Os Quartetos Tardios e Outras Histórias


Por Zélia Leal Adghirni* - 01/03/2021


Em seu primeiro livro de contos e crônicas, uma seleção de 22 textos esculpidos com rigor a partir de suas memórias afetivas ou imaginárias, Mauro Lando se revela um escritor talentoso, sem firulas, para atingir o essencial.


Érico Veríssimo definia-se como um contador de histórias e narrou uma das maiores sagas da história da literatura brasileira em sua consagrada obra o Tempo e o Vento.


Em "Os Quartetos Tardios e outras Histórias", Mauro Lando se apresenta como um excelente contador de histórias que fisga o leitor desde a primeira narrativa que define o título da obra até a última (Oitenta) em que um homem, velho e quase cego, decide morrer.


São contos sobre episódios da vida apresentadas por um narrador que ora assume a primeira pessoa do singular, ora coloca-se como observador anônimo na terceira pessoa, para resgatar lembranças de fatos reais ou imaginados de uma longa vida de andanças. As histórias se embaralham mas o leitor distingue as crônicas de um passado longínquo ou recente dos contos ficcionais ( ou quase).


Os personagens se movem em diferentes espaços e tempos com suas respectivas fragilidades transitando em inusitados caminhos experimentais da existência. Geografia e história se confundem nas ruas de Paris, numa cidadezinha do interior da Inglaterra, num ônibus na periferia de Salvador, numa estrada no interior de Minas, na solidão do planalto central, no aeroporto de Guarulhos ou ainda apenas nos corações apertados das pessoas que se amam e que se perdem.


Se os temas são diversos a essência da escrita é coerente naquilo que determina o fio das narrativas em busca do sentido dos acontecimentos, dos fatos mais banais do cotidiano ( recolher o lixo, alimentar o passarinho, pegar o metrô ) até a crítica da desigualdade social ( mortos de fome, de tiro, de roda que salta de um caminhão, de câncer diagnosticado tardiamente) e dos choques culturais ( a enfermeira apaixonada que larga o namorado no Canadá e volta com saudades do Brasil).


Entre a diversidade e a riqueza dos textos elaborados com rigor, destaco alguns que me tocaram mais profundamente. Claro, tudo depende da subjetividade do leitor que faz seu próprio recorte.


Em "Os Quartetos Tardios", desperta curiosidade a relação inusitada entre dois personagens amantes da música clássica.

Young man, você aprecia os quartetos de Beethoven?


Com esta pergunta, o autor abre as portas da elegante residência de um excêntrico melômano inglês para um jovem cineasta brasileiro que está tentando montar seu primeiro filme. O homem desafia seu inquilino a alongar as pausas dos clássicos quartetos do compositor alemão em troca do aluguel do quarto.


Como não se emocionar com A Fera, texto impecável, onde o autor descreve o sofrimento de um pai que embala o filho doente com asma? Anos depois, esse menino, agora pai, sente a mesma angústia diante do filho enfermo.


Difícil não torcer pelo simpático traficante inglês, na crônica GRU-HTW 11:45 P, que tenta embarcar para Londres com seus instrumentos musicais recheados de droga mas um incidente de última hora obriga-o a mudar de planos.


E o que dizer da delicadeza da narrativa no O gato que sabia as horas sobre a solidão de duas crianças em um bairro judaico de São Paulo?


"O pior de envelhecer, Bucca, não é a brochura, nem a pobreza, é a perda dos amigos que se vão", diz o homem amargo que se despede do amigo.


Em uma avalanche de recordações de uma juventude intensa e incerta, ele percorre filigranas do passado que se faz presente na hora da despedida.


"Escrevo para ninguém, escrevo para uma recordação, trazida de volta à vida na releitura de nossos 157 e-mails".


Adeus Bucca, na minha avaliação, talvez seja o melhor dos contos pela capacidade do narrador em transmitir a indizível dor da finitude humana.


Arno e Jerry são nomes que o autor evoca para construir uma comparação de um filme de Louis Malle (Lacombe Lucien, 1974) ) onde um jovem caipira francês se transforma em colaborador nazista durante a ocupação alemã. Uma hipótese sugerindo que em situações extremas, o ser humano é capaz de tombar no lado alheio, ou seja, o lado pior. Então aquele amigo de infância maltratado e humilhado pelo pai, vem a ser depois de adulto, um informante da polícia política da ditatura militar no Brasil.


No ônibus de Itapoã, um jovem estudante de música, recebe, no ônibus que o leva à praia, a visita de si mesmo, cinquenta anos depois, para lhe revelar que seu verdadeiro talento são as línguas. E fará disso uma profissão que vai exercer com prazer pelo resto de sua vida.


Em O nada e seus entornos, um homem mergulha na solidão seca do planalto central enquanto aguarda, no estacionamento, uma condução que o levará de volta ao plano piloto:


"Naquele tempo não havia celular nem internet, não havia mensagens a passar nem a responder, nem telefone a tocar, nada iria acontecer nas próximas duas horas ou mais, além daqueles estalidos, as cigarras, o ar seco, parado, a luz intensa de fim de tarde no Planalto Central, o azulão do céu – e silêncio. E, hóspede daquele silêncio, lá estava ele, repentinamente suspenso no tempo, rodeado por aquele nada".

Mauro Lando encerra seu livro com uma narrativa devastadora de um homem angustiado diante da perspectiva de ficar cego por causa de uma doença degenerativa. Oitenta, um dos textos mais longos, segue o fluxo de lembranças (uma das características do autor) de um personagem inteligente e lúcido, engajado nas grandes causas da humanidade, agora recolhido e solitário num sítio bucólico, que decide apertar o gatilho do revólver que guarda na gaveta, contra o próprio coração. Escreve e lacra uma carta para os filhos. Mas a vida, sempre triunfante, aponta uma saída inesperada.




*Zélia Leal Adghirni é jornalista e professora emérita da Universidade de Brasília (UnB)


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