Leituras para salvar 2019*


Quando a realidade nos parece incerta e sufocante, a arte assume um espaço maior em nossas vidas. Músicas, livros, filmes, peças, exposições...tudo isso ganha uma dimensão maior e mais importante. É uma questão de saúde mental. Anne Frank escreveu seu diário para suportar o esconderijo-cativeiro, também incerto e sufocante, que os nazistas lhe impuseram.

Vendo em retrospectiva o que li em 2019, por conta dos meus compromissos profissionais ou simples interesse de leitor, noto que a lista de livros cresceu em relação ao ano anterior. Não apenas do ponto de vista quantitativo. Cresceu em importância. A leitura feita este ano foi conduzida por um desejo permanente de encontrar saídas. Tudo o que li foi para tentar explicar aquela realidade incerta e sufocante. Ainda que não tenha conseguido explicações para tudo, tais leituras me ajudaram a suportar o sanatório geral que virou o Brasil, para usar uma expressão genial de Chico Buarque, aliás um dos autores lidos este ano.

Não fiz um plano de leitura. Muitas delas foram acontecendo e outras foram surgindo em razão dos compromissos assumidos junto ao programa Casa das Palavras, da TV Câmara; a coluna de livros na revista eletrônica Feijoada Completa, da Rádio Câmara; este blog Leitores sem Fim, que mantenho há alguns anos; além de um grupo de estudos sobre Literatura e Ditadura, do curso de Letras da Universidade de Brasília.

Os livros lidos nesse período, no entanto, guardam uma incrível relação. Compõem um mosaico de cores variadas, como deve ser um mosaico, mas formam uma unidade de leitura. Acompanham, de certa forma, o sobe e desce das emoções e infortúnios dos 365 dias do ano mais sem noção dos últimos tempos.

Comecei 2019 finalizando um livro de crônicas do Milton Hatoum (Um solitário à espreita), que saboreei durante quase três meses, ou seja, lendo nos intervalos entre outras leituras. Notei que Hatoum faz da crônica um exercício para outros gêneros literários. Alguns textos são quase-ensaios, outros são ótimas ideias para contos. O cronista Milton Hatoum é o romancista em repouso. Livro bom para o mês de janeiro, com poucas preocupações e em estado de férias.

Marx e o amor

Mas, nem bem janeiro terminou, decidi entrar em uma leitura mais longa e trabalhosa.

Li o monumental “Amor e Capital”, da norte-americana Mary Gabriel. Livro de fôlego (cerca de 900 páginas e uma pesquisa que durou anos), que faz um retrato diferente da família de Karl Marx, baseado nas cartas trocadas entre as mulheres da família. Ao esmiuçar as relações afetivas dos Marx, a escritora faz um belo passeio pelas ideias do autor de O Capital. O livro me ajudou a compreender melhor a impressionante luta de Karl Marx e de sua esposa, Jenny von Westphalen, para vencer os problemas familiares e financeiros e não deixar parar o projeto intelectual do filósofo alemão.

Em seguida, li o livro de memórias do Zé Dirceu (volume 1), escrito quando ele estava preso. Biografia informativa, com excelente análise política de quem viveu as vitórias e as crises do PT, mas sem qualquer apelo literário. O livro vai da infância de Zé Dirceu em Passo Quatro (MG), e da sua entrada na política, até a sua cassação na Câmara dos Deputados, em 1º de dezembro de 2005. Leitura importante para quem quer entender a política brasileira a partir do final dos anos 1960, quando Zé Dirceu começou a militar no movimento estudantil.

Ler sobre a história dos Marx e de Zé Dirceu, apesar das distâncias entre as duas, me ajudou a entender por que é tão difícil, para a esquerda de um modo geral, chegar ao poder e se manter lá. Como me lembrou certa vez um amigo: a direita (seja ela que nome tiver), sempre governou o mundo. A esquerda é apenas um hiato histórico, em qualquer tempo e lugar.

Cabo Verde e Macunaíma

Depois de leituras mais duras, voltei para a literatura, meu porto natural. Gostei ter conhecido o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, autor do romance “O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo”. Ele escreve com um sotaque surpreendente e me fez lembrar que a língua portuguesa não é uma só, mas várias. Livro que se lê em uma sentada, pela história interessantíssima e pelo sabor do texto de Germano Almeida.

Em fevereiro interrompi as leituras programadas e fui ler uma edição nova que a Editora da Câmara lançou de “Macunaíma”, de Mário de Andrade. Devo ter lido às pressas e por obrigação o livro quando era estudante secundarista. A leitura de agora me permitiu conhecer melhor a proposta literária de Mário de Andrade. Macunaíma é um livro chave para entender o Brasil (de ontem e de hoje). Mas também mostra certa ideologia paulista da primeira metade do século 20, que teve na literatura um suporte fundamental, e que tenta mostrar o brasileiro como mau caráter de berço. Claro que a obra é riquíssima e tem muitas outras camadas de leitura, mas ao final não pude deixar de fazer um paralelo entre a proposta literária de Mário de Andrade e a visão que a elite cultural de São Paulo tinha (tem), do nosso povo.

Mais um intervalo para a leveza. Após Macunaíma, li “A duras penas”, da saudosa Edna Rezende. Livro de histórias sobre pássaros, contadas de forma leve, às vezes quase infantil, mas sempre com o rigor da escrita de quem domina a arte da narrativa. Ao falar só dos bichos de penas, Edna fala muito de nós, bichos humanos.

Por conta de um projeto literário no qual estou envolvido, e sem prazo para acabar, li em seguida a obra “De Nova Lisboa a Brasília – a invenção de uma capital (séculos XIX e XX)”, de Laurent Vidal. O livro ajuda a ter uma visão histórica sobre a construção de Brasília. E traz inúmeras informações importantes e dados precisos sobre o sonho de mudança da capital, desde o século retrasado.

Benedetti e Llosa

“Primavera num espelho partido”, de Mario Benedetti, minha leitura seguinte, é um livro belíssimo, que narra um período de trevas do Uruguai. Mostra a trajetória de uma família separada pela prisão política, e que consegue resistir à ditadura. Benedetti ficou exilado por 12 anos e sofreu por essa separação forçada do seu país. Seu livro mistura vozes, inclusive a dele, e consegue construir um romance delicado.

Pulando de um romance político para outro, li “A festa do Bode”, de Mario Vargas Llosa, por indicação de um primo. Narrativa escrita em forma de tríptico, Vargas Llosa mantém a tensão o tempo todo, mesmo com assunto tão árido. O livro conta de forma detalhada, com toques de surrealismo, a história da República Dominicana durante 31 anos de ditadura. O personagem principal é Rafael Leônidas Trujillo, que mandou no país entre 1930 e 1961. Livro imprescindível para entender a política latino-americana.

O livro “Aos 7 e aos 40”, de João Anzanello Carrascoza, é um misto de biografia e narrativa de auto ficção. Ao narrar, Carrascoza encontrou a própria voz e isso é tudo na escrita. Quero ler tudo (ou quase tudo, pois soube que ele já lançou dezenas de livros) o que ele escreveu. Depois de dois romances políticos, o livro dele foi um descanso concentrado. Uma amiga escreveu uma vez que Carrascoza escreve como uma mulher. Uma boa definição.

Literatura e feminismo

“Feminismo para os 99% - um manifesto”, de Cinzia Arruza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, foi leitura impactante. Elas dizem e comprovam o que sempre desconfiei: qualquer movimento social, identitário etc. tem que ter como meta por ao chão o capitalismo. Se não for o feminismo dos 99% que sofrem nas mãos do 1% mais rico, não pode ter esse nome. Não pode ser o feminismo das mulheres da elite, por mais que elas também sofram e continuem sofrendo discriminação, enquanto mulheres, digo. O que sustenta o machismo, assim como o elitismo, o racismo e outros ismos, é o grande capital. É contra ele que é preciso lutar, enquanto se luta também pela liberdade de expressão, pela igualdade de direitos etc.

Finalmente conheci a obra de Toni Morrison, escritora norte-americana negra, prêmio Nobel de Literatura. Seu livro “O olho mais azul” trata do racismo sem autopiedade e apresentando uma realidade muitas vezes fantástica. Umas das melhores leituras que fiz nos últimos anos.

E por falar em escritora negra, outra lacuna preenchida em 2019 foi Carolina Maria de Jesus. Por que demorei tanto para ler “Quarto de despejo – diário de uma favelada”? Em pleno anos 1960, ela inaugura uma voz nova na literatura brasileira, que iria influenciar muitas outras escritoras, e escritores, em especial os nascidos em favelas ou na periferia. A nova edição da Editora Ática lançada em 2018 é belíssima, com ilustrações de Vinicius Rossignol Felipe.

Depois de três leituras femininas que me impressionaram, volto ao tema do romance histórico, que tanto me agrada ler. E dessa vez é a biografia de “O Tiradentes”, de Lucas Figueiredo. Narrativa densa e fruto de uma pesquisa impressionante. Ao final, a leitura do livro deixa aquela impressão de que continuamos, 250 anos depois do alferes Joaquim José da Silva Xavier, sendo surrupiados por algum Império: Português, Inglês, Francês, Norte-Americano....Chinês?

Fiz em 2019 a minha primeira leitura de Adolfo Bioy Casares. Li “O sonho dos heróis”, um livro cheio de ambiguidades, como disse o escritor espanhol Javier Cercas no encarte que acompanha o livro do escritor argentino. O sotaque portenho do romance, que se passa no Carnaval de 1927, em uma Buenos Aires repleta de malandros e bebuns, é uma atração à parte. Casares ajudou a inaugurar, em meados do século 20, uma nova literatura latino-americana, e “O Sonho dos heróis” é uma obra fundamental para quem quiser começar a conhecer esse autor genial.

Li em seguida “A velocidade da luz”, de Javier Cercas, o escritor espanhol citado logo acima. Além de ser uma narrativa surpreendente, o autor faz ótimas divagações sobre o fazer literário. Um livro para ser relido e estudado. Trata-se de uma autoficção, apesar de Cercas não gostar do termo. “A velocidade da luz” narra a história de um jovem pesquisador espanhol que, ao ser convidado para lecionar em uma universidade no interior dos Estados Unidos, descobre um universo novo que irá mudar para sempre sua vida.

Outra leitura que marcou 2019 foi o novo livro de Rosângela Vieira Rocha: “Nenhum espelho reflete seu rosto”. Nele, uma personagem que é dona de uma joalheria e também design de joias, ao falar do seu ofício, narra também sua história de envolvimento e desencanto amoroso. Ao juntar as duas artes num só espaço – escrever e lapidar – a autora vai além da mera metáfora. Ela cobre o que seria uma narrativa convencional (uma mulher relatando os abusos que sofreu de um parceiro perverso) com uma pátina de intertexto que transforma um caso de dor do amor em algo digno de ser romanceado. Com essa abordagem, ela foge da mera literatura de denúncia, o que no caso poderia se confundir com o jornalismo, a ciência ou mesmo o panfleto político, e faz literatura sem adjetivações.

Estranhamento

“Tempo de migrar para o norte”, do escritor sudanês Tayeb Salih, me faz pensar que existe algo na literatura árabe que me incomoda profundamente. Salih é um grande escritor e a história que ele conta é belíssima, retratando as culturas árabe e africana de forma inigualável. Mas existe algo no modo de narrar da literatura árabe que faz dela algo de difícil fruição, pelo menos para mim. Acho que preciso ler mais autores e autoras árabes e africanos. Estou muito impregnado pelo “modus operandi” da literatura ocidental, eu acho.

Indicado por uma amiga, o pequeno romance “Afirma Pereira”, do escritor italiano Antonio Tabucchi, é uma pequena joia. Conta a história de um jornalista português que, durante a ditadura salazarista, passa seu tempo traduzindo contos franceses para um suplemento literário e conversando com o retrato da mulher falecida. Até que ele conhece um jovem que está envolvido com a oposição à ditadura, o que irá mudar a vida de Pereira. O livro inspirou o filme “Páginas da revolução”, protagonizado por Marcelo Mastroianni.

Ler “A véspera”, do escritor russo Ivan Turguêniev, foi mais um acerto de contas com o meu passado de leitor relapso. Turguêniev foi, além de grande escritor, uma espécie de embaixador da literatura russa do século XIX. Amigo de Flaubert, Guy de Maupassant e Henry James, traduziu para o francês as obras de Púchkin, Gógol e outros. Como se não bastasse isso, foi grande romancista, além de escrever para o teatro. “A véspera” me impressionou pela justeza do texto. Como escreveu Henry James, é ao mesmo tempo crônica singela e um épico em miniatura. E sua principal personagem feminina Elena foi, talvez, a primeira heroína da literatura russa.

Democracia em risco

Saio da literatura em maio para ler sobre a crise política que assola o mundo. O livro “Como as democracias morrem”, de Steven Levistsky e Daniel Ziblatt, é de meter medo. Conforme mostra o livro “Isolar extremistas populares exige coragem política. Porém, quando o medo, o oportunismo ou erros de cálculo levam partidos estabelecidos a trazerem extremistas para as correntes dominantes, a democracia está em perigo”. O livro fala muito dos EUA de Trump, mas serve bastante aos (e) leitores do Brasil.

Li em seguida “O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la”, de Yascha Mounk. O cientista político norte-americano de origem alemã escreveu no prefácio para a edição brasileira do seu livro que “a maioria dos partidários dos populistas tem plena consciência de que seu líder mente, dissemina mensagens de ódio e não passa de um bronco”. Por que, ainda assim, o apoiam? O livro de Mounk tenta encontrar uma resposta. E ele dá uma dica: “é crucial que os políticos da oposição evitem a armadilha de deixar Bolsonaro determinar a agenda política, concentrando-se exclusivamente em suas falhas pessoais e políticas”.

Depois dessa pausa literária, foi com prazer que me voltei para o primeiro romance de José Rezende Jr., “A cidade inexistente”. Contista premiado, Rezende se aventurou na narrativa mais longa, mas manteve uma conexão com seus textos mais curtos. Seu pequeno romance é uma história feita de pequenas histórias. Nesse livro ele radicaliza a linguagem, onde cada capítulo funciona como um conto, mas que encadeados formam uma novela estranha, em certos momentos genial, em outros, irritante. Seria uma grande metáfora social e/ou política do país? Talvez. Um livro para ser ressaboreado.

Defeito de cor

Ler as mais de 800 páginas de “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, é uma aventura. O livro é uma saga impressionante sobre o Brasil da escravidão. A história de Kedhine (ou Luísa Mahim), raptada na África e trazida para o Brasil como escrava, é a mais viva explicação que li ou vi sobre a nossa triste história de racismo e subjugação de um povo. É livro de leitura obrigatória para quem quer compreender os mais de 300 anos de escravidão.

“O homem que odiava Machado de Assis”, de José Almeida Júnior, segue a linha de seu romance anterior, “Última Hora”. Mistura realidade histórica com ficção para produzir literatura. Este segundo livro é mais atrevido e picante que o anterior. A partir de uma lacuna no passado de Carolina Augusta Xavier de Novais, esposa de Machado de Assis, Almeida Júnior constrói uma história de traições e ciúmes, que opõe o maior escritor brasileiro de todos os tempos a Pedro Junqueira, que na história narrada conviveu com Machado de Assis na infância e cujos destinos se veriam entrelaçados décadas depois. É um livro ousado, no sentido de propor uma história alternativa ao inatacável Machado de Assis. Vale também pela pesquisa histórica feita por Almeida Júnior e pela edição produzida pela Faro Editorial, que usou pela primeira vez na capa de um livro a imagem do Machado de Assis negro.

O escritor português José Luís Peixoto escreveu um livro especialmente para a Edições TAG, “Autobiografia”, onde mescla a vida do Nobel de Literatura José Saramago ao do escritor José, que seria o alter ego do próprio Peixoto. Livro repleto de metalinguagem, onde não se sabe quem exatamente é José, Saramago ou uma das outras personagens. Entre elas, a bela Lídia, leitora ávida de Saramago e que vive um romance com José. O título se refere a uma encomenda recebida por José: entrevistar José Saramago e escrever sua autobiografia. De Peixoto li também em outros anos o belo romance “Galveias”, e “Dentro do segredo: uma viagem pela Coreia do Norte”, misto de livro reportagem e de viagem. Escritor de muito talento e que tive o prazer de entrevistar para o Casa das Palavras, da TV Câmara.

O livro “A uruguaia”, do escritor argentino Pedro Mairal, é daqueles romances que trazem uma bela sacada e que te prendem do começo ao fim. O personagem principal é um escritor argentino endividado, que sempre que precisa receber algum dinheiro de fora pelos direitos autorais viaja para o Uruguai para sacar o dinheiro lá e, desta forma, fugir dos impostos. Mas numa dessas viagens ele conhece uma uruguaia e a história tomará um rumo incerto. Novela ligeira, mas muito bem escrita e com ótimos diálogos.

Em agosto li “Torto arado”, do escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior. Transitando entre o clássico e o moderno, é um romance forte e sensível. Ao contar a história das duas irmãs que vivem nos cafundós do Brasil, numa terra onde as pessoas são apenas instrumentos para a riqueza dos donos do lugar, como uma enxada ou um arado, Itamar cria uma bela saga brasileira. “Torto arado” lança mão também de certo realismo mágico, mas elaborado de forma bastante original e que se entrelaça naturalmente à narrativa social. O livro recebeu com justiça o prêmio Leya de literatura.

“Filhos da Lua e do Sol: uma saga sul-americana”, de Anjee Cristina Pinheiro Machado é um romance indeciso. Em alguns momentos até errático, mas que resgata a história e a cultura do povo indígena da América do Sul. Nele sabemos, por exemplo, que existiu uma estrada que ligava a terra dos Guaranis e Tupis (filhos da Lua) aos reinos Incas e Maias (filhos do Sol). Um livro importante para quem quer conhecer melhor nossos antepassados.

Leituras cruzadas

Por conta do grupo de leitura “Literatura e Ditadura”, do curso de Letras da UnB, li “Palavras cruzadas”, da Guiomar de Grammont. História muito bem contada sobre a Guerrilha do Araguaia, do ponto de vista dos que sobreviveram e que voltam ao lugar para tentar entender o que aconteceu. Um diário encontrado em um oco de uma árvore na floresta onde aconteceram os combates entre guerrilheiros e militares, nos transporta para a realidade do conflito. Guiomar narra a história com um realismo impressionante.

Também para o grupo “Literatura e Ditadura”, li “Cabo de Guerra”, de Ivone Benedetti. O livro conta o período da ditadura do ponto de vista de um “cachorro”, nome dado pela repressão ao militante da luta armada que traía os companheiros e servia como espião. O romance mostra a crueza de um personagem sem caráter, mas também sem vontade própria, que entrou na luta armada sem qualquer convicção e que a traiu por puro instinto de sobrevivência. Ao mostrar como agia a repressão, a autora mostra também a falta de maturidade dos jovens que faziam oposição ao regime militar.

Este ano tive o prazer de conhecer o escritor Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras. Intelectual de primeira e pessoa boníssima. Fico imaginando se um dia voltaremos a ter pessoas como ele no comando da Educação nacional, ou da Cultura. E para a entrevista que fiz li, entre outras coisas dele, o romance “O Dom do crime”. Livro muito bem-humorado, tal qual o autor, e indicado para quem gosta de ler sobre o Rio de Janeiro e sobre Machado de Assis. A partir de um crime acontecido em 1866, Lucchesi cria a possibilidade de Machado ter se inspirado naquela história policial para construir seu romance mais conhecido: Dom Casmurro.

Memórias negras

Por indicação de uma amiga do clube do livro mais antigo da cidade, li “Becos da memória”, de Conceição Evaristo. Autobiografia delicada, contada de forma poética, como parece ser tudo que sai da lavra dela. Conceição Evaristo faz uma espécie de releitura pessoal de “Quarto de Despejo”, da Carolina Maria de Jesus. Como li os dois livros em datas próximas pude fazer essa comparação. Conceição Evaristo viveu uma vida parecida com a de Carolina de Jesus, mas por ter encontrado caminhos diferentes pela frente, conseguiu construir uma obra que se afasta do realismo incisivo da autora de “Quarto de Despejo”. O livro de memórias de Conceição Evaristo consegue conectar dois universos distintos: o da menina moradora de uma favela e que um dia disse para si mesma que iria estudar para poder contar a história da sua gente, e o da mulher madura, longe da favela, que revisita aquela menina para dela extrair aquela história prometida.

O livro “Correr com rinocerontes” é o primeiro romance de Cristiano Baldi e é resultado de um mestrado em escrita criativa. Daí porque a narrativa caminha sempre no acostamento da pista, no plano da metalinguagem, mas sem se afastar muito do seu projeto literário. É um livro também que se afasta do chamado “politicamente correto”, ainda que o protagonista seja mais vítima do que algoz de suas próprias decisões. Baldi é uma das promessas da literatura surgida no Rio Grande de Sul na última década.

“Afetos ferozes”, da escritora norte-americana Vivian Gornick, é um misto de autobiografia e ensaio feminista, mas sem qualquer recurso ao didatismo ou ao discurso panfletário. Ao contar sua vida ao lado das mulheres (a mãe, as vizinhas, as amigas etc.), a escritora faz ótimas reflexões sobre o “ser feminino” na segunda metade do século 20, sem abrir mão de uma narrativa deliciosa e que não machuca o leitor (ou leitora), apesar das provocações.

Tragicomédia

Li com assombro o novo livro de Chico Buarque: “Essa gente”. Romance estranho (como quase todo livro de Chico), mas também maravilhoso. Acredito que Chico Buarque conseguiu, nesse pequeno romance, traduzir o espírito do nosso tempo. A história do escritor em crise Manuel Duarte, dividido como o Brasil, mostra em forma de diário, mas com várias vozes intercaladas, um Rio de Janeiro fraturado e sem saídas. O termo “essa gente” também pode se referir aos inúmeros personagens das músicas de Chico Buarque, que aqui e ali aparecem (ou se escondem) ao longo da narrativa. Uma “tragicomédia urgente”, como descreve a apresentação do livro, talvez seja a melhor definição para “Essa gente”.

De Stefan Zweig eu havia lido apenas “Joseph Fouché: retrato de um homem político”, biografia brilhante de um dos personagens mais interessantes da Revolução Francesa. Ao receber a nova edição do romance “Êxtase em transformação”, escrito nos anos 1930, grudei no livro e só larguei dois dias depois. Acho Zweig um dos escritores mais talentosos do século XX. Sua capacidade de narrar e, ao mesmo tempo, fazer reflexões sobre a vida e as ideias que nos rodeiam são impressionantes. O livro se passa no período de entre guerras, na Áustria, e conta a história da jovem Christine, que salta da vida humilde e simples de uma cidade do interior do país para um luxuoso hotel nos Alpes suíços, para onde foi encontrar uma tia rica. Ao contar as aventuras e desventuras de Christine, Zweig faz um mergulho profundo na alma humana e na sociedade europeia.

Literatura que resiste

Valeu a espera. O romance "Pontos de fuga", segundo volume da trilogia "O lugar mais sombrio", de Milton Hatoum, deu continuidade à história de Martim, que no livro anterior (A noite da espera), relata sua vida em Brasília. Nesse segundo volume o personagem retorna para São Paulo, onde irá cursar arquitetura na USP. Mas Brasília continua presente na obra, em especial nas discussões dos estudantes de arquitetura sobre os acertos e erros do projeto de Lúcio Costa. "Pontos de fuga" continua a proposta do livro anterior, de ser uma obra de resistência ao autoritarismo e ao esquecimento. Ao contar suas memórias, e as de seus amigos, Hatoum alerta para o futuro, nem sempre luminoso, como nesse trecho de uma carta recebida por Martim, datada de 12 de março de 1980 : "Os milicos e civis golpistas estão enfraquecidos, um dia vão cair fora, depois os saudosistas da infâmia vão dar outro bote, com a cumplicidade do Irmão Poderoso do Norte. A cada vinte ou trinta anos Moloch troca de máscara, mas mantém a cabeça de ganância e crueldade, e o mesmo ventre, que devora e imola crianças. Serão novos tempos de errância, pesadelos em plena vigília, desonra do corpo e da mente".

“Pesadelo: narrativas dos anos de chumbo”, de Pedro Tierra, é a primeira incursão do poeta na seara da ficção. Mas, nesse caso, a ficção é “chamada para decifrar e compreender as múltiplas faces dos dramas que o relatório dos inquéritos, dos interrogatórios não é capaz de capturar”. Pesadelo... é um livro essencial, especialmente quando o país vive mais uma crise de amnésia. Ao narrar suas memórias dos tempos em que esteve preso e foi torturado, Pedro Tierra (pseudônimo de Hamilton Pereira) as mescla às histórias ouvidas e outras apenas entreouvidas na cadeia, para construir um painel chocante sobre os anos de chumbo. Mas, talvez, por ser antes de tudo um poeta, Tierra não se deixou contaminar pelo realismo excessivo e fez do seu livro de contos uma obra sensível sobre um tema tão árido.

A última leitura do ano foi “A ocupação”, de Julián Fuks. O premiado autor de “A resistência” retorna com seu alter ego Sebastian, mas desta vez embaçando ainda mais os limites entre realidade e ficção, pois o próprio Julián participa do livro e dialoga com o escritor moçambicano Mia Couto, que entra na história com uma bela carta enviada ao autor. O narrador, por sua vez, vive três histórias: a que narra a doença do pai; uma segunda sobre o desejo dele e da mulher de terem um filho; e a terceira que mostra a vida em uma ocupação em um hotel abandonado no centro de São Paulo (Cambridge), habitado por moradores de rua e migrantes estrangeiros. “A ocupação” é resultado de duas experiências literárias de Fuks: a da Residência Artística Cambridge e a do programa artístico Rolex.

*A ilustração do texto é de Veridiana Scarpelli, do Instituto Moreira Sales

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