado ou se machucado por causa daquilo. Na verdade, o bueiro podia servir de zagueiro ou atacante, dependendo da situação.

Quando eu já havia me casado e não morava mais ali, surgiu a primeira quadra de esporte polivalente, cimentada e pintada, com traves de futsal e tabelas de basquete. Uma beleza. Certa vez organizaram um campeonato lá e me chamaram para participar. Achei estranho jogar naquele campo certinho, perfeito, sem ladeiras ou bueiros. O resultado não poderia ser outro: meu time perdeu de goleada.

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