O último tango no Cine Drive-In

Roberto Seabra - 12/06/2021


A história aconteceu entre o final dos anos 1970 e o início de 1980, quando este escriba saía da adolescência e entrava sem muito entusiasmo no mundo dos adultos. Ser jovem é melhor do que ser velho, com isso todo mundo concorda. Mas ser adolescente em Brasília naqueles tempos era algo delicioso.


Ao contrário do que disse certo ditador, o País ia mal, mas nós, humildes rapazes de classe média na flor da idade, íamos muito bem, apesar dos pesares.


Alguns anos antes, a cidade havia inaugurado um Cine Drive-In, localizado dentro do Autódromo Internacional de Brasília. Era raro irmos lá, pois nenhum dos meus amigos tinha carro ou dirigia e os nossos pais não podiam se dar ao luxo de lotar o carro e pagar entradas e lanches para um reca de filhos. O local, então, era mais usado por casais de namorados, que aproveitavam o escurinho para trocar carícias e, às vezes, ver o que passava na super tela do Drive-In.


Certo dia, não sei qual dos nossos descobriu que havia uma forma de ver filmes de graça no Cine Drive-In. E o melhor: sem censura. O convite era irrecusável. Iríamos de bicicleta até certo descampado, de lá passávamos por um buraco na cerca e, em poucos segundos, estávamos em uma colina de onde era possível ver os filmes proibidos sem pagar nada e naquele telão gigantesco.


Cinema mudo, claro, pois não era possível ouvir os que as atrizes e os atores conversavam. Se apurássemos os ouvidos, era possível ao longe ouvir o rastro da trilha musical. Quando o filme era estrangeiro, a coisa melhorava, pois podíamos ler as legendas e entender mais ou menos a história.


A festa acabou quando o dono do cinema descobriu a traquinagem e colocou um guardinha para vigiar a cerca por onde passávamos. Ficamos indignados. Afinal, a nossa presença ali não iria diminuir em nada a arrecadação da bilheteria. Pelo contrário. O Cine Drive-In, sem saber, estava formando plateias de futuros cinéfilos. Ou quase isso.


Algumas semanas se passaram, deixamos de praticar a cinefilia a distância, até que um dia um amigo que amava o cinema (ou as atrizes) mais do que os demais, disse que o local estava livre novamente. Talvez o dono do Drive-In tenha feito as contas e descoberto que saía mais barato deixar o lugar sem vigilância.


Me lembro que o filme em cartaz era uma película erótica, proibida para menores de 21 anos! Sim, houve um tempo em que havia essa classificação. E esses eram os mais desejados. Ver um filme indicado para adultos, e ainda por cima maiores de 21 anos, era o máximo.



Imagem aérea do Cine Drive-In (divulgação)


Passava o hoje clássico e polêmico O último tango em Paris, dirigido pelo italiano Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando e Maria Schneider nos papéis principais. Lançado na Europa em 1972, o filme só foi liberado pela censura no Brasil em 1979, o que aumentou ainda mais o interesse em vê-lo. Milhares de adultos correram para as salas de cinema para ver a obra, enquanto nós adolescentes tentávamos imaginar o que teria de tão proibido em um simples filme.


Ao final da temporada, quando O último tango em Paris saiu do circuito das salas fechadas e migrou para o Cine Drive-In, ficamos eufóricos com a possibilidade de ver as cenas proibidas com Brando e Schneider. E foi justamente naquela semana que soubemos da novidade de que o nosso cinema a distância estava novamente liberado.


Dois dos nossos amigos resolveram ir naquela mesma noite em que a notícia chegou, um dia de semana, pois não queriam esperar a sexta-feira, quando tradicionalmente juntávamos uma dezena ou mais de ciclistas para aquelas incursões noturnas.


Mas como a nossa curiosidade era maior do que o sono, e mesmo sabendo que tínhamos que acordar cedo no dia seguinte para ir à aula, ficamos embaixo do bloco esperando que aqueles dois voltassem logo após o fim da fita e nos contassem em detalhes o que viram, para aumentar ainda mais o desejo pelo proibido.


E eles voltaram, mas sem as bicicletas e cabisbaixos. Haviam sido assaltados, os ladrões fugiram com as bicicletas, pedalando, e eles tiveram que voltar caminhando, e sem clima para ver o resto filme, que mal havia começado quando foram surpreendidos pelos bandidos.


Preocupados com o que ocorreu, os pais dos dois adolescentes acionaram a polícia, que não apenas não conseguiu recuperar as bicicletas roubadas, mas, para a nossa tristeza, passou a frequentar a nossa colina para evitar novos assaltos. A presença constante de um fusca da Polícia Militar naquele local fechou para sempre o nosso Cine Drive-In a distância.


E eu só conseguiria ver O último tango em Paris uma década depois, no videocassete, e confesso que não gostei. O filme me provocou um mal-estar, no mau sentido da expressão, que eu nunca soube explicar.


Anos depois, fiquei sabendo que a atriz Maria Schneider, que tinha 19 anos quando interpretou a personagem, acusou Brando e Bertolucci de ter sofrido estupro durante as filmagens. O próprio diretor, depois, reconheceu que a atriz havia dito a verdade.


Essa história terrível turvou as lembranças que eu carrego do cinema. Uma arte incrível, certamente a grande arte do século XX, mas que é feita, também, por artistas inescrupulosos, que talvez no auge da fama tenham imaginado que “forçar a barra” com uma atriz jovem, para dar mais autenticidade à cena, seria algo perdoável, em nome da arte. Não é. A arte que precisa de atitudes violentas ou preconceituosas para ser transgressora, não é arte. Talvez seja mero entretenimento. Ou nem isso.

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