Se Lula virou uma ideia, quais as ideias de Lula?


Ele não é mais um ser humano, é uma ideia. Concordemos ou não com ele, Lula tornou-se isso mesmo: uma ideia. Mas quais são, então, as ideias de Lula? A Editora Boitempo lançou há poucas semanas o livro “A verdade vencerá – o povo sabe por que me condenam”.

Não se trata de uma obra de apologia ao Lula, e sim de uma longa entrevista, da qual participaram os jornalistas Juca Kfouri (Folha de S. Paulo e UOL) e Maria Inês Nassif (ex-Valor Econômico), além de Gilberto Marigoni (professor de Relações Internacionais) e Ivana Jinkings, fundadora e diretora da editora Boitempo.

Além da entrevista, o livro também traz um prólogo do escritor Luis Fernando Veríssimo, uma breve introdução escrita pelo historiador Luiz Felipe Alencastro e uma análise política, à guisa de prefácio, do cientista político Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília.

Na entrevista Lula fala sobre tudo e não deixa de responder a nenhuma das perguntas. Conta piada, xinga, elogia e desanca adversários e aliados. Também fala sobre redes sociais, educação, operação Lava Jato etc. É Lula em carne e osso. E ideias.

A seguir, trechos da entrevista, que cobre mais de duzentas páginas do livro, que este leitor leu e releu, entre risos e choros.

SOBRE A FOME

“...pessoas que passam fome não têm sindicato, não têm partido, às vezes não têm nem igreja, não se manifestam, (...) não vão a Brasília, não vão à Paulista, não carregam bandeira. A única bandeira do pobre é o ronco do seu estômago”.

LULA CONCILIADOR

“Sempre entendi que um governo de conciliação é quando você pode fazer mais e não quer fazer. Agora, quando você só pode fazer menos e acaba fazendo mais, é quase que o começo de uma revolução – e foi o que fizemos neste país”.

“Não fui eleito para virar o que eles são, eu fui eleito para ser quem eu sou. Tenho orgulho de ter sabido viver do outro lado sem esquecer quem eu era.”

SOBRE O PT

“O PT não nasceu para ser um partido revolucionário, nasceu para ser um partido democrático e levar a democracia até as últimas consequências”.

IMPEACHMENT

“Eu costumo fazer um paralelo entre a Dilma e o Fernando Henrique Cardoso; em 1999, ele estava na mesma situação da Dilma em 2015: com 8% de aprovação nas pesquisas, morto. Qual era a diferença? O Fernando Henrique Cardoso tinha o Temer como presidente da Câmara querendo aprovar as coisas e o Maciel, como vice, completamente fiel a ele. A Dilma, na presidência da Câmara, tinha o Eduardo Cunha, totalmente antagonizado com ela, e um traidor como vice [Michel Temer]”.

MODO DE GOVERNAR

“Nunca comecei uma reunião ministerial falando; eu abria a reunião dizendo qual era o problema e ouvia todos os que estavam à mesa; somente depois é que eu dava uma opinião, dizendo o que eu considerava. Porque, se o presidente fala em primeiro lugar, ninguém fala mais; ou, se falar, ninguém vai discordar”.

CRÍTICA AOS MARQUETEIROS

“A Dilma anunciou o PIL, o Plano de Investimento em Logística, que poderia ser o PAC 3, o PAC 4...mas resolveram criar o PIL. Foi coisa de marqueteiro, criar um nome novo para ela ser a mãe: “Chega de PAC, vamos criar um tal de PIL”. E criaram. Pode ir à rua e perguntar o que é o PAC, todo mundo sabe; pergunta o que é o PIL, e a pessoa diz: É um galinho de briga”.

LEI DA FICHA LIMPA

“A lei é feita para ser interpretada corretamente, não para ser interpretada politicamente. Não fiz a lei para os outros, fiz a lei para o Brasil. O que eu quero é que eles interpretem a lei dentro do processo”.

EDUCAÇÃO

“É preciso aumentar o orçamento da educação em cinco vezes, como nós fizemos no meu governo, o que significa tirar dinheiro que ia para outro setor”.

“Se você fosse discutir economicamente, você não faria o Prouni, o Fies, as escolas técnicas, você não criaria o piso dos professores, você não quintuplicaria o orçamento da educação. Porque sempre aparece alguém pra dizer: “Não dá”. Ora, como é que não dá? Sempre os donos do dinheiro dizem que não dá. E quem são os donos do dinheiro? Aqueles que têm verbas vitalícias no orçamento público”.

COMUNICAÇÃO

“Vejam a questão da comunicação: nós pegamos um país em que o dinheiro da comunicação era distribuído para trezentos meios de comunicação e passamos para quase 4 mil. Isso tudo cria problema”.

PRÉ-SAL

“As petroleiras de todo o mundo não se conformaram com a famosa Lei da Partilha e com a tese de que o petróleo é nosso; não se conformaram com a destinação de 75% dos royalties para a educação”.

“Só encontramos o pré-sal à custa de muito investimento em pesquisa. Foram bilhões em investimento. Na época, você tinha que discutir o seguinte: você vai utilizar ou não? O que diziam alguns técnicos? Que seria muito caro trazer o óleo de 7 mil metros de profundidade. Diziam que não era competitivo. “Os americanos vão dar um banho na gente com o gás de xisto”. Logo inventaram esse gás de xisto para desmoralizar o nosso pré-sal e o nosso etanol. Passado esse tempo todo, como é que está o gás de xisto e como está o nosso pré-sal? Nós estamos trazendo o petróleo aqui em cima a 8,5 dólares o barril. Na Arábia Saudita, que é quase à flor da terra, é 6,5 dólares. Quanto está o petróleo a partir do xisto? Pelo menos 15% mais caro”.

LULA E O POVO

“Em vez de ficar com uma semente na mão, dizendo “porra, mas ela é pequena, mas ela é pequena”, plante logo pra ela crescer. Plante e acredite. Adube este país. O que é adubar este país? É criar condições de o povo participar – e, quando o povo participa, dá certo”.

PARTIDOS POLÍTICOS

“Você tem que ter partidos ideologicamente bem formados, que sejam dois, três ou quatro, mas você não pode ter 32 partidos políticos. Isso não é sinônimo de democracia. Trinta e dois partidos significam patifaria. Você tem que ter partidos fortes, em que a sociedade possa votar ideologicamente, e aí você pode fazer acordos políticos, em cima de programa de governo, não de interesses”.

LAVA JATO

“Justiça tem um papel a cumprir, fazer justiça. Se a Justiça quer fazer política, então o cidadão deixa sua função de magistrado, entra para um partido político e vai disputar eleições. Quando a Justiça faz justiça, o povo acredita em justiça. O defeito da Lava Jato é que, ao mesmo tempo em que eles pensaram em combater a corrupção, eles construíram um pacto de se sustentar na imprensa brasileira”.

PODER JUDICIÁRIO

“Se não acreditasse em justiça, eu não teria proposto a criação de um partido político, eu ia propor uma revolução”.

PRISÃO E ELEIÇÃO

“Eu saí de casa hoje e vi um cartaz: “Não à prisão do Lula”. Eu não gosto desse cartaz. Nem sei quem fez. Eu preferia que fizessem um cartaz: “Lula é inocente”. Porque, se eu fosse culpado, teria que ser preso. Da mesma forma, eu penso na candidatura. Jamais gostei da expressão “eleição sem Lula é fraude”. Porque seria melhor que a gente tivesse trabalhado uma coisa mais positiva: “Queremos provar a inocência do Lula para que ele seja candidato”.

RETORNO AO PODER

“Eles devem ficar pensando assim: “A gente inventou uma fraude para dar o golpe e a gente conseguiu dar o golpe, tiramos a Dilma. E fizemos tudo isso pro Lula voltar? Correndo o risco de ele levar a Dilma de volta pro governo?”. Porque eu de fato levaria, para ela fazer coisas que sabe fazer como ninguém. Eles correriam o risco de eu montar um ministério ainda mais forte que o da primeira vez?”

SÉRGIO MORO E AUXÍLIO-MORADIA

“Porra [bate na mesa], se tem uma coisa que o povo gosta é de viver bem. As pessoas gostam tanto de viver bem que o Moro, quando acha que não ganha o que precisa, pede auxílio-moradia [risos]. Então, nós queremos ensinar o povo: “Complementem seu salário reivindicando auxílio-moradia”.

SOBRE A CRÍTICA DE QUE SEU GOVERNO CRIOU CONSUMIDORES E NÃO CIDADÃOS

“Eu pensei no cidadão. Porque o cidadão que não pode consumir não é porra nenhuma. O cidadão que não pode comer, não pode vestir e não pode beber é pária, não é cidadão”.

MÁQUINA PÚBLICA

“Se fala que o PT encheu a máquina pública com seus quadros. Mas, se você analisar a história do país, está claro que o PT foi o partido que menos criou cargos de comissão. Porque a direita é sabida, eles fazem essa acusação para deixar os cargos deles lá”.

MOVIMENTO SOCIAL E MOVIMENTO SINDICAL

“A gente reduziu a discussão só à esfera da economia, abandonou a discussão política na porta de fábrica, nos movimentos sociais, especialmente durante o governo Dilma, especialmente a partir de 2013, 2014”.

POLITIZAÇÃO

“Acho que nós já conseguimos politizar um pouco a população. O Carnaval mostrou isso. Você não viu banda com a cara do Moro nem banda com a cara do Temer. Você viu a Globo com vergonha de fazer entrevista, você viu muitas coisas...”

BEBIDA

“Fiquei nervoso com aquele cara do New York Times (Larry Rohter), quando ele fez aquela matéria sobre o Lula beber, porque eu duvido que um jornalista tenha me visto bêbado alguma vez. A última vez que bebi para valer foi quando nós compramos bebida para ver Brasil e Holanda na Copa de 1974” (o Brasil perdeu de 2x0).

TV GLOBO E COMPANHIA

“Absurdo é o método, é a montagem da mentira contada. E o que é mais grave nesse processo? O grave é que, como ele está apoiado numa mentira muito grande, a do power point, que é a chamada nave mãe, eles têm que sustentar a todo custo. A Veja, a IstoÉ, essas revistas são a base de quase todas as investigações. Por exemplo, o apartamento: é tudo baseado nas reportagens mentirosas do jornal O Globo. O Moro cita O Globo quinhentas vezes. Então, como isso é baseado em mentira, e eles já estão há quatro anos mentindo, eles não têm como sair. Por isso é que eu disse para ele no meu depoimento: “Ô, Moro, você não tem como não me condenar. Você é refém da Globo”. E a Globo é refém dele. Um alimenta o outro”.

INSTITUTO LULA

“Eu estou sendo atacado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Poder Judiciário e pela Receita Federal. Você sabe em quanto a Receita multou o Instituto [Lula]? Quase 18 milhões de reais! É um bloqueio mais feroz do que aquele que está sendo feito em Cuba há sessenta anos. É pra não deixar sobreviver. É uma estratégia de asfixiar economicamente para matar politicamente. Esse é o estado em que as coisas estão no Brasil”.

FHC

“Veja, sou um cara agradecido ao Fernando Henrique Cardoso pela lisura da transição. Não pense que esqueço, não. As críticas que tenho ao Fernando Henrique Cardoso são que, como ele esperava o meu fracasso para voltar, não soube lidar com o meu sucesso. Ele poderia ter sido, em parte, ganhador, sócio do meu sucesso. Mas não soube. Lamentavelmente, é isso”.

“Ele queria que eu ganhasse em 2002, depois passou a torcer pelo meu fracasso. Qual era a lógica do Fernando Henrique Cardoso? Era que, se eu ganhasse, ia ser um fracasso, e ele voltaria nos braços do povo. Por isso ele não queria o José Serra. Se o Serra ganhasse, ia querer a reeleição. Ele dizia isso a vários interlocutores, que me diziam isso. Ele era muito simpático à minha candidatura”.

LULA E PRESTES

“Não sou um operário científico, como gostaria o meu amigo Prestes (Luis Carlos Prestes). Sou um operário operário. Sou mais do que científico, sou só operário. Uma vez, fui a um debate com o Prestes em Cajamar e, depois que falei, ele disse: “Eu gosto muito do Luiz Inácio, mas ele não é um operário científico”. Eu falei: “Porra, Prestes, já sou operário, você ainda quer que eu seja científico? Cacete!” [risos].

UNIVERSIDADES

“Este país é tão hipócrita que, antes do meu governo, o ministro da Educação não tinha coragem de receber reitores das universidades! Conte nos dedos os presidentes da República que foram visitar universidades neste país. Qual foi o presidente da República que recebeu reitores? Pois eu, durante oito anos, fazia uma reunião anual com reitores das universidades federais (...). Todo ano! Está certo que nós só começamos a ter universidade em 1920. O Peru teve em 1550. Nós demoramos quase quatrocentos anos! Essa é a elite brasileira. Esse é o nosso legado da elite brasileira. Para que universidade aqui? Para quê? O povo não tem que saber”.

“Eu inventei com o Haddad uma história maravilhosa: nós vamos colocar pobre na universidade. E qual é o milagre? Você tem as universidades que sonegam imposto, que têm dívida com o governo... Vamos transformar parte desse imposto em bolsa de estudo. E hoje isso virou uma política pública. São quase 2 milhões de jovens que passaram pela universidade”.

JORNALISTAS

“Me lembro de uma reunião com a turminha da Globo, no começo de 2006, na casa do Carlinhos Drummond, que era representante da Globo em Brasília; quando eu fui embora – fiquei sabendo porque uma jornalista que estava lá depois me contou –, o João Roberto (Marinho) falou assim: “Puxa, mas o presidente tá bem, tá animado”. Aí o Merval: “Ele tá é fazendo tipo, ele tá morto, não será candidato à reeleição. Posso dizer a vocês que ele não será candidato à reeleição”.

GOLPE

“Eu dizia para o pessoal aqui do Instituto: “Olha, esse golpe não fecha se não vier pra cima de mim”. Ora, se o golpe foi dado para evitar a progressão dos descamisados deste país, eles não podem tirar a Dilma e deixar o Lula voltar dois anos depois. Já falei disso duas vezes e volto a falar, porque é importante mesmo”.

CIRCUITO DA DIFAMAÇÃO NA IMPRENSA

“Eles combinam mesmo. E é um circuito. No tempo do Mensalão, eu descobri que o circuito para paralisar um governo é assim: na quinta-feira, começa a boataria; na sexta, começam a sair coisas na Internet; no sábado, dá no Jornal Nacional; no domingo, vai para a imprensa escrita e, à noite, pro Fantástico”.

DELATORES

“Delator só delata porque roubou. Quem delata é porque quer fazer negócio”.

DONA MARISA

“A Marisa tinha um problema de um aneurisma, fazia já sete anos, ela fazia check-up todo ano, e o médico dizia: “Está normal, não tem nenhum avanço”. Mas de vez em quando ele falava em operar, e ela dizia: “Se não tem nada, por que vou operar?”. Bem, com essas coisas todas, ela foi ficando mais tensa, perdendo o humor, não queria mais sair de casa. Cada vez que havia alguma coisa contra um dos filhos, ela ficava muito magoada. Quando houve a minha condução coercitiva, aquela violência, acho que foi a gota d’água... [chora]”.

ÓDIO E REDES SOCIAIS

“Antigamente, se você pensava alguma coisa de mim, tinha que procurar alguém para contar. Você tinha que falar mal de mim por telefone ou marcar uma cerveja com um grupo de companheiros e aí falar mal de mim. Hoje não. Hoje você vai no seu celular [tamborila os dedos], entra no zapzap [WhatsApp] e fala mal; você consegue...”

CELULAR

“Por que as pessoas estão raivosas? Por quê? As pessoas compram comida pelo celular, chamam carro pelo celular, pagam conta pelo celular, fazem um monte de coisas pelo celular, ouvem piada pelo celular, veem filme pelo celular e, quando saem na porta e veem alguém na porta do elevador, acham que já está atrapalhando... “Eu estava tão bem no meu mundo virtual e vem esse cara me encher o saco.” Acho que esse é um problema que a humanidade vai ter que trabalhar”.

ACORDO E RUPTURA

“Toda vez que a sociedade brasileira esteve a ponto de uma ruptura, houve um acordo. E um acordo feito por cima. Quem está por cima não quer sair”.

SOBRE AS CRÍTICAS DE QUE FOI CONCILIADOR COM A ELITE

“Fiz as concessões que o momento exigia. Fui eleito presidente com 10 senadores e 91 deputados, num colégio de 513. E, mesmo com esse balanço desfavorável, promovi a ascensão social dos mais humildes. Tirei 36 milhões de brasileiros da miséria, disponibilizei 47 milhões de hectares para assentamento de pequenos produtores (quase 50% do que foi feito em quinhentos anos de história deste país), levei outros 40 milhões a um padrão de vida de classe média baixa, instalei luz elétrica para mais de 15 milhões de pessoas, dei início à transposição do rio São Francisco, coisa que dom Pedro tentou fazer nos tempos em que era imperador...”

Serviço:

“A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam”

2018

216 páginas

Editora Boitempo

35 reais

E-book gratuito

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