A atualidade de 'Quarto de despejo', seis décadas depois


A história da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é um retrato invertido do Brasil no século 20. Nascida pobre no interior de Minas Gerais e tendo estudado só até o segundo ano do ensino fundamental, foi empregada doméstica e acabou se tornando catadora de lixo para poder sustentar os três filhos que viviam com ela na favela do Canindé, em São Paulo. Preta, favelada, mãe solteira e com pouco instrução. Igual a outras milhões de marias.

Mas Carolina sempre teve um fraco pela leitura. Lia tudo o que encontrava. Para ela, o livro foi a melhor invenção do homem. E das leituras passou à escritura. Sem preocupação com a correção gramatical, preencheu dezenas de cadernos contando sua história e da favela onde morava. No final dos anos 1950 seus diários caíram nas mãos do jovem repórter Audálio Dantas, que trabalhava para o jornal Folha da Noite. É ele quem conta o que sentiu quando leu aqueles cadernos:

“A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”.

Em 1960 seus escritos, depois de trechos publicados na imprensa em 1958 e 1959, virou o livro Quarto de despejo: diário de uma favelada. Fez um sucesso tremendo. Vendeu milhares de exemplares e foi traduzido em 13 países. Mudou por completo a vida de Carolina e de seus filhos. Para o bem e para o mal, como podemos ver nesses trechos de depoimentos de Carolina, publicados na nova edição de Quarto de despejo, de 2018, lançado pela editora Ática :

“Eu não sei o que eles acham no meu diário. Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Fico pensando o que será Quarto de despejo?, umas coisas que eu escrevia há tanto tempo para desafogar as misérias que enlaçavam-me igual o cipó quando enlaça as árvores, unindo todas.”

“Fui perdendo o acanhamento e tinha a impressão de estar no céu. A minha cor preta não foi obstáculo para mim. E nem meus trajes humildes. Chegavam repórteres, entrevistavam-me, fotografavam-me, ficavam lendo trechos do meu diário.”

“Muita gente passou a achar que eu fiquei rica. Procuravam-me como seu eu fosse dona de uma fortuna. Queriam propor negócios malucos. Queriam pedir empréstimos, pedir auxílios descabidos. O que me dói é que se aproximam fantasiados de honestos. Pedem, exigem quase, como seu eu não fosse apenas mãe da Vera, do João e do José Carlos, mas a mãe de todos. Pedem e depois não pagam.”

A nova edição da Ática vem com belas ilustrações do Vinicius Rossignol Felipe, prefácio do Audálio Dantas e um excerto com dados biográficos da autora e trechos de suas entrevistas.

Quarto de despejo é uma obra estranha. Politicamente incorreta (a autora não poupa ninguém em seus escritos), elaborada de forma simples e sincera, com erros e acertos, a história dos moradores da favela do Canindé foge do tradicional embate “pobres versus ricos”. Carolina é dura com seus iguais, a ponto de, em alguns momentos, culpá-los pela situação em que se encontram. Bate pesado também nos políticos e nos empresários sovinas que não se compadecem dos miseráveis. A fome, que a acompanha durante toda a história, é o principal motor da narrativa.

14 de julho...Está chovendo. Eu não posso ir catar papel. O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes. E hoje é sábado. Os favelados são considerados mendigos. Vou aproveitar a deixa. A Vera não vai sair comigo porque está chovendo (...) Agitei um guarda-chuva velho que achei no lixo e saí. Fui no Frigorífico, ganhei uns ossos. Já serve. Faço uma sopa. Já que a barriga não fica vazia, tentei viver com ar. Comecei a desmaiar. Então resolvi trabalhar porque eu não quero desistir da vida.”

Quando o livro de Carolina começou a fazer sucesso, teve gente que acusou a obra de ser uma farsa. “Aquilo, diziam, só podia ser obra de um espertalhão, um golpe publicitário”, lembra Audálio Dantas no prefácio. E foi o grande poeta Manuel Bandeira quem saiu em defesa do livro. Para ele, ninguém poderia inventar aquela linguagem, aquela força criativa, típicas de quem ficou a meio caminho da instrução primária.

Talvez o que mais incomodou algumas pessoas na época foi o sucesso de Carolina. Não admitiam que uma pessoa da favela pudesse vencer na vida escrevendo. Se fosse cantando, rebolando ou jogando futebol, vá lá, mas escrevendo? Não apenas escreveu esse, mas outros seis livros, que não alcançaram o mesmo sucesso de Quarto de despejo. Carolina não deixou de ser pobre, mas conseguiu uma casinha fora da favela e não passou mais fome.

A obra de Carolina Maria de Jesus mostrou ao Brasil e ao mundo que a favela pedia socorro. Seu livro impactou inclusive os debates sobre as políticas públicas da época. Passados mais de 60 anos dos seus primeiros escritos, é duro saber que as favelas se multiplicaram e que a fome, que parecia vencida no século 21, volta a se insinuar nas famílias mais pobres. Por tudo isso, a leitura de Quarto de despejo hoje se faz novamente urgente.

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