As redes sociais e a colonização do pensamento e do corpo

Roberto Seabra - 06/07/21




Você estava pensando em retomar a leitura daquele livro, mas aí o zap tinha 125 mensagens, foi só dar uma olhada e... esqueceu.


Caiu na bobeira de abrir o face sem causa aparente, mas havia tantas postagens novas, e algumas até legais, que desistiu de fazer aquela caminhada planejada desde ontem.


O amigo que quase nunca manda nada enviou um link pelo insta, você entrou lá e, quando viu, o tempo havia passado e aquele filme ficou para depois.


Sei que é difícil lembrar como era a vida antes da redes sociais, mas uma coisa é certa: ela era mais sua. Você tinha mais poder de decisão sobre o que iria fazer ou deixar de fazer, sobre o que iria ler, ou ver, ou deixar de ler ou ver.


Em menos de uma década, nossas vidas – corpos e mentes – foram colonizadas por infinitas decisões que estão além da nossa vontade. Você não acordou hoje pensando em ler uma reportagem sobre o dia mais quente do século na terra do Papai Noel, mas aí um amigo postou no grupo, você achou o título interessante e, como diriam os franceses, voilà!, você foi fisgado.

Sei que pode parecer chorumela, afinal, eu não sou obrigado a frequentar as redes sociais e, se entrei nelas é porque, de alguma forma, me beneficio dessa espécie de revista Caras eletrônica, acessível aos não famosos.


É verdade. Mas a questão aqui é outra.


As demais tecnologias da informação e da comunicação que vieram antes das redes sociais, de alguma forma traziam benefícios e também promoviam estragos. Basta pensar no telefone celular (não o smartphone, mas o velho e bom celular usado apenas para falar e ouvir).


Me lembro que anos antes de eu ter o meu primeiro aparelho móvel, ali pelo início dos anos 1990, vi um celular que ficava acoplado em um carro oficial do órgão público no qual eu trabalhava. E me lembro que o meu colega que o utilizava vaticinou: “Essa porcaria vai acabar com a nossa privacidade”.


Ele lamentava que a secretária do governador, ao qual ele era subordinado, o encontrava onde estivesse, graças ao celular do carro, o que não acontecia antes.


Mas, de certa fora, você ainda tinha um mínimo de poder de decisão sobre a sua vida. E, vamos combinar, o celular é hoje uma ferramenta indispensável para a sobrevivência. Urbana ou rural. Claro que é possível viver sem ele, mas com ele é muito mais fácil.


E aproveitando o gancho, eu pergunto: quais benefícios as redes sociais trouxeram para a sua vida? Digo benefícios mesmo, não vale dizer genericamente que ela “aproximou as pessoas” ou algo do tipo. Toda tecnologia nos traz alguma facilidade para o dia a dia. O correio permitiu que o ser humano se correspondesse com pessoas localizadas em outras cidades ou países; o telefone inaugurou o diálogo a distância; o rádio trouxe para dentro da sua casa o noticiário e o universo musical; etc.


Mas ainda tento entender que benefícios as redes sociais trouxeram para as nossa vidas. Claro que elas são uma mão na roda (que expressão antiga, meu Deus!), quando você quer divulgar o seu produto, ou espalhar aos quatro ventos (outra expressão fora de moda) o quanto a sua vida é bacana e como você tem ideias legais. Mas isso nos torna melhores ou a nossa vida mais confortável?


Às vezes acho que as redes sociais são como o refrigerante ou o cigarro. Não trazem nada de bom para o nosso corpo ou a nossa mente, mas as pessoas gostam deles. E as redes sociais viciam também, tal como o açúcar e a nicotina. Ou seja, vieram pra ficar.

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