Biblioteca de Babel


Marcelo Torres - 12/05/2021



Biblioteca do Monastério de Admont, Áustria



Ouve-se Jorge Luis Borges: Eu sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca. Julien Green concorda: Uma biblioteca é a encruzilhada de todos os sonhos da humanidade. Cícero chega e diz: Se você tem um jardim e uma biblioteca, tem tudo o que precisa. O bispo Bossuet: De fato, é nelas [bibliotecas] que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e origem de todas as outras. Surge Susan Sontag: Minha biblioteca é um arquivo de anseios. Ralph Waldo Emerson emenda: A biblioteca de um homem é uma espécie de harém.

De Emerson para Emil Cioran: Nos primeiros anos de minha juventude, só me seduziam as bibliotecas e os bordéis. A voz agora é de Virginia Woolf: Saqueie as bibliotecas públicas e encontrará centenas de tesouros escondidos. Luis Fernando Verissimo dá o ar da graça: Dedico-me aos clássicos: Sófocles, Virgílio, Shakespeare e ao picolé de coco. Outro gaúcho, o poeta Quintana, garante: Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.


Ariano Suassuna pigarreia e fala: Quem gosta de ler não morre só. Paulo Freire pede a palavra: É preciso que a leitura seja um ato de amor. Clarice Lispector fala a última frase de sua felicidade clandestina: Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. Entra Ziraldo, falando ao menino maluquinho: Livro é o melhor brinquedo. Rubem Alves completa: Livro é um brinquedo feito com letras.

O Padre Antônio Vieira sobe numa cadeira para um pequeno sermão: O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. Ouve-se Mia Couto ali no canto: O que um escritor nos dá não são livros. O que ele nos dá, por via da escrita, é um mundo. Ao lado, Monteiro Lobato fala com Castro Alves: Nós precisamos entupir este país com uma chuva de livros.

Antes, o poeta baiano já havia dito e bendito: “O livro caindo na alma é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar”. E já que se falou em mar, Emily Dickinson comenta: Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. E não só pelos mares, como lembra Francis de Croisset: A leitura é a viagem dos que não podem pegar o trem.

Saramago, que escreveu muito sobre viagens, vai na mesma linha: A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em um lugar. Seu compatriota Fernando Pessoa complementa: Ler é sonhar pela mão de outrem. Outro português, Lobo Antunes, lembra das tripas do leitor: Se um escritor não agarra o leitor pelas tripas logo nas primeiras páginas, está feito ao bife. Gabriel García Márquez, cem anos num sorrisão: É mais fácil pegar um coelho que um leitor.

Agora é a voz de Amós Oz, que prefere a tartaruga ao coelho: Meu leitor ideal lê em pequenos e lentos goles. Aí vem Paul Verlaine: Agora, livro meu, vai, vai para onde o acaso te leve. Kafka, claro, apareceu: Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós. Kafka passa a bola para Khalil Gibran: Um livro é como uma janela.

Agora entra na prosa Andrew Lang: Uma casa cheia de livros é um jardim cheio de flores. Outro que aparece é Samuel Johnson, que revela: Um homem revira metade de uma biblioteca para fazer apenas um livro. Lá atrás, a conversa muda para releituras, com Nelson Rodrigues falando: Deve-se ler pouco e reler muito. Machado de Assis concorda: Livros relidos são livros eternos. Oscar Wilde, quem diria, concorda com Nelson Rodrigues: Se alguém não tiver prazer em ler um livro várias e várias vezes, não há motivos para lê-lo, afinal.

Borges, como se fosse o anfitrião, tenta encerrar o encontro parafraseando um famoso filósofo: Nunca se lê duas vezes o mesmo livro. Mas estava faltando o cético Anatole France, que de fato é quem fecha o colóquio: Nunca empreste livros, pois ninguém os devolve — ele fala, antes de fazer aquela confissão que não será surpresa para ninguém: Os únicos livros que tenho em minha biblioteca são aqueles que outras pessoas me emprestaram.

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