Macunaíma ou o país que teima em ser trágico sem deixar de ser cômico


Um País à deriva, que busca saídas, mas só encontra tragédias, mentiras e mau-caratismo. Ou então um País alegre, bem-humorado, sensual, acolhedor e criativo, experiência única no mundo. Esses dois lugares coexistem, e às vezes se anulam. Em outras, um dos dois sai ganhando. Podemos chamar esse país de Brasil. Ou Pindorama. Ou Terra dos papagaios.

Macunaíma, de Mário de Andrade, fez 90 anos. E o filme, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, um dos marcos do Cinema Novo, completa 50 anos em 2019. Em tempos de frustração e perplexidade, é sempre bom olhar para nossas obras fundadoras. E o livro Macunaíma é uma alegoria que nos faz refletir sobre que País é esse e que povo somos nós.

Lançada em 1928, a rapsódia de Mário de Andrade foi prontamente saudada como uma obra revolucionária. Não exatamente por seu enredo, pois o livro lança mão de várias histórias recolhidas pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, em viagem que fez pela América do Sul e que resultou no livro “Do Roraima ao Orinoco”, mas sim pela linguagem utilizada e a capacidade de reagrupar mitos, lendas e linguajar brasileiros em uma obra delirante e crítica.

Nesta semana, a líder indígena Joenia Wapichana, eleita deputada federal por Roraima, ironizou o fato de que o deus Makunaima, que a tudo criou segundo a mitologia dos povos originários de Roraima, tenha se transformado no personagem preguiçoso do livro de Mário de Andrade. “Ele criou tudo o que a gente tem. Somos os netos de Macunaima”, disse Joemia em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Mas é bom lembrar que o personagem de Mário de Andrade, lembrado pelo bordão "Ai que preguiça!", não merece essa pecha. Ao mesmo tempo indolente e inquieto, ele é a síntese do ser humano (ou de um país?) dividido e contraditório.

Muita gente não gosta de Macunaíma (eu mesmo não gostei na primeira vez que li), mas não tem como falar de Literatura Brasileira sem citar a obra-prima de Mário de Andrade. A crítica literária Gilda de Mello e Souza disse que o livro é uma “meditação extremamente complexa sobre o Brasil, efetuada através de um discurso selvagem, rico de metáforas, símbolos e alegorias”.

Lendo Macunaíma com olhar atual, me senti um branco da cidade tendo que enfrentar a selva – real e de sentidos – que são a nossa história e a nossa cultura. Nosso “herói sem nenhum caráter” (subtítulo da obra), que nasce preto em uma aldeia indígena e depois vira branco, é uma espécie de super-homem brasileiro avant la lettre – o personagem norte-americano surge em 1938. Ao mesmo tempo poderoso e fraco, generoso e maligno, inteligente e também capaz das piores burradas, Macunaíma é um espelho que cega. Difícil ler o livro sem virar os olhos para o outro lado da realidade.

No filme de Joaquim Pedro de Andrade, o herói é interpretado por dois atores diferentes: Grande Otelo e Paulo José. Quando negro, apesar das traquinagens, Macunaíma tem a inocência de um animal inteligente. Mas quando sofre uma transformação mágica e vira branco, passa a fazer todo tipo de maldade e a desprezar os irmãos (um índio e outro negro), que seguiam com ele numa viagem para São Paulo. Essa mudança seria uma crítica de Mário de Andrade ao racismo introjetado no povo brasileiro, e em especial em sua elite.

Como nos lembra o texto de apresentação do livro (Edições Câmara), Macunaíma é “uma combinação de espaços, dialetos e elementos populares bem ao gosto do programa modernista, mas também é uma crítica à face negativa da brasilidade. O protagonista preguiçoso e sensual, a um só tempo índio, branco e negro, é a metáfora de um povo em formação, sem nenhum caráter”.

Tal qual um cordel encantado, a história mostra a força física de Macunaíma, que consegue matar o gigante Piaimã, comedor de gente, e recuperar o amuleto muiraquitã; mas também as fraquezas morais, entre elas sua incapacidade de ser leal e desejar a mulher do próprio irmão, Jiguê. Ele é, portanto, um herói de carne e osso, capaz de grandes peripécias e de atos torpes.

Mas o que talvez torne o livro sempre atual é a capacidade de Mário de Andrade de impregnar a história de humor. Mesmo nos momentos mais terríveis, ele consegue fazer piada. Macunaíma é o pai e a mãe do nosso besteirol. Nada mais atual com o Brasil de 2019, onde tragédias reais e piadas prontas se misturam e formam uma gandaia triste, tão ao gosto dos poderosos do momento.

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