Compartilhando leituras para 2018

Desde 2006 mantenho uma caderneta onde anoto os nomes, autores e editoras dos livros que li. Também escrevo algumas palavras. Não chega a ser uma apreciação crítica. Pode ser um brevíssimo comentário, um trecho que me chamou atenção ou uma tentativa de relacionar o que foi escrito pelo autor ou autora ao que anda se passando comigo.

Este ano de 2017 foi especialmente rico em leituras. Em razão de alguns compromissos profissionais ou mero diletantismo, alarguei meu tempo dedicado aos livros. Foram mais de 40, entre lidos, relidos ou consultados. Sem contar o meu próprio, que precisei reler antes de publicar em papel.

Retomei o site Leitores sem fim, desta vez com o auxílio competente da Bruna Rocha, continuei colaborando com o Casa das Palavras, o programa de livros da TV Câmara, que também virou coluna do Feijoada Completa, uma revista eletrônica da Rádio Câmara. Esse triplo compromisso com a literatura sobrecarregou minha caderneta, mas nunca me senti tão bem com tantas e tão variadas leituras.

Separei uma relação de livros que li ou reli este ano e que recomendo para as férias ou para os próximos meses. Nunca é demais lembrar que a Literatura é uma forma quase sempre agradável de nos conectar com o outro. E se essa conexão for dolorida, melhor ainda. Ler um grande livro pode sarar ou reabrir feridas, mas nunca deixa de ser algo provocador. Apresento os livros por ordem de leitura, alguns com trechos dos resumos publicados pelas editoras.

1 – Rita Lee – uma biografia. Rita Lee, Globo Livros. A roqueira escreve bem, sim senhora. Conta tudo, sem deixar passar nada. Sincero ao extremo, divertido, às vezes raivoso, mas um ótimo livro. A rainha do rock brasileiro viveu e sofreu.

2 – A Bíblia do Che – Miguel Sanches Neto, Companhia dos Livros. O professor Carlos Eduardo, personagem em outros livros de Sanches Neto, tem sua paz interrompida pela visita de um velho conhecido, um operador financeiro que quer contratá-lo para uma missão insólita: localizar um exemplar da Bíblia com anotações que Che Guevara teria feito durante uma passagem pelo Brasil.

3 – O tribunal de quinta-feira – Michel Laub, Companhia das Letras. Um romance que parece ter sido escrito na semana passada, tão quente que é pela temática. Mas a escrita é rigorosa. Um publicitário faz confissões por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que contam a história de uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as distribui, tem início o escândalo que é o centro deste romance explosivo.

4 – Amiga de juventude – Alice Munro, Biblioteca Azul. Os contos da canadense Alice Munro (Prêmio Nobel de Literatura em 2013) são mininovelas, com personagens marcantes e histórias que lançam mão da memória, dela e dos outros. São contos longos, mas nem por isso cansativos. Amiga de juventude é, sem dúvida, o melhor conto do livro.

5- Sangue na neve – Jo Nesbo, Record. Por indicação do meu primo Djalma Jr., decidi ler os romances policiais desse escritor norueguês. Ao final do livro, ele cria uma cilada para motivar o leitor a ler os próximos livros dele. Genial!

6 – O morcego – Jo Nesbo, Record. Não tão bom quanto Sangue na neve. Uma história policial clássica, mas sem as inquietações do anterior.

7 – Crime e castigo – Fiador Dostoievski, Martin Claret. Decidi reler Crime e castigo depois de conhecer Oleg de Almeida, poeta e tradutor nascido na Bielo-Rússia e que vive no Brasil desde os anos 90. É dele a tradução do romance de Dostoievski para o português, diretamente do russo. Aconselho a leitura, ou releitura, em tradução do idioma original do autor. É outro livro.

8 – Paixão de Honestino – Betty Almeida, Editora UnB. Pesquisa cuidadosa, a biografia do líder estudantil escrita por Betty Almeida é um belo livro. Narra desde a infância de Honestino no interior de Goiás, até o seu desaparecimento nos anos 70. A história de Honestino e seus irmãos daria um grande filme.

9 – A amiga genial – Elena Ferrante, Biblioteca Azul. A escritora italiana nos fisga com seu tom confessional e lírico. Consegue ser popular sem parecer que escreveu apenas para agradar o grande público.

10 – A morte do Brasil – Lêdo Ivo, Editora Leitura. Indicação do meu filho, Rodrigo. Eu mesmo não sabia que o poeta alagoano Lêdo Ivo escreveu romances. E como escrevia bem o danado! O crítico literário e ensaísta André Seffrin, que assina a orelha do livro, afirma sobre a obra de Lêdo Ivo: “A noite desce sobre o Brasil e um delegado de polícia encara seu ofício como missão na guerra da vida. Sedento de justiça, ele acredita que uma "cidade deve ser limpa" assim como um país deveria ser limpo, uma coisa "branca e limpa, um território imaculado". Tema super atual, como se vê, apesar do livro ter sido escrito em 1984.

11 – A radiografia do golpe – Jessé Souza, Leya. Mesmo com algumas ideias repetidas de seu livro anterior (A tolice da inteligência brasileira), Jessé Souza consegue mapear todo o processo que resultou no golpe contra Dilma Rousseff. Analisa desde as “jornadas de junho”, de 2013, ao fatídico 17 de abril de 2016, data da aprovação do impeachment pela Câmara dos Deputados.

12 – Obras completas – Raduan Nassar, Companhia das Letras. Reli, depois de muitos anos, Lavoura arcaica, e aproveitei para ler o restante da obra do grande escritor brasileiro. Raduan Nassar escreve com força e lirismo. Seus diálogos são longos, mas nem por isso cansativos. E as descrições que faz dos ambientes e personagens são sucintas, mas completas. A novela (ou seria romance?) Um copo de cólera, é arrebatadora. Li também seus contos e um ensaio (A corrente do esforço humano), onde o autor tenta explicar e entender o Brasil.

13 – A resistência – Julian Fuks, Companhia das Letras. Romancista jovem, mas de texto maduro, o livro de Fuks é uma espécie de autoficção, onde o autor fala de seu irmão, adotado quando seus pais ainda moravam na Argentina e antes de fugirem para São Paulo, em razão da ditadura militar. O livro surpreende pela forma como trata um assunto tão delicado (a adoção), derivando para temas políticos e existenciais.

14 – Presos no paraíso – Carlos Marcelo, Tusquets Editores. Depois de escrever a biografia de Renato Russo e um livro sobre as origens do baião, o jornalista Carlos Marcelo enveredou pela ficção. E escolheu como cenário um paraíso (Fernando de Noronha), para narrar uma história policial pouco convencional, mas que fisga o leitor nas primeiras páginas.

15 – Cidade dos sonhos – Daniel Cariello. Livro leve, de crônicas escritas por um brasiliense de bem com a vida. Como anotou o próprio autor em seu site: “Este é um livro para quem ama Brasília. E para quem detesta. Para quem conhece a capital do país. E para quem nunca colocou seus pés por aqui. Para quem acha que a cidade é só poder e burocracia. E para quem está ajudando a construir sua identidade”.

16 – A livraria mágica de Paris – Nina George, Record. A partir de uma ideia interessante – um livreiro que receita leituras para as pessoas, a partir de seu barco-livraria ancorado no Sena - Nina George constrói um romance leve e agradável, bom para ser lido em viagens.

17 – Noite dentro da noite – Joca Reiners Terron, Companhia das Letras. Conheci Terron por intermédio de Milton Hatoum, que me presenteou com o livro dele ao participar de entrevista na TV Câmara. O romance de Joca Reiners Terron inova na forma e no conteúdo. É livro para ser lido devagar, procurando minúcias nas frases e entrelinhas.

18 – Lima Barreto: Triste visionário – Lilia Moritz Schwarcz, Companhia das Letras. Li a nova biografia de Lima Barreto de olho na Festa Literária de Paraty, que em 2017 homenageou o escritor carioca. Lilia Moritz Schwarcz investiga as origens, a trajetória e o destino do autor de “O triste fim de Policarpo Quaresma” sob a ótica racial no Rio de Janeiro da Primeira República.

19 – Nossa Senhora do Nilo – Skolastique Mukasonga, Nós editora. Relato sobre a Ruanda do século 20, pelos olhos de uma adolescente que estudou no principal colégio católico do país. Texto envolvente, mesmo tratando de uma questão tão dura como é a divisão étnica de Ruanda, entre Hutus e Tutsis.

20 – Cinco Esquinas – Mario Vargas Llosa, Alfaguara. Sexo, política e jornalismo marrom, em doses generosas. Vargas Llosa explora a história recente de seu país, o Peru, durante a ditadura de seu adversário político Alberto Fujimori, para falar da vida dos ricaços de Lima e de como um governante consegue atrair os piores tipos para se manter no poder.

21 – A morte do diplomata: um mistério arquivado pela ditadura – Eumano Silva, Tema Editorial. O livro de Eumano Silva investiga a história do diplomata brasileiro Paulo Dionísio de Vasconcelos, que no dia 4 de agosto de 1970 apareceu morto dentro do seu carro, em Haia, na Holanda, onde trabalhava e morava com a família. Um mistério que o jornalista persegue com muita apuração e lançando mão de técnicas literárias.

22 – O indizível sentido do amor – Rosângela Vieira Rocha, Patuá. O livro de Rosângela Vieira Rocha é um alento. Mesmo escrevendo sobre um tema complexo e doloroso (a viuvez), ela consegue fazer isso sem apelar para o drama. Se o sentido do amor é indizível, escrever sobre ele é possível, e é o que faz com habilidade a autora.

23 – A sombra do vento – Carlos Ruiz Zafón, Suma. O livro prende, pela história e seus personagens, mas é longo demais, pelo que traz ao leitor. Zafón cria uma atmosfera de permanente suspense na obra, mas, ao escrever além da conta, se estende sem necessidade em alguns momentos da história. A melhor parte do livro é quando fala da Guerra Civil Espanhola.

24 – Ragtime – E. L. Doctorow, Record/TAG Livros. Ragtime é um grande romance americano. Escrito de forma simples e direta, faz um painel fantástico dos EUA no começo do século 20. E trata da questão racial de forma contundente, sem ser militante. Foi reeditado este ano no Brasil em edição primorosa.

25 – Todos os abismos convidam para um mergulho – Cinthia Kriemler, Patuá. A literatura feita em Brasília este ano foi de primeira. Primeiro li O indizível..., citado acima, e depois o

primeiro romance de Cinthia Kriemler. Ele conta a história de uma assistente social que transita entre dois mundos que parecem afundar.

26 – A noite da espera – Milton Hatoum, Companhia das Letras. Para quem se acostumou a ler os grandes romances amazônicos de Hatoum, talvez estranhe A noite da espera. O livro narra a história do jovem Martin, no período em que este vive em Brasília, no final dos anos 60 e início dos anos 70. É um romance de formação, que narra a desesperança de uma geração.

27 – O coração é um caçador solitário – Carson McCullers, Companhia das Letras. A história se passa no final dos anos 1930, em uma cidade do interior dos Estados Unidos, e capta os efeitos da Grande Depressão. O que mais me surpreendeu foi saber que a escritora norte-americana tinha apenas 23 anos quando publicou este seu primeiro livro. O personagem mais enigmático é o mudo John Singer, um homem solitário e sereno, visto como um santo pela comunidade.

28 – Entre facas, algodão. João Almino, Record. Sem dúvida, o melhor romance de João Almino, autor do premiado Cidade Livre. Mas, desta vez, a história não se passa totalmente em Brasília, como as obras anteriores. O personagem principal, morador de Taguatinga, decide voltar à cidade de origem, no Nordeste, para tentar vingar o pai, assassinado quando ele ainda era criança.

29 – As três Marias. Rachel de Queiroz, José Olympio. Em nova edição da José Olympio, o clássico de Rachel de Queiroz reaparece em bela edição. A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de "as três Marias".

30 – Última Hora. José Almeida Júnior, Record. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, o livro narra a história do jornal Última Hora e de seu dono, Samuel Wainer, pela ótica de um jornalista sem escrúpulos que trabalha na redação. Mostra as últimas semanas de vida de Getúlio Vargas e da crise política que o levou ao suicídio.

31 – Eu perguntei pro velho se ele queria morrer. José Rezende Jr., 7 Letras. Mineiro radicado em Brasília, Rezende Jr. venceu o Prêmio Jabuti na categoria contos com este livro formidável. Cada conto é uma mininovela, pelos personagens ricos e as situações inesperadas.

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

© 2015 por Bruna Rocha. Orgulhosamente criado com Wix.com