Covídicas lipídicas

Mauro Lando - 01/04/2021



Ilustração de @landodesign.ch



Ando lembrando daqueles filmes ingleses em branco e preto feitos durante a guerra. Não filmes de guerra, filmes de histórias comuns. De vez em quando ao se falar de planos, alguém dizia “for the duration...”. Não se completava com a palavra “war”, era subentendido. Vivia-se em suspense. Ninguém sabia quanto a guerra ia durar e, o pior, ninguém sabia quem iria vencer.


Aquela sensação de incerteza, de ter a vida pendurada no tempo, de não se poder fazer planos refletida naqueles filmes, me vem à mente ao pensar no que a humanidade – toda ela – vive neste momento. Exceto por algumas mentes mais clarividentes*, ninguém poderia supor que nossa civilização, tão orgulhosa de por o homem na Lua, de ter supercomputadores que sabem até no que estamos pensando, poderia ser posta de joelhos por um vírus. Nossas certezas se esfacelaram. A morte pode estar em qualquer lugar, num transporte coletivo que temos que tomar, numa festa pirata frequentada pelo filho do vizinho, num restaurante uma pessoa sem máscara numa mesa perto da nossa.


O câncer é diferente. O câncer tem suas curvas de probabilidades. Exceto pelos mais raros, todo mundo sabe que é uma roleta russa, mas onde há bem mais do que cinco câmaras vazias para uma com bala. Exceto por muito azar, até certa idade você sabe que suas probabilidades são baixas. Se você é mulher, faz mamografia, se é homem, não fume, coma fibras, faz dosagem de antígeno psa, e você vai escorregando pelas frestas do caranguejo. E se pegar ainda tem cirurgia, radioterapia, quimioterapia, o escambau.


Com esse vírus a coisa é bem mais séria. É o aleatório, o imprevisível que nos arrasa. Não há regras. Aquele senhor de 90 anos pegou e se safou. O rapaz de 20 anos filho da amiga sofreu um mês na UTI e não resistiu. Aquele médico simpático que conhecíamos, foi-se a família inteira, ele, a mulher, os filhos, só ficaram os netos. O mendigo da esquina sem máscara, firme na cachaça, as balas resvalam e não pegam.


De volta aos filmes ingleses.


Em janeiro de 1943, com a derrota em Stalingrado, a Wehrmacht começa a recuar. Nos dois anos e três meses que se seguiram até a capitulação da Alemanha mais alguns milhões de homens, mulheres e crianças viriam a morrer, mas se sabia que o fim estava se não próximo, pelo menos à vista. Havia a esperança.


O equivalente a Stalingrado em nossos dias foi a descoberta das vacinas. Desenvolver uma vacina na história da medicina sempre foi coisa de vários anos. O dr. Salk levou dois anos e meio de trabalho intenso para desenvolver a primeira vacina contra pólio. Com a Covid, nunca se havia desenvolvido vacinas em tão pouco tempo. Isso se deve em grande parte ao fato que, desde o início, todos os centros de pesquisa no mundo inteiro se puseram de acordo de partilhar toda informação que tivessem e o próprio governo chinês imediatamente mandou para todo o mundo um arquivo com o sequenciamento genético do vírus. Agora os cientistas estão tentando ir mais depressa do que as mutações numa corrida desigual onde, como disse um epidemiologista americano, as mutações do vírus vão num carro de Formula 1, e as vacinas numa carroça.


Agora vivemos nosso “for the duration...”. Enquanto durar a pandemia, não se faz planos. Não tem escola, não tem campeonato, não tem Olimpíada, não tem Carnaval, não tem viagem para o exterior, não tem festa, quem perdeu o emprego não acha outro, quem brigou com a namorada não pode ir a discoteca, quem brigou com a mulher não pode ir pro boteco encher a cara com amigos. Todo mundo fala que agora é o “novo normal” mas todos sentem falta do antigo normal, que todos sabemos, não volta mais.


*Para não deixar sem concluir aquela frase lá em cima sobre os poucos clarividentes, quem quiser veja este vídeo de um Ted Talk de Bill Gates, de 2015 (!!!): “The next outbreak? We’re not ready”

Veja também: “Contágio” de David Quammen, do original “Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic” livro de 2012 que cantou a pedra há 9 anos. Este vosso escriba foi um dos tradutores.

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