Jean-Claude Bernardet em tempo de festival de cinema

O Festival de Cinema de Brasília chega a sua 50ª edição. E já que falamos em números redondos, um dos personagens mais complexos do cinema brasileiro faz 80 anos. Falo de Jean-Claude Bernardet, nascido na Bélgica e criado na França até os 13 anos, quando veio com a família para cá fugindo da guerra. Bernardet faz parte daquele time de imigrantes que ajudou a pensar o Brasil no século vinte: os austríacos Otto Maria Carpeux e Roberto Schwarz, os italianos Ruggero Jacobi e Lina Bo Bardi, o ucraniano Boris Schnaiderman, entre outros.

Como lembra Mateus Araújo, autor de um dos artigos do livro Bernardet 80: impacto e influência no Cinema Brasileiro, que será lançado esta semana durante o Festival de Cinema de Brasília, Jean-Claude, além de ser roteirista, cineasta, ator e professor, escreveu vários livros e publicou mais de 700 artigos sobre cinema. Uma obra monumental, que ainda não foi totalmente digerida pelos leitores brasileiros e ainda não alcançou o espaço desejado em traduções, como lembra em outro artigo do livro a pesquisadora Lúcia Nagib, professora da Universidade de Reading.

Li pouco de Bernardet. Mas o que li, foi impactante. Desde seu O que é Cinema?, da coleção Primeiros Passos, ao seu já clássico Brasil em tempo de cinema, Bernardet é um vulcão de ideias e percepções. Mais do que informar e formar, pelo menos nesses dois livros ele faz o que acho fundamental em qualquer pensador: levar o leitor a desconfiar das próprias ideias e das ideias do autor. Seria isso o pensamento dialético perfeito?

Mas o livro organizado por Ivonete Pinto e Orlando Margarido, e lançado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) em parceria com a Paco Editorial, mostra várias faces do autor-ator. Quando se acaba de ler o livro Bernardet 80, temos a impressão de que não é por falta de massa crítica que o cinema brasileiro não alcançou o espaço que merece na filmografia mundial.

Em 60 anos dedicados ao cinema (seu primeiro artigo foi publicado em 1957) Jean-Claude é daqueles pensadores que, além de ajudar a criar modelos teóricos que permitem pensar sobre e a partir da realidade, é também do tipo que está sempre disposto a desafinar o coro dos contentes.

Há poucos anos, saiu em defesa da globochanchada De pernas para o ar 2, que levou mais de 12 milhões de pessoas para as salas de cinema. Lembrou que os filmes de Oscarito e Grande Otelo, os reis da chanchada, só foram considerados bons muitas décadas depois. Criticou também a estética da fome, ao dizer que o cinema nacional se preocupa muito com os pobres e se esquece de mostrar nossas elites.

No artigo em que analisa a produção de Bernardet publicada na imprensa, o crítico de cinema Luiz Zanin Oricchio afirma que a presença da reflexão de Jean-Claude “tem sido fundamental para movimentar a incipiente cultura brasileira nestes últimos 50 anos”. E como movimentou! Nos anos 60 e 70 teve embates inesquecíveis com Glauber Rocha, com quem tinha uma relação de amor e ódio.

Mas como lembra Orlando Margarido no capítulo “Pela boa briga”, Bernardet sempre foi um crítico e teórico a favor da provocação elegante e construtiva. Em tempos de embates irracionais e grosseiros na internet, fica a dica: leiam as críticas de Jean-Claude Bernardet.

Serviço:

Bernardet 80: Impacto e Influência no Cinema Brasileiro

228 páginas

Ivonete Pinto e Orlando Margarido (organizadores)

Abraccine e Paco Editorial

Lançamento: 21 de setembro (quinta-feira) – às 19h, no Centro de Convivência do Cine Brasília (106/107 Sul)

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