Chico Buarque acerta ao fazer um romance sem saída, como o país


Tenho escrito cada vez menos resenhas porque, apesar do fim de muitos cadernos literários, de uns anos para cá surgiram dezenas de blogs e páginas na internet dedicados a lançamentos literários. Prefiro então ler o que existe em boa quantidade na rede. Só escrevo quando li algo que gostei e não vejo maior repercussão.

Não é o caso do último livro de Chico Buarque, “Essa gente” (Companhia das Letras), que apenas por ser dele já recebe de antemão um generoso espaço na imprensa especializada.

Escrevo sobre ele, portanto, pelo simples ímpeto de expor o que, para mim, é quase uma obrigação. O sexto romance do Chico é muito bom, apesar de estranho, ou talvez por isso mesmo.

Como escreveu o Arthur Nestrovski, diretor Artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, “quando chegarem os escafandristas, quando o Rio for uma cidade submersa e o Brasil tiver acabado de vez, só vão precisar deste livro para entender o que aconteceu”.

O que me assustou ao ler o novo livro de Chico Buarque foi enxergar nele quase todos os temas e questões da atualidade, condensados em uma narrativa inventiva, em momento algum panfletária ou mesmo política, no sentido estrito do termo.

Nesse novo romance, Chico não é lírico, muito menos poético. O "essa gente" do título pode se referir tanto ao "nós", quanto ao "eles", ou ainda aos "isentões", numa clara alegoria do Brasil dividido. Ou ainda "essa gente" pode se referir às personagens da obra musical do compositor, que aparecem ou se escondem durante a narrativa.

“Essa gente” é aparentemente um livro despretensioso em suas duzentas páginas. Remete ao já batido tema do escritor em crise em busca de um romance; quase todas as personagens são borradas ou indefinidas; mas o autor consegue reunir em torno do microcosmo do bairro carioca do Leblon, onde se passa a maior parte da história, todas as nossas agruras cotidianas e crises de identidade.

O livro conta a história do escritor Manuel Duarte, em busca de dinheiro para conseguir pagar as contas e retomar um romance inacabado, pelo qual já recebeu um adiantamento. A partir desse núcleo a história de desenvolve em vários sentidos, lançando mão de diversas linguagens. Nada muito complexo, mas, repito, inventivo.

Na história Duarte volta a se aproximar da ex-mulher, Maria Clara, com quem teve um filho. No passado ela foi a revisora de seus livros e, ao que tudo indica, coautora, capaz de completar os pensamentos imperfeitos do autor-marido.

O contraponto a Maria Clara, uma mulher abertamente de esquerda, é Rosane, com quem Duarte viveu após o fim do casamento com Maria Clara. Liberal nos costumes e conservadora politicamente, Rosane é o retrato de um Brasil que atrai e repugna Duarte.

E aparece ainda na história o salva-vidas Agenor, que salvou Duarte de um afogamento. Com ele vive a holandesa Rebekka, que vira personagem do romance que Duarte se esforça para continuar. Ele negro, morador do morro; ela branca e ao mesmo tempo deslumbrada e assustada com o que vê no Brasil. Os dois criam uma dupla que desnorteia Duarte e leva sua vida para um rumo incerto.

Me parece, na mera condição de leitor e não de crítico literário, que Chico Buarque encontrou uma fórmula mágica para dizer o não dito. Para explicar o inexplicável. Para resumir o caos urbano do Rio e a desordem política do Brasil em um romance não muito longo e nem muito profundo. Ou talvez seja por isso que o livro chega onde quer chegar.

Em um dos trechos mais simbólicos do livro, a personagem Rosane, que é arquiteta de interiores, traz para o apartamento onde mora com Duarte uma escultura, na verdade uma estátua dourada de um homem. A escultura recebe uma faixa verde-amarela no torso e passa a decorar o lugar. A cena, nonsense, se passa em 2019 (todos os capítulos recebem uma data), portanto poucos meses antes do lançamento do novo livro de Chico e em plena era bolsonarista. Em um dos trechos do livro, Manuel Duarte descreve cinicamente o que sente por Rosane e, ao mesmo tempo, faz um resumo do Brasil de hoje:

"Quando a Rosane me sorri, suas maçãs do rosto parecem postiças como maçãs de verdade. Ela terá feito preenchimento facial ou posto botox, mas não me importo. Ela pode me receber maquiada demais, com anéis e pulseiras de ouro, pode ter uma estátua dourada na sala, não me importo. Pode falar as maiores sandices, se calhar pode jurar por Deus que a Terra é plana, dane-se. Na Rosane que hoje me leva para a cama numa lingerie de seda, ainda vejo a que um dia surgiu do mar, o biquíni branco na pele morena. É claro que aquela imagem tende a esmaecer na minha memória, mas isso não é um problema. Nem é de hoje que percebo como as lembranças dela vão migrando para a minha imaginação, às vezes até com vantagem. Se pudesse, eu teria possuído a Rosane no primeiro relance, no instante em que a vi sair das águas. Ainda assim, a Rosane que eu então possuísse não se igualaria àquela que, ao mesmo tempo, eu imaginaria possuir. Por esta mulher que dorme, abandonei surdamente uma família estável e um romance inacabado. Trouxe uma valise de roupas e um laptop em branco, a mesma bagagem que três anos mais tarde levaria comigo. Passei por este apartamento como um gato, a me esgueirar entre os objetos da dona. Sua prancheta, suas tintas, seus papéis vegetais e cartolinas, suas cerâmicas, suas luminárias de chão, seu jarro de Murano, sua mesa de laca com livros de arte, tudo ali para mim foi sempre impessoal. Se hoje me desse na veneta roubar alguma coisa, eu não teria o que escolher. Posso no máximo abrir uma garrafa de Black Label, que acabo de ver no aparador ao lado de um balde com gelo derretido. Encho o balde no congelador e me sirvo do uísque, que a Rosane não teve tempo de me oferecer. Circulo pela sala balançando o copo, me olho no espelho rococó, acho meu rosto interessante, mordisco uns morangos na cozinha, vou ao banheiro, entro no quarto da criança que não tivemos, entulhado de caixotes vazios, canudos de arquiteto vazios, molduras sem quadros, porta-retratos sem fotos. Volto ao quarto dela, que caiu num sono pesado como o da Maria Clara, sem recurso a sedativos senão os favores deste seu gentil-homem. Na mesa de cabeceira há um estojo de marfim com um maço de euros, talvez milhares de euros que me arranjariam a vida mas que rechaço como ninharias. Antes de partir, viro mais um copo de uísque, que encho de novo para levar de saideira. Dou um último lance de olhos no salão, e a estátua dourada me aborrece. Agarro-a pelo pescoço e com um golpe de judô consigo derrubá-la, mas só dois homens fortes a recolocarão de pé. Aos passantes com quem cruzo de volta para casa, ergo brindes com o copo na mesma mão direita que outro dia empunhou um revólver. O copo de uísque parece provocar indignação."

A cena é simbólica porque o mesmo Duarte, semanas antes, havia passado pelo mesmo local empunhando uma arma, e a cena recebera aplausos dos vizinhos e passantes.

Não se usam canhões para matar baratas, nem se deve querer uma obra prima quando do outro lado temos um amontoado de lugares comuns e pessoas em conflito à espera de um romance que as explique. A boa literatura é como uma pessoa de sorte: está na hora certa e no lugar certo.

“Essa gente” talvez seja o melhor romance de Chico e a melhor coisa da literatura brasileira escrita nos últimos anos. Digo talvez, pois o presente é incerto e tudo tem se desmanchado rapidamente no ar, inclusive a arte.

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