Por um jornalismo baseado em fatos para combater as fake news


As fake news voltaram a atacar com força total durante a pandemia de coronavírus. E não são poucas as pessoas que acreditam nelas e as repassam adiante. O resultado é que muita pseudo-ciência acaba virando verdade. Ou então, na seara da política, o que talvez seja mais grave, notícias inventadas são repassadas como oficiais, ou as oficiais são retiradas do ar, criando um verdadeiro caos informativo na sociedade.

O tema das notícias falsas não é novo, mas as redes sociais o elevaram a um nível preocupante. A estudiosa espanhola Mar de Fontcuberta Balaguer, autora de “A notícia: pistas para compreender o mundo”, já alertava no final dos anos 1990 para o perigo do “não-acontecimento jornalístico”.

Em um tempo em que a Internet ainda estava engatinhando, a pesquisadora apontava para a nova realidade de que a imprensa começava a abrir espaço, perigosamente, para assuntos sem qualquer relação com os fatos:

“Considero que a produção de notícias baseadas no não-acontecimento, uma clara tendência no jornalismo actual, significa, em parte, minar as bases sobre as quais tradicionalmente se edificou o discurso jornalístico: a realidade, a veracidade e a actualidade” (Editorial Notícias, Portugal, 1999).

Mar de Fontcuberta enumera em seu livro três tipos de notícias baseadas em “não-acontecimentos”:

1) A notícia inventada, ou seja, baseada em uma mentira; 2) A notícia falsa, que é publicada com insuficiência de informações ou informação incorreta; e 3) A notícia especulativa, que traz informações baseadas em mera especulação, sem qualquer comprovação.

Para ela, a tendência para informar não-acontecimentos estava se tornando “uma prática perigosa para os meios de comunicação, pondo mesmo em causa a essência do jornalismo e minando as marcas identificadoras da sua existência e das suas funções específicas”.

Passados mais de vinte anos do alerta feito pela pesquisadora, vemos que nos últimos anos as notícias baseadas em não-acontecimentos viraram uma verdadeira praga no Brasil.

É comum, entre nós jornalistas que trabalhamos na chamada mídia pública (emissoras públicas e ou agências oficiais de notícias), ficarmos com “a mão coçando” para publicar algum assunto que chega até os nossos veículos, mas sem qualquer fato ou declaração oficial que o comprove. “Vamos aguardar”, é o mantra repetido nessas redações. E, na maioria dos casos, o “furo” mostra-se apenas uma especulação, quando não uma grande “barriga”, termo do jargão jornalístico usado para notícias inverídicas.

Sei que na chamada imprensa privada o jogo é mais pesado e a competição é acirrada. Mas ainda assim o mantra “vamos aguardar” deveria nortear o trabalho de todos os jornalistas. Em um mundo dominado pela comunicação instantânea, publicar depois e de forma correta pode ser mais proveitoso do que dar uma notícia (inventada, falsa ou especulativa) a qualquer custo.

Acredito que a imprensa brasileira vem fazendo um belo e corajoso trabalho na cobertura sobre a pandemia do Covid-19. Mesmo assim, ainda circulam fake news, em especial pelo WhatsApp, uma ferramenta valiosíssima que, no entanto, virou uma espécie de espaço público para o vale-tudo.

Fico imaginando se a imprensa tivesse abdicado do seu poder de informar bem ou, se vivêssemos em remotos tempos sombrios, fosse proibida de divulgar dados sobre a pandemia que assola o Brasil e o mundo. Seria, sem trocadilho, um pandemônio.

De mãos dadas com a ciência, o jornalismo pode aproveitar a terrível realidade do coronavírus no Brasil – onde as fake news e a atuação irresponsável do governo central se uniram para colocar a sociedade em alerta – e dar um passo adiante. Recuperar a credibilidade perdida nos últimos anos e mostrar que, em um mundo cada vez mais complexo e assolado por perigos ambientais e políticos, ter uma imprensa livre e compromissada com a verdade dos fatos pode fazer a diferença entre viver ou morrer.

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