A Casa do Vô e a Rua da Vó

Roberto Seabra - 13/10/21


Meu avô paterno, João Roberto Pereira, mineiro de Manhumirim, nasceu em 1899 e morreu em 1997. Viveu as duas guerras mundiais, praticamente toda a República Velha, a Revolução de 1930, a Era Vargas, a chegada de JK à Presidência - a quem ele chamava de “o maior presidente que o Brasil já teve” - a construção de Brasília, o golpe militar de 1964, a chegada do homem à lua, o tetracampeonato de futebol e, para ele o mais importante, o nascimento de onze filhos e filhas e de dezenas de netos e bisnetos. Minha avó, Isaura Martins Pereira, nasceu em 1901 e morreu em 1971. Viu muito, mas não tanto quanto o marido.


Dele tenho muitas lembranças, pois viajava para visitá-lo todos os anos, principalmente em sua última década de vida. Prometi, e cumpri, que se tivesse um filho colocaria o nome dele. É que por uma dessas trapalhadas de cartório, um de seus filhos chama-se João Pereira Filho, portanto sem o Roberto. Virou Janjola, um apelido tão marcante que substituiu nome e sobrenome.


Meu avô tinha uma característica física que nunca o diminuiu, pelo contrário. Perdeu uma perna aos nove anos e passou a usar uma prótese de madeira, que não o impediu de fazer o que queria. Me contava com orgulho o dia em que conquistou a minha avó, ultrapassando todos os concorrentes mais “bem apessoados”.

Com o tempo, o João Roberto Pereira virou avô João, depois vô da Perna de Pau, e depois apenas vô de Pau. Os bisnetos quando começavam a falar já aprendiam a alcunha, que na cabeça deles se misturava às lendas do Pirata da Perna de Pau. Mas meu avô nunca singrou os mares, apenas os sertões de Minas Gerais, onde foi tropeiro.


Depois que a dona Isaura morreu, meu avô ficou arrasado. Segundo contava o meu pai, Manoel Esperidião Pereira, seu João imaginava o pior, até mesmo que seria abandonado pelos filhos e filhas, pois sabia do carinho que todos tinham por ela, que era mãe e avó amorosa. Mas aconteceu o contrário. A família passou a ir mais a Manhumirim, até para ajudá-lo na criação dos netos Márcio, Gilberto, Rita, Lúcia, Fátima e João Antônio, que moravam com ele, algo muito comum no interior. É que o meu tio Joaquim, o Quinquita, ficou viúvo muito jovem e os avós ajudaram na criação dos seis netos.


De dona Isaura tenho ralas lembranças. A última vez que a vi eu tinha entre seis e sete anos e ela fazia o tratamento contra o câncer no Rio de Janeiro. Dela me lembro da voz doce e dos grandes olhos azuis, herdados da família alemã por parte de mãe.


Quando passei a frequentar com mais frequência a casa dos meus avós em Manhumirim, nos anos 1980, dona Isaura já tinha partido, então o lugar ficou sendo a Casa do Vô de Pau. Rua Batalha Neto, número 55. A minha tia Neném, que morou com o pai até ele morrer e ainda é viva, era a “mulher da casa”, mas que sempre foi “a Casa do Vô”.



Rua de Manhumirim, cidade de Minas


Dias desses, voltei a lembrar deles porque recebi de um primo uma foto anunciando que uma das ruas de Manhumirim recebeu o nome da minha avó. Qual não foi a minha surpresa. Minha humilde vó, dona de casa e mãe exemplar, que criou onze filhos e ajudou a criar vários netos, virou nome de rua!


Em geral, o homem é da rua e a mulher é da casa, por esse modelo patriarcal que infelizmente ainda sobrevive no Brasil. E quando descobri que na minha família a coisa se inverteu, fiquei numa felicidade tremenda. Pesquisando um pouco mais, meu primo Aladim Pinel descobriu que a homenagem à dona Isaura foi por sugestão do prefeito da época, o Nico Franco, que vinha a ser primo da Tereza Franco, casada com um dos filhos do casal Isaura e João, o meu tio Adão. Justa homenagem, pois a vó Isaura foi uma das pioneiras de Manhumirim e era muito querida por todos, na família e na cidade.


Ainda assim, a situação toda me parece digna de nota, ou desta mal traçada crônica. Durante anos frequentamos a Casa do Vô de Pau sem saber que a cidade tem uma rua que homenageia a Vó Isaura.


Entre os grupos virtuais da família, já ficou combinado que quando a pandemia passar e o Brasil viver dias melhores, iremos todos a Manhumirim para nos encontrarmos na Rua Isaura Martins Pereira e fazermos uma homenagem póstuma à matriarca dessa imensa família. Se a Casa do Vô uniu nossas vidas por décadas, quem sabe a partir de agora a Rua da Vó fará a família se reencontrar? Espero que sim.



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