A carne é forte


Mauro Lando - 16/11/21


O metano é um poderoso gás de efeito estufa com um potencial de aquecimento global 28-34 vezes maior do que o CO2 ao longo de 100 anos. Medido ao longo de um período de 20 anos, essa proporção cresce para 84-86 vezes. Cerca de 60% das emissões globais de metano são devidas às atividades humanas.


De onde vem o metano: em parte de poços de petróleo abandonados nos EUA. As companhias petroleiras são obrigadas por lei a reterem uma verba especial para decomissioning, ou seja, o fim da operação de um poço. Porém, muy expiertas, quando um poço não rende mais e deve ser abandonado, elas declaram falência daquela subsidiária. Há mesmo um executivo de petróleo aposentado, arrependido, que montou uma fundação para tampar milhões de poços abandonados nos Estados Unidos que continuam emitindo metano.


Mas, apesar de tanto metano ser liberado na atmosfera, os poços abandonados não são as maiores fontes do total de metano. Veja no gráfico abaixo:




Tradução: Fermentação entérica 27%, Óleo e Gás 24%, agricultura (gestão do estrume) 3%, lixo urbano sólido 11%, cultivo do arroz 7%, e águas servidas.7%


Toda a indústria de petróleo e gás é responsável por 24% das emissões de metano. Mas quem ganha essa parada, com 27%, é a fermentação entérica do gado. Ao contrário do que muitos pensam, 95% do metano emitido pelos animais ocorre na forma de arrotos, causados pela fermentação entérica nos ruminantes. A isto, se soma o metano exalado pelo estrume.


A estas alturas, você, leitor, como eu, deve estar se perguntando: alguém falou disso na COP 26? De metano, sim, muito. De carne? Necas. Só falam de projetos faraônicos de bilhões de dólares, de indenizar camponeses, de dar mais bilhões à indústria automotiva, tadinha, tão pobrezinha, para converterem as fábricas de carros com motor a explosão em carros elétricos etc, etc.



Só o que não se fala nas discussões oficiais é: parar de comer carne. O ciclo da carne para consumo humano é o maior fator individual do aquecimento global, se formos fatorar o desmatamento – legal e ilegal – que a cada ano libera milhares de km2 de terra para o plantio da soja. Mas quem precisa de tanta soja? Os restaurantes naturebas? Não, amigo, a soja passa aqui no Brasil por um processo: primeiro por prensagem para se extrair seu óleo de cozinha. A parte sólida resultante da prensagem, chamada torta, é então moída e exportada sobretudo para a Europa, onde, misturada com palha, vai constituir o componente proteico da forragem, o alimento do gado no inverno.

Este autor já repetiu várias vezes, para públicos europeus estarrecidos: “cada fatia de queijo produzido na Europa, contém alguns metros quadrados de Amazônia devastada”.


Alguém falou disso em Glasgow? Sim, sem duvida, finalmente acordaram, criaram um lema: “Global Methane Pledge” – o Compromisso Global do Metano, fundaram mesmo um movimento, “The Methane Moment” – seu plano de ação contou com cientistas de prestígio, planos de tampar os poços abandonados, soluções mirabolantes de mexer com o processo enzimático dos ruminantes, coleta do metano do estrume para usar como gás de aquecimento... mas desencorajar o consumo de carne, como se faz há décadas com o cigarro? Necas.


Finalmente, falta a COP 26 dar o nome aos bois, literalmente. Ao contrário do chavão “a carne é fraca”, quando se trata do lobby da carne, este é forte, amigo.


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