Palavras verdadeiras

No dia seguinte à partida de Ariano Suassuna para o céu dos artistas e destemidos defensores da cultura popular, algumas frases do escritor apareceram nos jornais, blogs e redes sociais. De uma me lembro bem, aquela em que ele dizia algo como: “não troco meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém”.

Alguém poderia lembrar que não são termos sinônimos, que o okay inglês, tanto usado por essas bandas há décadas, significa certo, pronto, correto, aprovado etc., enquanto oxente é uma interjeição de espanto, como se o sujeito dissesse: o que isso rapaz! Tá me estranhando? Ou algo assim, pois o termo é muito rico, e os nordestinos o sabem bem.

Mas Ariano não queria trocar uma coisa pela outra, acho eu, e sim mostrar que temos tantas e tão bonitas palavras em nossa língua, que não precisamos recorrer ao idioma alheio, quanto mais em coisa tão boba quanto isso. Que se diga futebol em vez de ludopédio, acho que todo mundo concorda, e que abajur é muito mais simples e elegante do que luminária de mesa, também faz sentido. Mas o diabo do ok é coisa muito pequena e sem graça para deixar quieto.

Sem contar que temos outras palavras mais bonitas e que têm o mesmo sentido, dependendo da hora e do lugar. Vejam a palavra beleza, por exemplo. Originalmente, era um substantivo que significava qualidade do que é belo. Seu uso popular lhe deu novo sentido. O que era “tudo bem”, virou “tudo beleza”, quase como uma resposta feminina ao primeiro, e daí foi se reduzindo ao simples “beleza”, e hoje, nos escritos das teclas de computadores e afins, virou apenas “blz”. E blz pode ser usado para um monte de coisas, inclusive no sentido de certo, correto, aprovado. Dissemos beleza, mas muitos escrevem apenas blz. Olha aí o nosso ok!

Ariano Suassuna sabia o que estava provocando. A língua é patrimônio vivo de um povo. Deixar de usá-la, ou trocar palavras dela pelo de outro idioma por simples modismo ou preguiça, é jogar fora o tesouro mais valioso que uma cultura pode ter. E se alguém lhe perguntar: tudo ok? Não seja indelicado, nem banque o chato, mas responda na mesma moeda: Yes, tudo beleza! Acho que Ariano Suassuna aprovaria a provocação.

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