Sobre Ana Lídia e outras tragédias em 11 de setembro


Zélia Leal Adghirni - 27/08/21



Descobri tarde o romance de Roberto Seabra sobre a morte da menina Ana Lídia, em circunstâncias atrozes, naquele longínquo ano de 1973, em Brasília. Tarde porque nessa época eu morava no exterior e o que parecia ser um “fait divers” não interessava a imprensa francesa. Mas não tarde demais para que agora, em agosto de 2021, possa apreciar a obra do autor, como uma investigação jornalística sobre um fato verídico com nuances de uma excitante narrativa do gênero policial.


A primeira frase que me chamou a atenção na apresentação de Rosângela Vieira Rocha (escritora que admiro intensamente) é a coincidência de datas de uma tragédia: 11 de setembro de 1973, mesmo dia do golpe no Chile que derrubou o presidente Salvador Allende. Outra coincidência: 11 de setembro de 2001, data do ataque às torres Gêmeas em Nova York.


Datas que por diferentes motivos, mostram o lado mais obscuro da maldade humana. Seria mais uma prova da banalidade do mal da qual nos fala Hannah Arendt?


Estava em Casablanca, Marrocos, tomando chá de menta na calçada de um café com um amigo quando me chegou às mãos o jornal Le Matin, anunciando, em quatro colunas, o ataque ao palácio presidencial de La Moneda. Choramos juntos sobre aquela violência que abortou um sonho caro à América Latina.


Estava na colina da UnB, em Brasília, quando a televisão interrompeu a transmissão de rotina para expor na tela as torres do World Trade Center em chamas. O horror era real, não era mais um filme de ficção americano. Acho que o mundo ainda não superou o choque, tamanho foi o impacto sobre o reconhecimento da capacidade do homem em praticar o mal.


Mas onde eu estava em 11 de setembro de 1973 quando mataram a menina Ana Lídia?


A morte criminosa e cruel de uma criança vale menos que a morte de um presidente, do que a vida de três mil pessoas mortas no atentado?


Seabra dá a resposta. Silêncio na Cidade. O crime foi abafado. Nas palavras de João Almino, que assina a orelha do livro, para se proteger, a ditadura militar protegia criminosos, filhos de personagens de altos escalões do regime. Isso lembra alguma coisa? Ou seria mera coincidência?


Ao recontar a tragédia da menina Ana Lídia, por meio de um narrador ficcional, Seabra pratica o direito humano de cultivar a memória. Não se apaga um fato como se ele nunca tivesse acontecido, porque outros fatos virão para confirmar a existência do mal. E o mal só pode ser combatido pelo bem. O bem da verdade, da crítica, da punição. Os assassinos de Ana Lídia nunca foram punidos. Nem foram identificados para a sociedade embora, nos bastidores do poder, tivessem nome, sobrenome e endereço conhecidos. Roberto Seabra/Tino Torres é um excelente contador de história. São quase 300 páginas em 38 capítulos, lidas com avidez, sem perder a concentração. Difícil gênero o romance, difícil a narrativa longa mas o autor dá conta do texto do começo ao fim. Talvez pela trajetória de jornalista que sabe ir direto ao ponto, na escolha das palavras e na produção de sentidos. Uma agradável descoberta. Já conhecia o jornalista. Descobri agora o escritor. E quero mais livros.


Para concluir, uma ansiedade me assombra. Setembro está chegando...


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Silêncio na cidade (romance), de Roberto Seabra

Editora Camará - Brasília

283 páginas

Preço: R$ 40,00

Onde encontrar: em versão eletrônica no site da Amazon ou em versão física

pelo WhatsApp (61) 9970 8574. Ou ainda no site da editora Thesaurus.

Em Brasília ele também pode ser encontrado na Banca da Conceição (SQS 308).

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