O povo do lado de lá


Rosalva Nunes - 30/08/21


Não sei quando, exatamente, comecei a ouvir relatos sobre o povo que tinha ido para o lado de lá, como diziam na família. Talvez a partir da morte de uma tia, minha madrinha. Meus avós, com quem ela morava, passaram a escutar as louças balançando à noite, tilintavam os copos, chocavam-se os pratos e as compoteiras onde estavam os cobiçados doces de figo, de pêssego, de abóbora, de laranja que ela fizera. “São caminhões, caminhões que passam na rua e balançam tudo”, decretava meu pai em seu arraigado ceticismo. Minha mãe só escutava.


Alguns anos depois, minha mãe escutava a própria irmã. “ Ela me chama da janela do quarto”, dizia. A mãe sobreviveu 16 anos a essa tia, e morreu da mesma doença, mas já não a ouvia, e se ouvia não contava. Uma de minhas irmãs jura que, às cinco da manhã, viu a mãe parada ao lado de sua cama. Exatamente nessa hora, ela morria sozinha em um hospital a poucos quilômetros de casa.




Uns dois anos após a mãe ter ido embora, o pai recebeu um telefonema de um conhecido, espírita praticante, para passar um recado da mãe. “Olha, ela me pediu em uma sessão que você olhasse o carro de sua filha mais velha”. A filha em questão era eu, que não dedicava um minuto de cuidado ao meu primeiro carro, um fusca azul que, na minha cabeça, precisava apenas de gasolina pra funcionar. Era um fusca folclórico, cheio de histórias. Um namorado apelidou-o de Fagner, porque até pegar no tranco passava uns cinco minutos gemendo e se engasgando.

O pai nunca ia desprezar uma mensagem da mãe, não importava o canal por onde viesse. Levou Fagner ao mecânico, ele ficou por lá uns dias até o diagnóstico: “ainda bem que o senhor trouxe. Esse fusca corria o risco de explodir no meio da rua”. A partir daí, o pai tomou para si a tarefa de cuidar do carro, olhar pneus, levar às revisões, até o fusca ser passado adiante.


Um dia, meu pai começou a assistir palestras espíritas. Ele dizia “se existe uma explicação para a morte, a espírita é a melhor. Tem até colônias, a vida continua em outro plano, a gente trabalha, é tudo muito bonitinho. Mas acreditar, não sei se acredito…


Outra tia também muito bem relacionada com o povo do lado de lá contava tranquilamente que de vez em quando via meu pai depois que ele fez sua travessia. “Sabe aquela poltrona do lado da minha cama”? Teu pai estava sentado ali essa noite. “E ele falou alguma coisa, tia?” E ela, da maneira mais trivial, “não, só ficou me olhando”.


Há tempos não sonho com meu pai, mas em todos as vezes que o vi recebi algum recado. Num dos sonhos ele estava na fazenda onde passávamos feriados, em Cambará do Sul. Havia uma mesa grande de madeira onde ele e os amigos, todos já mortos, comiam churrasco de ovelha ( meus sonhos têm cheiro), bebiam cana com mel e butiá e riam, riam muito. Eu me aproximei feliz e ele veio brabo (ah, como eu tinha medo daquela cara na minha infância!). Disse “sai daqui”, e eu “mas pai…”, e ele deu por encerrada a conversa “aqui não é o teu lugar”.


E não era. Eu entendi.


Todos sempre riram de mim por não gostar de ficar sozinha no escuro por medo dos mortos, não dos vivos. Até hoje, há sempre uma luz acesa em casa (e minhas idas à cozinha nas madrugadas ficaram mais frequentes na pandemia). Porque uma das coisas que aprendi com minha família foi a acreditar nos recados do além. De um jeito ou de outro, que eles vêm, eles vêm.

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