O grau zero da literatura brasiliense


Depois do recém-publicado Brasília, Gravidade Zero, de André Cunha, lançado pela Selo Jovem, 2016, não dá mais para dizer que não existe literatura brasiliense. Ela existe, sim. Ela existe e está aqui ao alcance das minhas mãos.

Tem gente que escreve livro como se estivesse escrevendo redação de escola. O fraseado é simples, bem-comportado, sem nada de ousado. Você não encontrará ali erros de digitação. Mas também não encontrará vida. A impressão que dá é que, uma vez concluída a obra, o autor ou a autora pôde sussurrar para si mesmo ou para si mesma: “Ufa, tarefa cumprida”. Sim, há livros assim: escritos como tarefa, lidos como tarefa.

O Gravidade Zero é tudo menos uma tarefa. É um livro voraz. É um livro que prende pelo conteúdo e fascina pela forma. Ele realmente estabelece um novo parâmetro de literatura, um novo padrão de leitura. Em certo sentido, André Cunha complicou a vida dos escritores e das escritoras de Brasília. Agora já não é mais tão fácil escrever como era antes. Agora é preciso realmente fazer algo que vá além, muito além, dos livros escritos como se fossem redações escolares em grande escala.

O Gravidade Zero leva o leitor ou a leitora como a correnteza de um rio furioso. O livro não dá trégua. Lê-lo é como andar de montanha-russa: quando você pensa que a narrativa já chegou ao ápice, e que provavelmente entrará num momento em que será possível respirar, a montanha-russa de repente faz um loop que faz todo mundo sair voando em todas as direções.

Mas André Cunha não se perde exibindo a sua habilidade, o seu domínio da escrita, como acontece com frequência na literatura de vanguarda. Não há absolutamente nada de pedante no livro, não há nada de desnecessariamente rebuscado. Pelo contrário, há um perfeito equilíbrio entre conteúdo e forma. A sofisticação estilística do livro pode passar completamente desapercebida pelo simples fato de que a leitura é leve e fluida. O que há de mais sofisticado do que ser sofisticado sem que essa sofisticação salte aos olhos dos leitores e das leitoras?

O Gravidade Zero é o primeiro livro sobre o qual escrevo. Nunca fiz isso antes. Mas dessa vez, foi necessário. André Cunha precisa ser lido, discutido, comentado. Não há mais como falar em literatura em Brasília sem mencionar o seu nome, assim como não há como falar de poesia em Brasília sem mencionar Nicolas Behr e de música brasileira sem mencionar Villa-Lobos. O Gravidade Zero não é apenas um livro genial, sem manobras vãs, sem nada de artificial. Ele é também um prenúncio do que está por vir. Com aparência de que foi escrito de uma só sentada, tamanha a sua coesão interna, tamanha a sua consistência, o Gravidade Zero pode ser tomado como o marco zero da escrita. Agora não há mais dúvida. Definitivamente, existe literatura em Brasília.

Como é que surgiu essa ideia de fazer referências a comerciais e informes publicitários?

André Cunha: É comum na literatura contemporânea citações de filmes, músicas e referências de todo tipo, mas eu nunca tinha visto um romance que incorporasse slogans na narrativa, então tive essa sacada, que acho que foi inédita. Teve uma influência meio inconsciente, que foi a série Mad Men, talvez você conheça. Tem dois temas parecidos: a queda (literal e metafórica) e a publicidade. A própria abertura da série mostra um cara despencando entre cartazes e logotipos. A história da série não tem nada a ver com a história do livro, mas tem esse paralelo. Aí fiz umas pesquisas, peguei uns livros antigos, naveguei no youtube vendo velharias e digitei “slogans famosos” no Google. Descobri que publicidade pode ser um puta assunto interessante, que envolve concisão, persuasão, criatividade e outros aspectos discursivos.

Um dos recursos estilísticos que ficou muito interessante no livro foi o uso de marcas de bebidas quase como sinais de pontuação. Elas aparecem muitas vezes não como o foco da ação, mas como um intervalo, como um respiro, como um elo entre uma ação e outra. Você pode falar um pouco dessa característica do livro?

André Cunha: Pois é, no livro os personagens enchem a cara e chamam as bebidas pelos apelidos: white horse é cavalinho. Teachers, professor. Jonny Walker, andador. E por aí vai. Eles também falam com ares de intimidade sobre discos, filmes, livros e outros produtos. No começo pode parecer estranho, mas o leitor saca – ou assim espero – essa lógica interna depois de alguns capítulos, entende a forma como os personagens se comunicam. Por exemplo, o livro tem diálogos, mas não tem aspas os travessões, são diálogos misturados, misturados na narrativa.

O livro é quase um tratado antropológico sobre Brasília. Há não apenas referências como também análises longas e detalhadas de alguns dos seus tipos fundamentais, como o profissional terceirizado e o funcionário público. Fazer um retrato de Brasília foi um dos objetivos do Gravidade Zero?

André Cunha: Gostaria de dizer que não, que o livro trata de temas universais e poderia ser lido sem qualquer prejuízo cognitivo por um neozelandês ou um iugoslavo, mas admito que sim, há uma pegada bairrista, de falar sobre o lugar onde moro. O próprio nome do livro me parece pedante: “Brasília, GRAVIDADE ZERO”, título com vírgula, com caixa alta, com essa referencia obscena à cidade no próprio título. Pensei em outros títulos. Mas, por motivos mesquinhos, meramente comerciais, tasquei o “Brasília” pra mostrar que é sim um livro que fala sobre a cidade, já que existem tão poucos. Já li trocentos livros passados no Rio, em São Paulo, em Porto Alegre, mas pouquíssimos em Brasília. Se o livro tiver um bom desempenho, se for lido, comentado, esculachado, talvez, no futuro, quando alguém

pesquisar “literatura Brasília” no Google pode aparecer o meu nome porque botei o “Brasília” no título do livro. Sim, foi uma estratégia sórdida. Penso em Brasília, em muitos sentidos, como uma terra de faroeste a ser desbravada. Ainda teremos os nossos grandes escritores e cineastas A cidade é jovem. A nossa geração ainda vai chegar lá. Coisas grandes vão acontecer.

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