A filha do silêncio

Marcelo Torres - 22/03/2021




O senhor C chegou à repartição — na verdade uma pequena sala — passou pelo senhor L — “Bom dia”, saudou baixinho o que chegava, e o outro falou um “dia” que também quase não se ouve — sim, todo dia era desse jeito, e assim eles atravessaram os dias, os anos, uma década na mesma repartição — na verdade uma sala pequena num prédio-palácio de ministério, quando a capital ainda era o Rio.

Não, eles não eram desafetos, não concorriam a um mesmo cargo comissionado no governo nem disputavam o amor de uma mesma mulher. E não se tinha notícia de que houvesse qualquer escaramuça entre os dois. Ao contrário, até falavam bem um do outro — e sempre na ausência — mas fosse para este puxar prosa com aquele, aí não havia jeito, não eram eles homens lá de muita conversa.

Podemos vê-los trocando as saudações funcionais, automáticas, de todo dia. Além do “bom dia”, diziam, claro, “boa tarde” e “até amanhã”. E de ano em ano “boas férias” e “obrigado”. Um era chefe, não tinha hora pra chegar; o outro, chefiado, batia ponto. Porém, ao contrário de outras relações hierárquicas que há por aí, nunca um pensou em matar o outro — ou, se pensaram, jamais confessaram isso.

Como autores que eram, cultuavam a palavra escrita. Era natural, então, que usassem bilhetes. “Para conhecimento”. “Favor ler e assinar”. “Faz um relatório?”. “Arquive-se”. E também falavam pelo corpo. Quando caceteado, um colocava o cotovelo no braço da cadeira e puxava os fios do bigode. Já o outro ficava coçando a ponta da orelha ou rasgando papéis. Enfim: gestos curtos, contidos, contados.

Contavam já, os dois, com seus cinquenta e cinco anos, eram cidadãos respeitados e admirados, quase unanimidades, mas notoriamente introvertidos, amigos do silêncio e da reserva, muito prezavam o recato e a discrição. Aliás, eles só exibiam sentimento — o mundo só arrancava alguma coisa de dentro daquelas duas criaturas — através da arte, e cada um era aplaudido em sua arte.

Falemos um pouco sobre o senhor L, que era o quinto filho de dona Ana, amazonense, e de seu Joaquim, baiano, engenheiro naval, almirante. Não era brasileiro de nascença — veio ao mundo em Toulon, na França, quando a família andava em terras europeias, onde o pai trabalhava na renovação da esquadra brasileira.

Agora morava no Rio, no Leblon, onde era arquiteto, urbanista, professor, escrevia artigos e livros, fazia projetos. Era talvez o mais recluso dos homens, sempre fechado em silêncios, avesso aos fogos, ao espetáculo, desprendido das coisas, parecia até que odiava a fama que lhe havia caído sobre os ombros.

Já o senhor C era um dos catorze filhos de dona Julieta e seu Carlos — este, um rico fazendeiro, tenente, político. Nasceu em Minas e foi morrer no Rio, onde adorava andar pelas pedras portuguesas do calçadão da praia. Era poeta, contista, cronista, tinha coluna em jornal. “Tive ouro, tive gado, tive fazenda — hoje sou funcionário público”, disse num poema.

Em outro poema, inédito, ele disse: “Somos todos funcionários. Assina o ponto da vida, poesia; depois, recolhe o justo salário, o prêmio de não varar a capoeira na direção do mistério, de esquecer o jeito nosso de pegar onça no chumbo e soletrar sem temor os caminhos d’água do São Francisco e Rio Doce. Acabou-se, eis que só há um caminho: repartição”.

E se só havia um caminho, e este não era outro senão o da repartição, ali estavam eles, dois funcionários públicos, trabalhando há anos e anos no mesmo órgão, o setor do patrimônio, na mesma sala, no mesmo silêncio. E agora o senhor C chegava à sua pequena ilha de trabalho e via que uns papeis já o esperavam com um bilhete: “Dá uma olhada”.

Na outra mesa, o colega tinha os olhos deitados sobre papéis, como se nada ocorresse ao seu redor. O senhor C então folheou por alto as páginas. Viu que a primeira parte era um manuscrito, rascunho de possível projeto — e pelas gambiarras trêmulas fora feito às pressas. A outra parte eram figuras, desenhos — uma planta cheia de riscos sem régua.

Voltou ao início para ler, saber do que se tratava. E começou a ter uma espécie de epifania. “Tive entre os dedos o pulsar de uma vida”, revelaria anos depois o senhor C, que era Carlos, o poeta Carlos Drummond de Andrade. “Tenho duas mãos e o sentimento do mundo”. Agora ele tinha em mãos, em primeira mão, na manhã daquela quinta-feira, 7 de março de 1957, numa saleta do Palácio Capanema, no Rio de Janeiro, simplesmente a cidade de Brasília.

Era o rascunho manuscrito do projeto urbanístico para a construção da nova capital do país. “Era um rabisco e pulsava", disse Drummond depois sobre aquele dia. No rabisco vivo que pulsava ele viu duas asas abertas, mas não era um pássaro, não era um avião, como explicava o criador, o senhor L, que vinha a ser o urbanista Lucio Costa.

Brasília, escreveu o arquiteto, “nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz”. E assim nascia a nova capital federal, segundo o poeta, uma cidade diferente de todas as outras, as reais e as imaginárias, as visíveis e as invisíveis.

Agora Drummond voltava os olhos para o pai da criança. E lá estava o doutor Lucio sossegado, quase uma sombra, uma penumbra, se anonimando em sua mesa de trabalho. No fundo, eram dois gigantes se escondendo, se ocultando — um, o arquiteto, atrás do grande bigode de arame; o outro, o poeta, atrás dos aros dos óculos. Ambos comovidos, e calados, cada qual em sua ilha, cada um respeitando o outro “como se respeita o silêncio das igrejas”.



Crédito da foto: Imagem de Cristiano Mascaro, feita em 1989. Pilotis do Prédio do Ministério da Educação - Atual Palácio Capanema, Rio de Janeiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021.

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